Luz.

Luz.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O amor.

       
         Que eu não veja empecilhos na sincera
         união de duas almas. Não amor
         é o que encontrando alterações se altera
         ou diminui se o atinge o desamor.
         Oh, não! Amor é ponto assaz constante
         que ileso os bravos temporais defronta.
         É a estrela guia do baixel errante,
         de brilho certo, mas valor sem conta.
         O amor não é jogral do tempo, embora
         em seu declínio os lábios nos entorte.
         O amor não muda com o dia e a hora,
         mas persevera ao limiar da morte.
         E, se se prova que num erro estou,
         Nunca fiz versos nem jamais se amou.
                             
                              W. Shakespeare.    

Esta é uma das poesias deixadas para nós por um gigante das letras, o maior escritor de todos  os  tempos.
Ninguém, antes ou depois de Shakespeare superou seu gênio. Ele tinha o dom de brincar com as palavras e transformá-las em pura criação artística. Seu gênio    tinha parte com os deuses da arte. Ele era o predileto do deuses.
Nunca antes ou depois dele um escritor atingiu um patamar tão elevado na criação artística. Sua obra até hoje assombra gerações. Quem senão Shakespeare seria capaz de escrever “Hamlet,” uma das maiores criações de um cérebro humano em todos os tempos, “Macbeth,” outra portentosa obra, “Rei Lear,” esta é uma obra  espantosa, sem palavras fica o leitor ao terminá-la.
Na poesia acima transparece a sensibilidade, o gênio de Shakespeare aliado à sua sabedoria. Ele descreveu  com extrema beleza uma realidade psicológica universal sobre o amor e a implicação que a falta ou desatenção disto causa à humanidade.
O primeiro e o segundo verso: “Que eu não veja empecilhos na sincera união de duas almas, ” por si só já daria tema a um longo discurso.
Quantas vezes o amor sincero é postergado e ultrajado no lodaçal do preconceito, da covardia, do medo, da maldade e da estupidez? Quantas vezes as convenções tolas falaram mais alto diante do amor? Quantas vezes o orgulho, a vaidade e o interesse baixo  postergaram o amor?
Shakespeare quis referir-se a isto. Seu coração bondoso e sensível compreendia a dor flagelante do amor sincero frustrado, derreado e abatido nas florestas perversas do mundo.
Do segundo ao sexto verso: “Não amor é o que encontrando alterações se altera…” até “que ileso os bravos temporais defronta,” Shakespeare menciona uma realidade esquecida ou não percebida pela maioria da humanidade. Parece óbvio e muito simples, mas não é assim.
O amor verdadeiro é um sentimento imutável. Ele pode ficar inativo por algum tempo apenas, mas vai retornar à tona sempre, aconteça o que acontecer. Sua força aumenta com o tempo e os obstáculos só fazem fortalecê-lo ainda mais. Esta é justamente a prova definitiva da predominância do amor diante da paixão passageira. A paixão é sempre passageira, não tem força para durar, pois é um sentimento superficial e fraco.
Uma pessoa pode se apaixonar muitas vezes, mas o amor nunca bate mais de uma vez à porta de nosso destino. Nunca se ama mais de uma vez.
“O amor não é jogral do tempo, ...” O bardo aqui superou-se. Quanta sabedoria em uma única frase! Podemos traduzi-la assim: “O amor não é um palhaço do tempo.”  "O tempo não pode brincar com o amor.” Que o digam a multidão de pessoas que vieram e partiram na estrada ruinosa do destino humano, as quais receberam do destino a benção raríssima do amor e abriram mão dele.
O tempo passou e mudou tudo em suas vidas. Mas a marca do amor ficou gravada a ferro e fogo em suas almas.
Assim é o amor: o maior tirano do universo. Ele abre as portas da felicidade para sempre se aceitamos seu convite, mas ele pode matar e agonizar um coração até à morte diante da loucura infame de sua recusa.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

No topo da montanha.

Subi ao topo da mais alta montanha do mundo. De lá avistei cidades e nações a perderem-se de vista.
Eu vi multidões carregarem o peso de sua ilusão todos os dias.
Eu vi os homens se atormentarem mutuamente no jogo insidioso de suas vidas.
Mulheres beijavam seus bebês e acalentavam-nos ternamente nas praças do mundo.
Crianças brincavam e saltavam alegremente nos gramados do mundo.
Eu vi nosso astro rei a iluminar as carantonhas tristes dos infelizes, para que eles saúdem a rosa da alegria.
As flores do mundo perfumavam o cenário triste das cidades, amortecidas, escurecidas e frias para que o mundo não pereça em sua infeliz alienação distante da natureza.
O ar rarefeito do topo aproxima a alma de Deus  purificando-a de suas máculas mundanas.
O coração se enternece à proximidade das estrelas e se desmancha encantado com a luz.
A alma estremece e vibra dos pés à cabeça, apaixonada por todas as constelações do universo.
O desejo de partir ao infinito se apodera de nosso coração e a alma arranca do fundo de si o grito de liberdade infinita que pesa angustiosamente dentro de si em sua prisão.
O amor, o maior tesouro do universo, vem à tona sem pedir licença.
O amor desabrocha repentinamente e inunda nossa alma por todas suas reentrâncias.
Um jato insopitável de bondade,  alegria e beleza toma conta de nossa alma.
A alma sente um desejo louco de dançar ao ritmo das estrelas.
O tempo desaparece totalmente, abrindo passagem à eternidade de Deus.
O passado morre junto às nossas loucuras e uma nova vida se apodera de nosso destino.
Uma multidão de anjos veio me visitar no topo da montanha.
Eu sorvi o cálice de luz oferecido por mãos de anjos sorridentes.
Eu brinquei com os raios de sol. Minha alma saltou de alegria como a mais feliz criança do mundo.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Busca...

Minha alma, qual um andarilho das estrelas, te procurava nos caminhos do tempo.
Penetrei na grande floresta fantástica e perguntei a todos os girassóis se haviam  visto aquela que minha alma adora.
Os girassóis abriram suas folhas e apontaram para o céu.
Enveredei por sendas coloridas repletas de rosas gigantes que pareciam sorrir à minha passagem. O chão era dourado e cintilava maravilhosamente sob meus pés.
Encontrei uma pastorinha a brincar alegremente com seu gracioso rebanho de ovelhas. Era uma criança e tinha a inocência dos santos estampada em seu rosto. Perguntei-lhe se ela havia visto o amor de minha alma. Ela apontou-me para o céu.
Voltei a caminhar pela vereda dourada. Logo após uma curva acentuada deparei-me com um magnífico palácio edificado sobre o solo dourado e cercado por jardins imensos de uma beleza inefável. Flores lindas de cores vistosas e luminosas cercavam o palácio até perder de vista. Um portal gigante e luminoso estava diante de mim. Tão logo me aproximei, a porta se abriu e uma linda criança apareceu. Ela era pequena, seu rosto era muito bonito. Seu sorriso era cativante e seus olhos emitiam uma luz diáfana que se espalhava em volta de si causando uma deliciosa sensação de alegria, paz e bem estar. Como antes, eu perguntei-lhe se havia visto aquela que meu coração ama. Vi seu lindo rosto abrir-se em um delicioso sorriso e ela também apontar para o céu.
Seu nome era Corina, a feiticeira boa, ela me ofereceu uma poção mágica e disse que a poção tinha o efeito de curar a saudade que me atormentava e corroía meu coração.
Voltei à vereda e continuei minha busca. Encontrei logo adiante um castelo soberbo de dimensões gigantescas, suas torres pareciam atingir as estrelas. Haviam várias bandeiras brancas hasteadas em suas muralhas. Suas paredes eram de um material etéreo e também cintilavam. Era uma edificação grandiosa de encher os olhos e a alma de qualquer mortal.
Havia um guardião à entrada, o qual convidou-me a entrar. Ao ultrapassar a barreira gigantesca das muralhas e o portão cintilante, meus olhos maravilhados depararam com um imenso saguão onde havia telas magníficas nas paredes coloridas com uma cor desconhecida para mim e como tudo ali, também cintilava uma luz extremamente brilhante para meus olhos humanos. Estátuas lindíssimas de homens e mulheres de uma beleza sem par espalhavam-se por todo o saguão. Eram feitas de um material diáfano e pareciam ter sido esculpidas por um anjo.
No centro do saguão havia uma imagem em forma de quadro a qual  sobressaía-se naquele ambiente.
Era uma tela gigantesca pintada com cores luminosas na qual havia a imagem de cupido, segundo a criação grega.
Uma criança de uma beleza estupenda carregava um alforje nas costas e segurava uma flecha.
Maravilhado com tudo o que eu via  notei uma porta gigantesca se abrir e meus olhos espantados viram a mais fantástica visão de toda a minha vida.
Eu vi cupido! Não o bebê rechonchudo e lindo que eu vira na tela, mas um ser lindíssimo, o qual tinha a aparência de um ser humano, mas seu rosto, seu porte majestoso, eram de um anjo celeste. A sublimidade estava estampada em seu olhar. A beleza parecia espalhar-se por todos os poros de seu ser. Seus passos deixavam um rastro de luz azul que mais parecia o reflexo de algum sol gigantesco azulado.
Ele tinha asas belíssimas e sorria divinamente.
Ele carregava um pergaminho no qual eu li em letras graúdas: “O livro do destino.” Havia uma chave logo abaixo da frase e abaixo da chave a imagem daquela que minha alma ama e eu ao seu lado. A imagem estava sobreposta a um coração. Ao lado da chave estava escrito com caracteres brilhantes a palavra mais sagrada do universo: Deus.
E assim, você apareceu em minha vida.

sábado, 19 de março de 2016

Subconsciente e herança psíquica.

