Do livro “A lei de Deus” autor: Pietro Ubaldi.
Se soubermos
olhar em profundidade, além da superfície das coisas, veremos um mundo regido
por leis diferentes das que vigoram em nosso mundo. Trata-se de substituir o
espírito de egoísmo e de separatismo vigente, por um espírito de união com Deus
e de colaboração com o próximo. Trata-se de nos colocarmos num estado de
aceitação perante a Lei de Deus. Surge
agora a pergunta: como é possível chegar a compreender esta vontade de Deus a
que devemos obedecer? Deus está
presente, não há dúvida, mas não podemos percebê-Lo em forma material, na
superfície das coisas, com os nossos sentidos. Deus está presente, mas na
profundeza de tudo o que existe. Há
então dois caminhos para percebê-Lo: ou o da introspecção, olhando e penetrando
dentro de nós por intermédio da meditação ou concentração, ou olhando os
efeitos que, da profundidade onde está Deus, vêm até à superfície, revelando
assim a natureza das coisas que os geram e movimentam. Pode-se assim chegar a
compreender o pensamento de Deus, pelo menos no que diz respeito à nossa vida,
quer afinando os sentidos no caminho da espiritualização, quer, para os que não
conseguem olhar para dentro, olhando para fora, ou seja, observando o que vai
acontecendo conosco e ao redor de nós.
A nossa vida e o
nosso destino não se desenrolam ao acaso, mas são dirigidos por Deus. Então, se
os acontecimentos podem, até certo ponto, ser o efeito da nossa vontade, em
grande parte exprimem também a vontade de Deus. As duas vontades se misturam,
colaborando quando concordam, e em luta uma contra a outra quando são
discrepantes. No primeiro caso, dizem a mesma coisa, e então é fácil conhecer a
vontade de Deus. No segundo caso, dizem duas coisas diferentes. Mas, quando
tivermos separado desse conjunto o que é efeito da nossa vontade, restará
aquilo que nos vai revelar qual é a vontade de Deus a nosso respeito. Se
observarmos a nossa vida, veremos que há fatos sobre os quais podemos exercer a
nossa livre-escolha à vontade. Mas, veremos também que existem outros fatos
acima da nossa vontade; são acontecimentos em relação aos quais não há
escapatórias. Há uma parte da nossa vida regida como que por um destino, com
características quase de fatalidade; há uma outra vontade, maior do que a
nossa, à qual, queiramos ou não, temos de obedecer. Em geral, esta é a conseqüência fatal do que
livremente semeamos em nosso passado; fatal, não por um princípio de fatalismo
que nos faria autômatos irresponsáveis, mas como efeito exato da nossa
livre-vontade e do que ela quis realizar no terreno das causas, para que,
conforme a Lei, tivesse de atuar no terreno dos efeitos. Aqui termina o domínio
da nossa livre-escolha e vigora, em seu pleno poder, a Lei, que exige sempre
obediência. Entramos aqui no domínio do destino, e vemos a maneira pela qual o
construimos para nós mesmos. Os
inteligentes procuram conhecer a Lei nos seus princípios gerais e a Vontade de
Deus no caso particular das suas vidas. Aceitando o que eles sabem que é justo,
evitam atritos, choques, revoltas que geram a dor. Os que não possuem esta
inteligência e boa vontade, os que estão ainda mergulhados na ignorância e na revolta, ao invés de aceitar,
rebelam-se, aumentando assim as suas faltas, piorando a sua posição, amontoando
novas dívidas por cima das antigas.
Queiramos ou não,
nos fatos concernentes a nós, a nossa vontade e a Vontade de Deus trabalham
juntas. Não que a boa vontade do homem tenha de colaborar, mas porque Deus
permite que trabalhe também a nossa vontade, para a qual estabelece limites,
efeitos e direção final. Podemos assim calcular quantas forças atuam
entrelaçadas, a todo momento, em cada ato da nossa vida. Antes de tudo, está
presente a nossa vontade passada, agora na forma dos seus efeitos que aparecem
como fatais. Acima desses impulsos sobrepõe-se e opera a nossa vontade atual
que tem o poder de corrigir, nos seus efeitos, aquela nossa vontade passada,
iniciando novos caminhos ou endireitando os antigos.