Quem lida com computadores já ouviu, ao menos uma vez, o termo “desfragmentação.” É quando o sistema  corrige  um computador quando ele  fica repleto de “cacos,” fragmentos de arquivos espalhados, os quais dificultam muito o trabalho do sistema, tornando o sistema lento, afetando seu desempenho.
Podemos usar esta situação  para estabelecer uma analogia com o que acontece em nossa cultura universal.
Todos tem que necessariamente  sentir na pele, por assim dizer, a influência deixada por gerações anteriores à sua, às quais deixaram imprimidas na tela psicológica de nosso subconsciente os “cacos,” psicológicos e morais, os quais pesam muito em nossa economia psíquica, causando dificuldades, aborrecimentos e tormentos no dia a dia de todos nós.
Estes “cacos” são tendências inferiores, maldosas, verdadeiros lixos mentais, uma bagagem infeliz de misérias e perversidades que todos herdam.
É o preço da irresponsabilidade, do egoísmo e da inconsequência humana. Gerações e gerações do passado, despreocuparam-se de vigiar sua alma e não combateram o mal, deixando irresponsavelmente para as gerações seguintes. Estas gerações seguintes fazem o mesmo e assim o mundo caminha.
Aqui podemos  chamar a atenção a um dos postulados fundamentais do espiritismo: a  doutrina das vidas sucessivas. O espiritismo esclarece que todos nós evoluímos no tempo por meio de infinitas existências, reencarnações em várias épocas e lugares, nas quais a alma expia suas culpas, purifica-se no cadinho da dor e cresce espiritualmente falando, evoluindo intelectual e moralmente vida após vida.
O que não se faz em uma vida, far-se-á na seguinte.
Assim, os “cacos” a que nos referimos das gerações passadas, as tendências maldosas, egoístas e irresponsáveis imprimidas no subconsciente de todos são nossa própria obra em outros tempos. Aqui podemos admirar a inexorável justiça de Deus. Cada um colhe aquilo que planta, ninguém pode invadir o destino alheio.
Esta bagagem perversa que carregamos é o produto de nossa escolha individual. É o preço que pagamos por abandonarmos o caminho divino e abraçarmos o caminho das trevas, criação do diabo.
Em algum tempo de nossa história aconteceu uma tragédia de dimensões cósmicas, o universo cindiu-se e fomos exilados para o abismo tenebroso onde gememos, choramos, sofremos e  enlouquecemos de dor.
As vidas sucessivas são um apanágio da previdência, sabedoria infinita e da misericórdia sublime de Deus. Uma oportunidade sagrada para purificarmos nossa alma, expiarmos nossas culpas, aprendermos e nos aperfeiçoarmos na estrada do tempo.
Esta viagem forçada é um roteiro obrigatório a todos nós, mas a misericórdia infinita de Deus não nos deixou entregues à nossa própria sorte. Seu amor infinito nos acompanha permanentemente nesta longa estrada. Ele nos ama incondicionalmente. Mesmo nas trevas terríveis do mal, Deus nunca nos abandona.
 É a Deus que devemos atribuir nossa salvação nesta viagem. Sem Sua bondade infinita, sem Sua sapiência, sem Seu amor magnânimo, estaríamos afundados no mar de nossa maldade e enlouqueceríamos para sempre,  cegos e amarrados às peias  do diabo.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Alegria: um novo parâmetro.

Todos temos a obrigação de cultivarmos a alegria. Palavras um tanto incabíveis em determinadas situações, mas nem tanto.
A alegria é um dom divino. Não aquela alegria inferior, rebento das trevas, filha da inconsciência irresponsável e sim aquela alegria saudável, filha da luz.
As crianças são um exemplo marcante de como a alegria enfeita a existência humana.
O sorriso e a alegria naturais da criança é um convite de Deus à esperança divina. A criança quando sorri a um adulto está transmitindo aquela luz maravilhosa, a qual provém da mesma fonte que ilumina todas as estrelas do céu.
Esta relação entre sorriso infantil e esperança salta à vista quando se observa a total dependência e carência da condição infantil. Parece  existir uma confiança natural, totalmente espontânea na sabedoria de Deus, na vida. Isto lembra muito a alegria dos santos.
Os santos eram alegres. A dor nunca abateu a alegria dos santos. Eles deixaram uma mensagem sublime, uma estrada encantada e divina para o céu sob a égide da alegria. Os santos transformaram sua dor em trampolim para a alegria.
Esta alegria atrai os anjos. Por isto a infância sempre foi considerada par a par com os anjos.
A existência humana e suas mil dores, suas lutas, suas lágrimas e angústias, é um campo muito pouco propício para o cultivo da alegria. Mas, quanto mais infeliz e dura for uma situação, maior é o mérito de cultivar a alegria.
Basta observar as crianças, elas não ficam tristes por muito tempo. Seu coração ainda virgem abre-se espontaneamente ao convite e ao amparo de Deus.
Não é apenas inconsciência, não é apenas desconhecimento da infeliz realidade humana, é antes a pureza, a confiança, a fé sem maldade que se abre à luz divina, a qual provém do coração infinitamente bondoso de nosso Pai Celeste.
Um dos maiores tropeços da humanidade, um dos maiores erros de nossa condição é o abandono voluntário a esta fonte pura e sublime que está implantada no coração de todos, mas o tempo, a perversidade do mundo e a natural maldade humana, filha do diabo, porfiam por aniquilar. Certo estão as crianças.
Uma troca sublime de emoções entre a criança e Deus acontece no interior da criança, um diálogo encantado sob o carinho generoso de uma corte de anjos, os quais plantam nos corações pequeninos o girassol da alegria, para que seus corações voltem-se sempre para este sol divino durante toda sua vida.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Moralidade e civilização.

Nossa psique é composta de elementos díspares. Isto faz nossa constante discrepância. O elemento essencial de nossa psique é a moralidade. A moralidade é a parte básica, o timão psicológico que conduz a alma humana durante sua viagem humana. Sem este guia a iluminar a consciência humana, a alma desanda e se degrada até o fundo do poço.
A moralidade é uma bagagem de princípios éticos, religiosos, espirituais, os quais são indispensáveis a qualquer ser humano.
Estes princípios são leis universais, tão concretas como as mais evidentes leis biológicas. O desrespeito a estas leis gera consequências terríveis a quem se atreve a isto.
A bagagem da moralidade está enraizada na alma humana e tem relações ocultas, mas concretas com Deus.
A educação humana, extremamente falha e imprecisa hoje, terá no futuro um conteúdo moral ponderável.
As gerações do futuro, mais esclarecidas, mais amadurecidas e espiritualizadas de que as atuais, saberão compreender a importância do equilíbrio moral e as consequências desastrosas de seu abandono.
A moralidade está presente em todos, mas na maioria está em estado  virtual. O que aconteceu, quais as causas disto? A resposta está em nossa origem profunda perdida na estrada do tempo, mas guardada em nosso subconsciente.
Nossa personalidade é o produto de nossa história no tempo. O resultado penoso de vidas infinitas em nossa viagem à luz. Dores, misérias, erros, acertos, alegrias e tristezas são o fardo comum a todos.
Cada vida forma um elo com as anteriores onde há um desenvolvimento moral contínuo. Vida após vida a alma conquista poder, fortaleza moral e consciência moral cada vez mais pura. Isto é válido tanto para o indivíduo como para nações.
Não é difícil observar os lamentáveis desastres relacionados ao desleixo moral em nosso mundo. Todos os dias pessoas vão à sarjeta devido ao álcool, às drogas, ao crime e à devassidão. São pessoas de moralidade baixa, ou mesmo inexistente. Basta olhar a vida destas pessoas, sua situação degradante, miserável, terrível e angustiante, para meditarmos na importância indispensável do equilíbrio moral, uma salvaguarda para nossa saúde física e mental.
Também a moralidade está intimamente ligada às leis invisíveis do universo, mas extremamente poderosas, às quais causam muitos dissabores a quem as desrespeita.
Nossa infeliz, egoísta e perversa civilização está em constante conflito com estas leis. Isto é causa a muitas dores e misérias a todos aqueles e aquelas que se deixam embair por seus astutos convites.
Não é à toa que milhões de pessoas morrem precocemente todos os anos. Elas vão ao túmulo com o corpo carcomido por doenças terríveis e mortais, passam seus últimos dias, gemendo, chorando e arrastando seu corpo cansado e oprimido. Seu rosto repleto de rugas precoces, magras, saúde arruinada e muito tristes, elas são o retrato fiel da realidade falsa e perversa aplicada à alma de todos os viventes deste mundo por nossa civilização imoral, vazia e demoníaca.

sábado, 12 de março de 2016

Schopenhauer.

Inteligência privilegiada, cultura vasta, perspicácia e sagacidade naturais. Atributos grandiosos e raros formavam a capacidade intelectual de um dos maiores gênios da humanidade.
Schopenhauer, seguramente um dos maiores pensadores de todos os tempos, além de um genial pensador era um escritor de primeira categoria. Sua prosa era rica, precisa, objetiva. Ele era capaz de descrever seu pensamento claro, realista e objetivo, sem sacrificar a beleza literária, coisa rara em um pensador.
Schopenhauer foi um dos principais responsáveis, senão o principal, por trazer a filosofia para o ar livre, para a realidade humana cotidiana no século dezenove. A partir de sua época a filosofia européia passou a pensar mais de acordo à estuante e movimentada realidade humana, abandonando o pensamento de gabinete.
Apesar  do sopro de frescor e clareza realista que sua obra genial infundiu ao mundo, podemos apontar falhas em seu pensamento. Schopenhauer era humano e como tal tinha limitações e falhas como qualquer outro ser humano, apesar de ser um gênio.
Era admirável sua erudição. Sem sombra de dúvida uma das mentes mais cultas do século dezenove.
Ao analisarmos seu pensamento podemos notar como a personalidade de  uma pessoa influi seu pensamento, este princípio psicológico é válido tanto para pessoas comuns como para o gênio.
Schopenhauer era arredio, triste e extremamente pessimista. Dizem mesmo que ele era grosseiro. Ele abominava mediocridade, ignorância e estupidez. Basta mencionar isto para imaginar os conflitos constantes entre sua mente superior e genial e o atrasado meio ambiente em que vivia, a Alemanha na primeira metade do século dezenove.
Seu pensamento, portanto, ressentiu-se de sua visão pessimista e triste, produto de sua personalidade, sua história, sua vida.
Ele era simpatizante da filosofia budista, conhecia a filosofia hindu. Sua obra contribuiu para aproximar a filosofia oriental e a Europa.
É no que tange à Deus e o evangelho, onde verificamos uma lacuna enorme em seu pensamento. Faltou entendimento a Schopenhauer para estabelecer relações sutis entre os fatos, suficientes para iluminar sua alma e aproximá-la da realidade espiritual eterna.
Este é um vício comum a muitos pensadores racionais. A história da filosofia está repleta deste vício.
Podemos observar que a barreira principal entre a realidade divina eterna e a razão humana, não é intelectual e sim moral: provém do orgulho humano, uma praga maldita a  envenenar corações.
Deus se aproxima e convida a todos para seu banquete de luz e amor, mas o perverso coração humano prefere fazer ouvidos moucos e dar trela ao mal. O resultado é desastroso para o próprio coração humano. Pois vivemos engajados à justiça de Deus. Esta justiça é inexorável, tudo o que se planta terá que ser colhido,  queira ou não.
Esta é a realidade eterna. Não cogitar sobre isto é bater a cabeça na parede para sempre, sem observar a porta aberta ao lado.
Este estado de alienação perversa e orgulhosa é comum à maioria da humanidade, daí a contínua situação dolorosa que se abate na existência humana.
Deus é a realidade máxima. Ninguém poderá fugir a isto para sempre. Seu poder invencível vence todas as barreiras, arrasa todos os obstáculos.
Schopenhauer, como a maioria dos pensadores, não podia entender isto e até se  opunha a esta realidade, iludido que estava com sua visão mundana, muito distante da sabedoria infinita de Deus.
Ele morreu em meados do século dezenove. Podemos conjeturar sua passagem à realidade espiritual, seu despertar doloroso e pasmo no mundo espiritual, onde impera a verdade nua. Podemos conjeturar o conflito entre suas ideias e a realidade espiritual eterna; podemos imaginar seu sofrimento e o consequente arrependimento diante da imensidão espiritual, onde impera absoluta a sabedoria infinita de Deus e o amor sem fim de nosso mestre maior Jesus.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Se...

Se somos obrigados a viver  nas trevas do mundo, nem por isto vamos macular nossa alma sob sua escuridão.
Se ainda somos fracos e estamos distante da sabedoria divina, nem por isto vamos ser insensatos e tolos.
Se a semente do bem ainda não enraizou definitivamente em nossa alma, nem por isto devemos ser perversos.
Se estamos muito longe da humildade divina, nem por isto vamos dar trela ao orgulho.
Se ainda não atingimos os altos patamares do conhecimento divino, nem por isto vamos ser servos da ignorância.
Se nossa alma ainda não enxerga a luz eterna, nem por isto vamos amar a cegueira.
Se ainda não podemos caminhar ao passo das estrelas distantes, nem por isto vamos arrastar sobre o chão degradante.
Se ainda não podemos amar as claridades do espírito eterno, nem por isto vamos amar as trevas da matéria.
Se  ainda não podemos caminhar par a par com o gênio, nem por isto vamos louvar a mediocridade.
Se o amor ainda não frutificou em nosso coração, nem por isto vamos acolher o ódio e o preconceito.
Se a bondade ainda não vicejou em nosso coração, nem por isto vamos amar o egoísmo e a maldade.
Se a dor visitou nosso destino, lançando nossa alma às terras da agonia e do sofrimento, nem por isto vamos dar trela ao desespero.
Se não temos a luz dos anjos e arcanjos no mundo de Deus, nem por isto vamos dar ouvidos ao diabo.
Se estamos presos à rédea angustiante do mal, nem por isto somos órfãos da misericórdia de Deus.
Se as trevas horripilantes do diabo nos conduz à perdição permanente, nem por isto a salvação de Deus falhará.
Se somos rebentos falazes do mal, nem por isto deixamos de ser herdeiros legítimos de todas as estrelas do universo e temos parte com todos os anjos e arcanjos que iluminam as alturas no céu esplendoroso de Deus.

domingo, 6 de março de 2016

Deus e realidade humana.

“Sucederá que, quando vos multiplicardes e vos tornardes fecundos na terra, então, diz o Senhor, nunca mais se exclamará: A arca da aliança do Senhor! Ela não lhes virá à mente, não se lembrarão dela nem dela sentirão falta; e não se fará outra.
Naquele tempo chamarão a Jerusalém o trono do Senhor; e já não andarão segundo a dureza do seu coração maligno.”
                                     Jeremias 3:16 e 17.

“Nos lugares altos se ouviu uma voz, pranto e súplicas dos filhos de Israel; porquanto perverteram o seu caminho, e se esqueceram do Senhor seu Deus.”
                                      Jeremias 3: 21

Palavras verdadeiras, estas acima, proclamadas pela boca de um dos maiores profetas do antigo testamento.
Notável é a coincidência com os resultados do trabalho moderno de um dos maiores gênios da história: Jung.
Em seus estudos profundos Jung descobriu que  existe um princípio religioso na alma humana, o qual está presente em todas as culturas do mundo em todas as épocas.
Estudos científicos confirmaram que pessoas que tem uma religião vivem melhor que as demais. Tem menos problemas, mais saúde e se dão melhor na vida.
As sábias palavras de Jeremias, o trabalho genial de Jung e as pesquisas científicas aportam ao mesmo porto:
Deus e sua presença real e ativa em nossa alma.
A palavra “Religião,” provém do latim, em sua origem etimológica o significado é “Religar.” Ora, religar quer dizer “Ligar outra vez o que foi desligado.”
Estas últimas palavras tão simples revelam um dos aspectos mais profundos da realidade humana universal.
 Deus está presente dentro e fora de nós, mas perdemos a conexão com a caudalosa fonte da luz divina. O resultado desta apostasia maldita podemos observar nas palavras acima do profeta Jeremias:
“Nos lugares altos se ouviu uma voz, pranto e súplicas dos filhos de Israel; porquanto perverteram o seu caminho, e se esqueceram do Senhor seu Deus.”
Em algum momento de nossa história universal abrimos mão de nossa divindade inata, traímos Deus e franqueamos nosso coração ao diabo. E o diabo se instalou dentro de nós. Com o diabo carreamos para nossa vida as misérias, a dor e o desespero, pois nossa abominável escolha nos fez ser expulsos das magníficas regiões luminosas dos anjos,  do bem e da verdade no seio de Deus, para os confins da matéria onde gememos, sofremos, choramos e enlouquecemos nas masmorras do tempo.
Aqui estamos presos às  férreas jaulas da animalidade, da miséria e da dor, nós que em nossa sublime origem éramos puros espíritos da luz.
E o diabo nos atormenta dia a dia, com seu importuno canto maldito, seu hálito pestilencial e imundo. Sua voz estúpida e perversa, atrai multidões enlouquecidas para seu antro imundo todos os dias.
Ai de quem ouve sua sugestões tortas e perversas!
Esta tragédia universal patética bate de frente ao  amor infinito de Deus.
Ninguém pode viver sem Deus. Sem Deus a criatura afundaria para sempre no mar de sua perversidade e ignorância. É a Deus e  Sua misericórdia infinita, filha de Seu amor inesgotável que devemos nossa libertação das garras perversas do diabo.
Seu coração infinito abraçou toda a criação universal espúria, filha do diabo e acompanhou nosso passo maldito para a infernal realidade humana.
Esta é a luta mais importante do universo. O combate mais valoroso da existência. Todos estamos empenhados nesta batalha eterna entre bem e mal, entre matéria e espírito, tempo e eternidade, luz e trevas, realidade humana e realidade divina.
Nesta batalha, muitos caem todos os dias, vencidos, hipnotizados, iludidos pelo diabo e suas patranhas astutas e perversas. Caem, para depois, arrependidos e cansados suplicarem a misericórdia de Deus, gemendo e chorando.
Esta é nossa história, nosso eterno destino. Deus caminha junto a nós e trabalha incessantemente por nossa salvação eterna. Sua ação divina e persistente faz corroer dia a dia o reduto do mal, o qual é sustentado e protegido pela perversidade, ignorância e estupidez humana.
Quem abrir seu coração a Deus, não deverá temer coisa alguma. Basta mudar o rumo de seus pensamentos, abraçar a honestidade, a luz, o bem, a pureza, o amor, a humildade e a retidão. Sua alma se libertará das garras do maldito e receberá o beijo de Deus a caminho das plagas esplendorosas no seio de Deus, onde reina a paz, o amor, o bem e a verdade por toda a eternidade.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Convite à alma.

Amo Deus, não posso evitar isto. Minha alma se abre a este amor como o girassol aos raios brilhantes de nosso astro rei.
Dia a dia meu amor aumenta mais. Quem pode prever  onde chegará este amor?
Calo meu demônio para que ele não macule a celeste intenção de minha alma e sufoque o voo rumo ao céu das estrelas gigantescas nas estradas infinitas do universo.
Abafo minha miséria humana para que minha alma não morra cansada e triste, sob o peso opressor de nossa eterna miséria.
Ouço a maravilhosa voz divina a cantar dentro de minha alma e convidar-me ao banquete celeste da luz nas plagas distantes onde moram anjos e arcanjos.
Caminho pelas estradas cintilantes da alma todos os dias. Meu coração banha-se no oceano de luz divina e se enche de alegria e paz.
O tempo desaparece junto a seu eterno companheiro, o espaço.
Meu coração transborda de paz e quer compartilhar esta paz com toda a criação.
A luz inunda minha alma e quer tocar a todas as criaturas do universo.
Somos todos crianças famintas, carentes de luz, amor e verdade.
Perdemos nossa alma, trocamos nosso tesouro divino por ninharias ridículas e perversas.
E continuamos a viajar por esta falsa e sombria estrada todos os dias, vítimas  que somos de nosso eterno desatino.
Pagamos com tormentos eternos o preço por nosso amor ao mal em um momento.
Vinde alma irmã, desaferrolhai as correntes de tua alma que te prendem ao diabo.
Vinde para os campos abertos e livres da natureza infinita de Deus, onde poderás colher as rosas brilhantes do amor e da beleza, para enfeitar tua vida e mudar teu destino para sempre.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Velhice: um novo parâmetro.

A velhice é o chamamento da vida à realidade eterna do espírito, um convite forçado aos caminhos da alma, o roteiro verdadeiro às paragens da luz e do amor eterno.
Para a visão tortuosa e falsa do mundo a velhice é apenas  uma fatalidade incômoda e dolorosa da natureza de Deus.
Mas quem vai levar em consideração a falaz opinião do mundo em sua interminável loucura?
A velhice com seus problemas, doenças, cansaço, tédio e solidão é um impulso potente da vida para a libertação das poderosas correntes invisíveis que prendem nossa alma ao inferno do mal e à ilusão.
Diante desta realidade caem os véus de todas as ilusões que norteavam a pobre alma, perdida nos descaminhos do mundo. Poucos tem luz e conhecimento suficiente para afrontar a pressão universal do demônio de cabeça erguida e corajosamente. A maioria desanda, iludida por sua própria covardia e seu amor ao mal.
Todos herdamos a praga do mal ao abrirmos os olhos neste infernal mundo. Poucos entendem que o mal é uma doença que deve ser combatida como outras doenças. O mal é um veneno que se alastra facilmente e que perverte, corrompe, macula e destrói tudo que o cerca.
A velhice força a alma a encarar esta realidade. Muitos lamentam entender isto tardiamente e sentem-se frustrados intimamente.
Todos somos miseráveis pecadores. Para todos nós resta o sol da misericórdia de Deus a iluminar nossa natural escuridão.
A velhice daria razão à fria opinião do mundo se não existisse este sol a iluminar nossas trevas perversas.
A velhice é um anteparo para nossa alma, criado pela sabedoria infinita de Deus. Um freio natural para nossa loucura milenar. Este freio natural faz vir à tona a estrada maravilhosa que conduz ao mundo interior, a fonte eterna da sabedoria e da luz divina, onde fala a voz sublime de Deus a todos nós, convidando para seu reino magnífico de luz, amor, paz e verdade.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O dia e a noite.

O dia é filho da luz para os homens.
O dia é filho das trevas para os anjos.
O dia movimenta os caminhos do mundo
para findar em seu cansaço dolente.

A noite é filha das estrelas distantes.
A noite é filha da luz para os anjos.
O dia cansa braços e pernas e faz
a alma chorar sua prisão perpétua.

A noite abre as portas da alegria
para quem ama o silêncio mavioso,
um dom dos anjos a se espalhar
junto a escuridão da noite.

O dia grita e retumba por toda
parte como um louco desesperado.
A noite sussurra como uma mãe
carinhosa ao ouvido de seu bebê.

O dia acumula dinheiro, mas
assassina a alma eterna.
A noite acumula luz e
ressuscita a alma divina.

O dia é filho do tempo
que passa frio e apressado.
A noite é filha da eternidade e
caminha ao passo das estrelas.


O dia envenena a alma,
esfria o coração e faz
voltar para o céu o beijo
das fadas e dos anjos.

Este beijo é a única coisa
que nos restou entre os
destroços de nossa alma.
Morta, enterrada e coberta

de lama e mil imundícies,
nas clareiras medonhas do
mal que nos assola e seduz
no combate venenoso do dia.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Perversidade.

Não há indício mais patente da crueldade humana como o bárbaro costume de comer carne. É interessante observar quão arraigada está a crueldade na alma humana.
É aqui que notamos o poço sem fundo da maldade humana.
Já observei várias vezes a reação perversa e estúpida de várias pessoas quando eu alertei sobre este amaldiçoado costume. A reação de várias pessoas foi muito parecida. Argumentos perversos, egoístas e falsos, produto de um coração frio, perverso, irresponsável e inconsequente.
Quem come carne não sabe, mas está servindo o diabo e sua caterva maldita.
O diabo quer sangue. Ele adora ver pessoas devorando as entranhas de nossos irmãos menores. Isto causa-lhe um prazer perverso e imundo.
Pessoas com o dom da  vidência revelaram que viram espíritos imundos aspirando vibrações etéreas nos matadouros. Eles saboreavam gostosamente o sangue nos matadouros e vampirizavam as pessoas que participavam deste festim perverso e imoral.
Comer carne é um ato cruel, inconsequente, egoísta e irresponsável. As consequências são desastrosas para quem se aventura a isto. A justiça de Deus pune com severidade a todos os participantes desta antiga cadeia cruel.
Doenças fatais, problemas agonizantes, dores terríveis são a consequência natural deste desrespeito medonho à inexorável justiça de Deus. É impossível  fugir à justiça de Deus. Plantou, terá que colher. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória.
Não apenas o ato em si de devorar a carne de nossos irmãos menores será cobrado, mas também a maldade de prender, maltratar e torturar nossos irmãos menores, filhos do mesmo Deus, os quais evoluem com nós próprios.
No futuro será banido do mundo este costume perverso e imundo, produto do perverso e diabólico coração humano.
Até lá, multidões vão para o túmulo prematuramente todos os dias, vítimas de doenças terríveis, dolorosas. Vítimas da violência, para que sintam na pele a dor da faca, ou do revólver e compartilhem a dor pavorosa suportada por nossos irmãos menores todos os dias.
Deus em sua sabedoria infinita criou uma abundância de alimentos vegetais e espalhou-os por toda a terra para que sirvam de alimento natural, para manter a saúde, disposição e energia. A natureza divina é pródiga em benefícios.
A ciência já descobriu a sabedoria divina por toda a parte. Uma abundância de elementos, vitaminas, minerais e outros curam e previnem doenças, preservam a mocidade, adiam a velhice, causam bem estar, alegria e dão energia.
Não há qualquer necessidade de apelar à crueldade sangrenta para sustentar nosso corpo. Quem pensa assim está com o coração pervertido pelo diabo e sofrerá agruras e misérias angustiantes sob o chicote inexorável da justiça de Deus, até o dia que cansado, doente e amargurado, abrir seu coração triste ao convite misericordioso de Deus.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Viagem.

Estava em São Paulo, para onde viajei.
Depois de percorrer os 250 kms. que separam minha cidade da capital, o carro circulou por ruas e avenidas da gigantesca cidade.
Ao observar o movimento turbilhonante da grande cidade, não pude deixar de refletir em como a existência humana tornou-se complicada e artificial. Como nossa civilização criou tantos embaraços e pesos inúteis que servem unicamente para atravancar nossa caminhada, esfriar nosso coração, sufocar nossa alma e nos fazer gemer perpetuamente sob a carga pesada, até o dia que sucumbimos extenuados na estrada da existência, amargos, tristes e desesperados.
Quase não reconheci que eu também já andei por esta  estrada alienante e falsa.
Fui salvo por Deus antes de enlouquecer e perder minha alma, o bem mais precioso do mundo.
Devo muito a Platão, Sócrates, Aristóteles, Cícero, Dante, Santo Agostinho, Shakespeare, Rousseau, Voltaire, Hegel, Jung, Goethe e tantas outras almas de escol, os gigantes do espírito, os mestres do pensamento universal. Suas obras são repositórios de luz e sabedoria, fontes iluminadas de conhecimento.
Eu bebi a água sagrada desta fonte durante toda minha vida, foi a decisão mais sábia de minha história. Até hoje colho os frutos que semeei no passado e vou continuar a colher até meu último suspiro.
Olhei com grande piedade aquelas infelizes pessoas correndo de cá para lá, ansiosas, estressadas e totalmente alienadas.
Foi assim que percebi o preço terrível que nossa civilização fria, dura e perversa cobra por seus benefícios.
Nossa civilização é um monstro cínico e perverso que explora, engana, usa e abusa de quem deveria proteger e amparar.
Mas não podemos deixar de observar que este monstro não morre devido ao amor de suas próprias vítimas. Elas amam o monstro que as devora,  elas são apaixonadas por aquele  que as enlouquecem, corrompem e infernizam sua vida.
Agradeço mil vezes a Deus ter aberto meus olhos a esta loucura infame. Onde estaria eu se permanecesse neste caminho?
Minha alma, meu tesouro eterno, teria chafurdado na vala imunda onde gemem, choram e gritam desesperados, presos ao monstro por correntes invisíveis, aqueles e aquelas que perderam-se um dia apaixonados pela fera astuta, perversa e fria.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Incompletude.

“Se as coisas para as quais fomos criados não estão à disposição, o que podemos colocar em seu lugar?”
                                        Thoreau.

Todo ser humano sofre a agonia da incompletude. E por mais estranho que pareça, quanto mais conforto, bem estar e qualidade de vida tem um ser humano, maior é sua sensação de incompletude.
Também quanto mais bondoso, inteligente, culto e sensível for um ser humano, maior será seu sentimento de incompletude. A ignorância, a estupidez e a perversidade jamais sentem a agonia da incompletude, mas também nunca vão colher os frutos divinos oferecidos por Deus a quem souber ler o pergaminho invisível, escrito no fundo de nossa alma com letras cintilantes por Nosso Pai Celestial.
Chega um tempo em nossa história  que nosso coração sente o vazio intolerável oculto por trás de tudo.
Somente o cansaço, a experiência dos anos, os achaques, as doenças e tantas outras coisas, companheiras permanentes da velhice, tem poder de arrancar o coração humano de suas ilusões e focá-lo na realidade do espírito.
A velhice, uma criação sábia e poderosa da sabedoria divina, é um anteparo para a alma, onde a solidão forçada
encaminha a alma para si própria.
Muitos se espantam com o que perderam a vida inteira. Muitos lastimam. Outros compreendem o absurdo peso do mundo sobre sua vida. Percebem que a vida inteira sua alma estava acorrentada ao mundo. O mundo escolhia por eles, o mundo ditava suas regras tortas e falsas e eles beijavam as mãos de seu perverso e cruel ditador.

O mundo sobeja estupidez. O mundo ama suas trevas maldosas, inimigas do espírito, avessas à alma eterna.
Quantas gerações e civilizações vieram e partiram em nossa história tão antiga. Uma infinidade de pessoas, nasceram, sofreram e partiram. Sentiram como nós a eterna agonia da incompletude que amarga nossa existência e nunca nos abandona, até quando esmagados por seu peso insuportável, fizermos as pazes com Deus e com o coração e a alma purificados das imundícies perversas do mal, poderemos olhar para dentro de nós sem o veneno da angústia e da vergonha.
Haveremos de encarar a luz de Deus frente a frente. Seremos um cidadão do Universo, amigo do bem, da luz e da verdade.
Compartilharemos o amor divino e nunca mais sofreremos a insuportável e terrível angústia da solidão e da incompletude.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Vida e Internet.

Uma das mais poderosas criações da Vida, a internet está revolucionando nossa civilização. Sua esfera de ação está revolvendo nossa civilização de alto a baixo.
Muito além do aspecto tecnológico, a internet está ocasionando uma verdadeira revolução na estrutura social e econômica do milenar edifício político-econômico social de nossa perversa, egoísta e iníqua civilização.
Apesar de ser um instrumento fácil para a criminalidade, o abuso, a violência e principalmente para a futilidade, não podemos deixar de observar o papel precioso que a internet desempenha para a divulgação da informação e o conhecimento, o único tesouro imperecível que podemos carregar conosco para sempre.
Milhões de pessoas se ajudam mutuamente todos os dias, trocando a moeda infinitamente valiosa do conhecimento.
É  impressionante o número de pessoas que   dispensam tempo, energia e boa vontade para oferecer produtos gratuitos em todo o mundo.
A Vida vai despejar uma abundante colheita de bençãos à bondade destas pessoas. Deus  nunca deixa o bem sem recompensa. Estas pessoas abriram seu coração às fontes magníficas da bondade e deram ouvidos à voz sapiente de nosso salvador: “Ajudai-vos uns aos outros.”
É o alicerce da nova civilização do espírito, do amor e da bondade que está sendo edificada sobre a milenar civilização perversa e egoísta, baseada na exploração  vergonhosa do próximo, no ódio, preconceito, vaidade   e no orgulho.
Os raios luminosos desta nova civilização já despontaram no horizonte. Tudo o que conflita contra sua luz será abolido para sempre de nosso mundo. Esta é a vontade poderosa de Deus, ninguém pode   vencê-Lo.
A internet deu um poderoso pontapé na economia do mundo com a criação das moedas virtuais, principalmente o bitcoin. Uma criação poderosa que vai revolucionar a economia do mundo até as bases e vai transformar o panorama econômico do  mundo para sempre.
As grandes empresas, os grandes grupos, os grandes bancos do mundo não olham com bons olhos esta transformação, mas é em vão.
A trombeta do destino anunciou a morte próxima de um dos mais fiéis representantes do diabo neste mundo. Um dos maiores servidores do demônio e sua caterva maldita neste inferno: O capitalismo. Produto direto do egoísmo e da perversidade, duas das piores faces do diabo, o capitalismo é o monstro impiedoso, frio, egoísta e perverso que enriqueceu-se e engordou às custas do sofrimento, da exploração desumana e fria daqueles que deveria proteger.
A história não nega. Crianças pequeninas, mulheres, jovens e homens morreram esfaimados, prostrados e doentes sob o tacão de sua exploração impiedosa e perversa.
O monstro egoísta não larga seu bocado com boa vontade. Ele usa de todos os recursos que dispõe, honestos ou não,
para manter seus privilégios egoístas e perversos.
Suas relações escusas com o governo e o poder público em todo o mundo o protegeram durante muito tempo.
Mas o monstro está com os dias contados, sua carantonha maldita será banida do mundo para sempre. Sua perversidade escabrosa vai corroer a si próprio no charco  terrível  de suas misérias, para onde a inexorável justiça de Deus o enviará para sempre.
E tudo começou com a internet...


                                         

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O desapego.

Quão difícil é a lição do desapego! E no entanto, a vida não ensina outra coisa momento a momento.
O tempo passa e escorre entre nossos dedos como areia. Nós parecemos um boi moroso, circulando calado e cabisbaixo em sua estreita rotina sufocante, a carregar sua carga pesada na esperança de acumular para o fim de sua jornada, mas depois, prostrado, doente, triste até o fundo da alma, ao verificar sua carga, percebe que estava repleta de ilusões e futilidades vazias.
E o boi fica a olhar o ar vazio diante de si e abana sua cauda tristemente…
Pessoas e coisas, tudo vem e vai, aparece e desaparece em nosso caminho. Um eterno vai e vem como as ondas do mar.
Fomos feitos para beijar as andorinhas, mas não para retê-las. Fomos feitos para aspirar o perfume das rosas, mas não para guardá-lo.
Somos viajantes, estamos aqui de passagem para outros destinos. Nossa estadia aqui é passageira, teremos que voltar forçosamente para nosso destino. Por que atulharmos de coisas que não podemos levar para lá? Tais coisas só atravancam nossa estadia, causam um peso inútil e muitas vezes fazem-nos desviar de nosso roteiro, causando atrasos, paradas intempestivas e um mundo sem fim de tormentos desnecessários.
Só quem cultivou o jardim da alma eterna e espalhou em seu caminho as sementes do conhecimento, do bem, do sacrifício, da luz e da humildade, poderá ser iluminado com a chama divina que provém do seio de Deus eternamente ao voltar para seu destino permanente.
O mundo repete sempre o refrão de sua ilusão demoníaca a todos que chegam e partem. Ao olhar um cemitério o olhar falso e distorcido do mundo não enxerga a mais severa advertência do destino, porém permanece em sua cegueira milenar, mas alguns olham para o céu e conhecem o caminho para as estrelas. São amigos da solidão, amantes dos livros e apaixonados pela sabedoria.
Eles amam o desapego, pois conhecem a tolice de seu convite. Não palmilham o caminho torto das massas. Não ouvem a voz do momento ínfimo que passa no perpétuo giro das coisas, mas ouvem o chamado de Deus que ressoa silencioso e pertinaz dentro de si, convidando à Sua  maravilhosa luz eterna.




sábado, 30 de janeiro de 2016

Palavras...

Texto do livro “O consolador,” Emmanuel, psicografia: Chico Xavier.

124 -Qual a importância da palavra humana para as conquistas evolutivas do espírito?
 -A palavra é um dom divino, quando acompanhada dos atos que a testemunhem; e é através de seus caracteres falados ou escritos que o homem recebe o patrimônio de experiências sagradas de quantos o antecederam no mecanismo evolutivo das civilizações. É por intermédio de seus poderes que se transmite, de gerações a gerações, o fogo divino do progresso na escola abençoada da Terra.



161 –Que é arte?
-A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças da alma. O artista verdadeiro é sempre o “médium” das belezas eternas e o seu trabalho, em todos os tempos, foi tanger as cordas mais vibráteis do sentimento humano, alçando-o da Terra para o Infinito e abrindo, em todos os caminhos a ânsia dos corações para Deus, nas suas manifestações supremas de beleza, de sabedoria, de paz e de amor.

162 –Todo artista pode ser também um missionário de Deus?
-Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas cristalizações do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das ideias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da atividade que lhes é próprio, como a literatura, a música, a pintura, a plástica. Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão-somente a luz espiritual que vem do coração uníssono como cérebro, nas realizações da vida, então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus, porquanto saberá penetrar os corações na paz da meditação e do silêncio, alcançando o mais alto sentido da evolução de si mesmo e de seus irmãos em humanidade.

165 –Como poderemos entender o psiquismo dos artistas, tão diferente do que caracteriza o homem comum?
_O artista, de um modo geral, vive quase sempre mais na esfera espiritual que propriamente no plano terrestre. Seu psiquismo é sempre a resultante do seu mundo íntimo, cheio de recordações infinitas das existências passadas, ou das visões sublimes que conseguiu apreender nos círculos de vida espiritual, antes da sua reencarnação no mundo. Seus sentimentos e percepções transcendem aos do homem comum, pela sua riqueza de experiências no pretérito, situação essa que, por vezes, dá motivos à falsa apreciação da ciência humana, que lhe classifica os transportes como neurose ou anormalidade, nos seus erros de interpretação. É que, em vista da sua posição psíquica especial, o artista nunca cede às exigências do convencionalismo do planeta, mantendo-se acima dos preconceitos contemporâneos, salientando-se que, muita vez, na demasia de inconsiderações pela disciplina, apesar de suas qualidades superiores, pode entregar-se aos excessos nocivos à liberdade, quando mal dirigida ou falsamente aproveitada. Eis por que, em todas as situações, o ideal divino da fé será sempre o antídoto dos venenos morais, desobstruindo o caminho da alma para as conquistas elevadas da perfeição.

209 –O escritor de determinada obra será julgado pelos efeitos produzidos pelo seu labor intelectual na Terra?

-O livro é igualmente como a semeadura. O escritor correto, sincero e bem intencionado é o lavrador previdente que alcançará a colheita abundante e a elevada retribuição das leis divinas à sua atividade. O literato fútil, amigo da insignificância e da vaidade, é bem aquele trabalhador preguiçoso e nulo que “semeia ventos para colher tempestades”. E o homem de inteligência que vende a sua pena, a sua opinião e o seu pensamento no mercado da calúnia, do interesse, da ambição e da maldade, é o agricultor criminoso que humilha as possibilidades generosas da Terra, que rouba os vizinhos, que não planta e não permite o desenvolvimento da semeadura alheia, cultivando espinhos e agravando responsabilidades pelas quais responderá um dia, quando houver despido a indumentária do mundo, para comparecer ante as verdades do Infinito.

                                                              -X-

As respostas às perguntas acima, ditadas pela sabedoria de Emmanuel, concernentes à palavra, à vida intelectual e à arte, confirmam uma revelação pessoal que obtive recentemente, a qual sacudiu minha alma até as profundezas.
Ao ler mais um comentário de uma leitora no google+ percebi que ela utilizou expressões minhas para exprimir seu pensamento.
Já havia notado isto há algum tempo. Não só as palavras, mas também as ideias dela estavam visivelmente impregnadas por meu pensamento.
O mesmo ocorreu em uma conversa que tive com uma pessoa em minha cidade, a qual também é minha seguidora na rede social google+. Percebi que ela expressou meu pensamento.
Isto me fez refletir sobre a poderosa força da palavra escrita. Uma fonte invisível capaz de ocasionar efeitos profundos, os quais podem repercutir por milhões de anos e espalhar-se por toda a Terra.
As gerações de antanho descobriram isto. A máxima antiga “A pena é mais poderosa que a espada,” confirma isto.
Basta um olhar rápido à história para depararmos com muitos exemplos. Escritores lançaram obras que revolucionaram o mundo, derrubaram poderes estabelecidos há milênios, causaram revoluções, agitaram, sacudiram a sociedade humana de alto a baixo.
O pensamento é invisível, mas seu poder é magnífico, pois ele está enraizado às profundas forças da natureza infinita, as quais provém do seio de Deus.
Um tal poder pode ser usado também para o mal.
A palavra escrita é capaz de produzir efeitos inesperados e permanentes na alma de quem lê. Não se sabe até quando, nem o quanto vai ocasionar sua ação profunda e poderosa.
Portanto, quem não estiver ao abrigo da luz divina e não tiver o coração iluminado pela estrela do bem eterno não deve penetrar em seu portal sagrado.
Forças poderosíssimas velam diuturnamente o portal iluminado da palavra escrita, quem penetrar seu vestíbulo envergando as vestes maculadas da futilidade, da vaidade, do interesse, da ignorância e da maldade, terá que prestar contas ao poder invencível que cortou a cabeça de reis, incendiou nações inteiras, derrubou tronos milenares, aniquilou ditaduras e transformou em pó as mais poderosas civilizações de nossa história.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Dor e ressurreição.

A dor é nossa eterna companheira. Estamos sempre abraçados à ela mesmo na condições mais supimpas.
Seus golpes podem martelar pouco a pouco, ou desabar em nossa vida repentinamente como um furacão, arrasando tudo de uma única vez.
Ela visita o destino de todos, pessoa alguma escapa de sua investida.
Ricos, pobres, inteligentes, ignorantes, bondosos ou não, ninguém escapa de seu chicote.
É inútil tentar fugir da dor. Ela provém das profundezas inalcançáveis da vida infinita. Ela tem mil formas, ela tem mil disfarces. É sorrateira e sagaz. Ela sabe driblar os mais inteligentes planos para atingir seu objetivo. O mais inteligente dos mortais é incapaz de enganar sua sagacidade. Pudera! Ela é uma das mais poderosas forças do universo de Deus. A dor vence aos mais obstinados, profliga por terra aos mais prepotentes. Faz ajoelhar aos mais orgulhosos.
Sapiente criação de Deus, é à dor que a humanidade deve sua  ressurreição à luz eterna divina. Sem seu chicote providencial ninguém se aventuraria às trilhas da verdade e do bem.
Dentro de nós, nas profundas regiões inexploradas do coração, o fio  invisível e poderoso do destino está ligado indelevelmente à nossa vontade. É lá que a sabedoria infinita de Deus traçou os limites às nossas escolhas.
É lá também que estão traçadas as leis invisíveis, mas poderosíssimas, da vida infinita, as quais determinam a colheita obrigatória do que plantamos.
Enquanto houver maldade dentro de nós haverá a contraparte correspondente de dor. É o preço que pagamos por nosso amor ao mal.
Filhos de Deus que somos, herdeiros de sua luz magnificente e de seu poder infinito, carregamos a mancha maldita do mal que escolhemos na origem dos tempos.
Maldito dia! Maldita insanidade perversa! Amaldiçoado mil vezes o passo maldito! Abrimos nosso coração puro como a neve ao demônio imundo, filho da perversidade, violência, egoísmo, orgulho e da depravação.
E assim perdemos nossa credencial divina, mas não nossa herança eterna. Tornamos mendigos imundos e esfaimados de luz.
Mas a previdência infinita de Deus  anteviu nosso passo infeliz. Seu coração infinitamente compassivo, rebento de sua misericórdia infinita, criou a dor, o mais eficaz antídoto ao mal. A cura definitiva à doença universal do mal e do pecado.
Estamos presos ao amor de Deus, coisa alguma pode mudar isto. É a este amor infinito que devemos nossa ressurreição à cidade celestial do amor, do bem e da verdade eterna, em nossa história repleta de loucura, maldade e ilusão.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Magia álacre.

Na região mais fria do polo norte, entre gigantescas montanhas cobertas de grossas camadas de neve, sob saraivadas geladas, está edificado um  gigantesco castelo, invisível a olhos humanos. É o quartel general das  fadas e gnomos de toda a Terra.
A cada mil anos os anciãos de toda a comunidade se reúnem em assembleia para deliberar sobre o festival das almas, onde todas as fadas e gnomos do planeta trazem a messe mágica, fruto de seus trabalhos  invisíveis durante os últimos mil anos.
A neve acumulava-se por toda a parte, mas no interior do gigantesco castelo a magia eterna da natureza transformava  tudo.
Não existe nada  mais gracioso do que espraiar o olhar dentro do muro do gigantesco castelo e encantar os olhos com as figuras delicadas, pequeninas e sorridentes, caminhando de um lado a outro, vestidas com trajes brilhantes e coloridos. As fadas usam um chapeuzinho colorido que brilha fortemente, ao ponto de ofuscar olhos humanos.
A alegria reina absoluta entre os muros do castelo. Quem caminha por suas alamedas depara-se com uma abundância de flores: rosas, jasmins, margaridas, crisântemos, enfeitam todas as veredas de lado a lado, espalhando um perfume deliciosíssimo, o qual o aroma faz o coração derreter de regozijo.
Fontes de água super cristalina espalham-se por volta do castelo, passarinhos verdes brilhantes bicavam a correnteza cristalina e banhavam-se alegremente. Esquilos graciosos pulavam álacres nos galhos das árvores.
Um grupo de fadas, pequeninas e felizes, deliciosamente alegres, dançava em círculos diante do portal do castelo e cantava um hino em louvor à natureza. Suas vozes cristalinas como a água das fontes, emitiam sons harmoniosos e tocantes. Um coro se formou naturalmente, outras vozes se ajuntaram uma a uma. Os gnomos também ajuntaram-se ao coro coletivo. Um vento super refrescante balançou os galhos das árvores, parecia que também queria cantar. As flores abriam-se, querendo participar do momento jubiloso. Todas as criaturas  queriam dar de si para a alegria geral. A natureza inteira estava impregnada com a magia encantada.
Subitamente, uma chama fulgurante que cintilava como um gigantesco cometa, desceu do céu e estacou no solo; imediatamente, uma rosa gigantesca de uma cor nunca vista por olhos humanos, brotou do solo e cresceu, cresceu até as estrelas.
Todas as vozes disseram em uníssono: “Louvado seja Deus nas alturas. Louvado seja teu nome para sempre.”
Ao fim do festival as fadas e gnomos recolhem bolotas brilhantes, as quais foram espalhadas por toda a parte no momento em que a rosa gigantesca cresceu até as estrelas. Estas bolotas brilhantes são colocadas em cestos graciosos, os quais todos carregam e levam até às maternidades do mundo, para inocular nos corações pequeninos a chama da alegria eterna, para que não se perca para sempre nos escabrosos caminhos do mundo.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Merecimento. Texto do livro "A vida escreve." Hilário Silva. Psicografia: Chico Xavier.




Saturnino Pereira era francamente dos melhores homens. Amoroso mordomo familiar. Companheiro dos humildes. A caridade em pessoa. Onde houvesse a dor a consolar, aí estava de plantão. Não só isso. No trabalho, era o amigo fiel do horário e do otimismo. Nas maiores dificuldades, era um sorriso generoso, parecendo raio de sol dissipando as sombras.
Por isso mesmo, quando foi visto de mão a sangrar, junto à máquina de que era condutor, todas as atenções se voltaram para ele, entre o pasmo e a amargura.
Saturnino ferido! Logo Saturnino, o amigo de todos...
Seus colegas de fábrica rasgaram peças de roupa, a fim de estancar o sangue a correr em bica.
O chefe da tecelagem, solícito, conduziu-o ao automóvel, internando-o de pronto em magnífico hospital.
Operação feliz. O cirurgião informou, sorrindo:
- Felizmente, nosso amigo perderá simplesmente o polegar. Todo o braço direito está ferido, traumatizado, mas será reconstituído em tempo breve.
Longe desse quadro, porém, o caso merecia apontamentos diversos:
- Por que um desastre desses com um homem tão bom? – murmurava uma companheira.
- Tenho visto tantas mãos criminosas saírem ilesas, até mesmo de aviões projetados ao solo, e justamente Saturnino, que nos ajuda a todos, vem de ser a vítima! – comentava um amigo.
- Devemos ajudar Saturnino.
- Cotizemo-nos todos para ajudá-lo.
Mas também não faltou quem dissesse:
- Que adianta a religião, tão bem observada? Saturnino é espírita convicto e leva a sério o seu ideal. Vive para os outros. Na caridade é um herói anônimo.
Por que o infausto acontecimento? – expressava-se um colega materialista.
E à tarde, quando o acidentado apareceu muito pálido, com o braço direito em tipóia, carinho e respeito rodearam-no por todos os lados.
Saturnino agradeceu a generosidade de que fora objeto. Sorriu, resignado. Proferiu palavras de agradecimento a Deus. Contudo, estava triste.

À noite, em companhia da esposa, compareceu à reunião habitual do templo espírita que frequentava.
Sessão íntima.
Apenas dez pessoas habituadas ao trato com os sofredores. Consagrado ao serviço da prece, o operário, em sua cadeira humilde, esperava o encerramento, quando Macário, o orientador espiritual das tarefas, após traçar diretrizes, dirigiu-se a ele, bondoso:
- Saturnino, meu filho, não se creia desamparado, nem se entregue à tristeza inútil. O Pai não deseja o sofrimento dos filhos. Todas as dores decretadas pela Justiça Divina são aliviadas pela Divina Misericórdia, toda vez que nos apresentamos em condições para o desagravo. Você hoje demonstra indiscutível abatimento. Entretanto, não tem motivo. Quando você se preparava ao mergulho no berço terrestre, programou a excursão presente. Excursão de trabalho, de reajuste. Acontece, porém, que formulou uma sentença contra você mesmo...
Fez uma pausa e prosseguiu:
- Há oitenta anos, era você poderoso sitiante no litoral brasileiro e, certo dia, porque pobre empregado enfermo não lhe pudesse obedecer às determinações, você, com as próprias mãos, obrigou-o a triturar o braço direito no engenho rústico. Por muito tempo, no Plano Espiritual, você andou perturbado, contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima, cujos gritos lhe ecoavam no coração. Por muito tempo, por muito tempo...
E continuou:
- E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil. Mas, você, Saturnino, desde a primeira mocidade, ao conhecer a Doutrina Espírita, tem os pés no caminho do bem aos outros. Você tem trabalhado, esmerando-se no dever... Não estamos aqui para elogiar, porque você continua lutando, lutando... e o plantio disso ou daquilo só pode ser avaliado em definitivo por ocasião da colheita. Sei, porém, que hoje, por débito legítimo, alijaria você todo o braço, mas perdeu só um dedo... Regozije-se, meu amigo! Você está pagando, em amor, seu empenho à justiça...
De cabeça baixa, Saturnino derramava grossas lágrimas.
Lágrimas de conforto, de apaziguamento e alegria...

Na manhã seguinte, mostrando no rosto amorável sorriso, compareceu, pontual, ao serviço.
E porque o fiscal do relógio lhe estranhasse o procedimento, quando o médico o licenciara por trinta dias, respondeu simplesmente:
- O senhor está enganado. Não estou doente. Fui apenas acidentado e posso servir para alguma coisa.
E caminhando, fábrica a dentro, falou alto, como se todos devessem ouvi-lo:
- Graças a Deus!

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Verdade e realidade humana.

“Ofereça um cavalo a quem lhe dizer a verdade e dele precisará para fugir e por-se a salvo.”
                                  Provérbio chinês.

Quem vai negar a realidade destas palavras? Quem vai rejeitar a ideia luzente que sobressai de sua sabedoria?
É a confirmação do conflito perpétuo entre o torto e falso mundo alienado de nossa tradição milenar e a verdade eterna que nunca muda.
Caminhamos a  vida inteira por estradas que levam a lugar nenhum. O mundo anda sempre apressado para chegar cansado e aborrecido ao porto vazio de seus desejos.
Nós parecemos um cão de circo, ao qual o treinador mostra um delicioso repasto na frente de seu nariz para fazê-lo correr, pular, saltar obstáculos e abanar a cauda diante do público.
Assim  são para a vida os desejos humanos, não passam de deliciosos repastos para fazer a humanidade caminhar, pois de outra forma ela estagnaria e enferrujaria suas pernas.
Tentai desvelar o manto da verdade aos ignorantes e tereis que velar atentos para que sua estupidez não o dilacere.
Gerações e gerações vem e vão, deixam suas obras no livro invisível do destino para serem lidas e absorvidas pelos demais que chegam após si.
O grande problema é que estas gerações amaram as nuvens do dia que passam e se transformam minuto a minuto e não as estrelas que rolam perpetuamente no infinito por toda a eternidade.
E a verdade é aparentada às constelações infinitas, filha da luz eterna de Deus.
A sabedoria dos séculos realça a beleza do provérbio acima. A luz sobranceira da verdade eterna ilumina suas palavras.
Os tolos e perversos vão fugir no próprio cavalo que ofereceram a quem lhes disse a verdade, mas os filhos da luz divina vão ajoelhar-se e beijar o manto da verdade. Sua alma vai vestir o manto sagrado da humildade e se arrojará aos pés da divindade eterna de nosso Criador Todo Poderoso, para receber o ósculo de todos os astros  do infinito.
Os arcanjos e anjos guardarão seu nome no livro da  vida, até que o amor de Deus termine sua obra divina.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Crianças e esperança.

Não se pode negar: a estrela da esperança cintila no céu humano a todo o momento.
Basta olhar o sorriso das crianças. Mil calamidades podem apagar este sorriso em um segundo, mas, assim mesmo a criança sorri.
Seu sorriso espontâneo não existe apenas motivado pela inexperiência do mundo. Há algo mais profundo que  subjaz à aparência superficial das coisas. Algo misterioso e lindo relacionado à cintilação de mil constelações no infinito.
É a vida poderosa a criar eternamente em todos os os recantos do universo, pressionada pela vontade insuperável de Deus todo poderoso.
Neste turbilhão infinito de seres, forças e astros gigantescos o pobre ser humano não passa de uma formiga, estendendo suas minúsculas patinhas ao céu sem fim que se estende sobre sua cabeça até o infinito.
Agonizaríamos para sempre, perdidos nesta imensidão infinita, enlouqueceríamos irremediavelmente no turbilhão do eterno transformismo de tudo, se a bondade infinita de Deus não sustentasse a divina esperança em nosso coração perpetuamente.
Cada criança que nasce, cada semente que é plantada, cada dia que surge no tempo, iluminado pelo raios do sol, é uma confirmação do poder infinito da vida poderosíssima que pulula abundante até às mais recônditas reentrâncias do universo.
Ao sorrir para a vida a criança demonstra a confiança genuína na sabedoria de Deus. É a mesma confiança à qual iluminou todos os santos do mundo.
Ninguém pode apagar do coração infantil esta chama ardente que derrete o gelo milenar da frieza e do desespero.
As trevas  do mal que escurecem o mundo se abateriam impiedosamente sobre nossa vida se Deus não sustentasse nossa confiança no futuro, protegendo e iluminando a criança que todos tem dentro de si, para que ela não morra afogada nos tempestuosos mares do destino.
Quando um adulto beija e abraça uma criança, está passando adiante de si a herança sublime dos santos de antanho, os quais edificaram com seu amor divino, filho de sua dor, a estrada luminosa que conduz ao paraíso de Deus para sempre.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Texto do livro "Deus e Universo." Pietro Ubaldi. Supremo patamar do conhecimento.

XV À PROCURA DE DEUS.
"Et multum laboravi quarens
Te extrame, et Tu habitas in me.” (E muito me fatiguei, procurando-Te fora de mim, quando te encontras em mim) Santo Agostinho.


Fundimos em um estreito monismo, em um só sistema, o Todo, desde o seu pólo espírito, até o pólo oposto, matéria. Terra e céu assim se tocam e se fundem em
um único universo, em que o espiritual e o material não passam de momentos ou posições da mesma Substância. Podemos agora dizer ao homem imerso nas trevas:
desperta e sentirás que Deus está a teu lado, está dentro de ti, é a tua vida, a vida de tudo. Esta é a grande descoberta, que desloca o eixo do ser e que a ciência nem de leve sabe conceber: descobrir a própria imortalidade, o divino que está em nós e com ele aprender a viver eternamente; despertar a própria consciência adormecida, para compreender que somos filhos de Deus, imensamente amados por Ele; capacitar-se de
que a causa de todos os nossos sofrimentos não reside na defeituosa construção do sistema, mas em nossa incompreensão da sua perfeita construção; convencer-se de que o tremendo destino de dor que nos aflige depende sobretudo de nossa ignorância e que ele pode transmudar-se em um destino de glória, somente se soubermos superar os nossos baixos instintos e evadir-nos de nossa natureza animal inferior; entender
que a vida não pode estagnar, sem avançar, a guerra não terá fim, enquanto o homem não empreender formas de luta e seleção mais evoluídas; compreender que Satanás, o qual gostamos de seguir porque nos engoda, é antes inimigo de nossa felicidade, e que Deus, o Qual relutamos em acompanhar, porque primeiro exige de nós o justo trabalho para depois nos dar a alegria, é o nosso primeiro amigo, que outra coisa não quer e procura, senão cumular-nos de felicidade.
Até aqui temos procurado explicar, com o máximo de clareza, o fim do mal: a autodestruição. As teorias não são nossas, mas as lemos no livro da vida e o Evangelho
(Lucas, 11: 17-18) no-las confirma, quando nos diz: "Todo reino dividido contra si mesmo será destruído, e as casas cairão umas sobre as outras. Se, pois, Satanás está
dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino?" (. . . .). O mal, portanto, como
provém do anti-sistema, com força negativa, está condenado ao aniquilamento pela própria natureza e qualidade. O espírito de separatismo que anima Satanás o desagregará também pela mesma lei fatal das coisas. E com Satanás se extinguirão a dor e a morte, com a vitória da vida, vida cujo centro se situa no espírito, centelha pela qual Deus se manifesta em tudo o que existe. Não deve a compreensão de tudo isso encher-nos
de alegria, de um otimismo fecundo em meio a qualquer dor? Esta é a psicologia da superação que vai além do miserável contigente e nos dá a paz das coisas eternas e
a segurança do amanhã.
Tudo isto está largamente exposto no Evangelho e foi por nós tentado racional e cientificamente demonstrar nos esquemas expostos, a fim de conseguir tornar
compreensível esta boa nova, já proclamada por Cristo e que aqui repetimos identicamente, porque ela é a maior alegria da alma. Deus está conosco. Quando uma
espiga de trigo se multiplica em centenas de espigas e as messes aluíram os campos para dar-nos o pão, Deus está conosco. Quando os rebanhos se multiplicam e os
animais, que nos fornecem alimento, se desenvolvem e tudo na terra germina e cresce fecundamente, Deus está conosco. Quando nossos filhos se tornam grandes, Deus está conosco. Deus é esse irrefreável impulso de vida, mesmo que ele possa ser feroz nos graus inferiores, porque os seres não sabem ainda aprender lições mais refinadas.
Avançamos, contudo, no caminho ascensional. Já muitos homens têm terror desta vida inferior, em que muitos se sentem bem. É fatal que a evolução avance e produza
um novo e mais civilizado tipo biológico humano. Ele talvez seja, como hoje, dado apenas por um em um milhão. Amanhã estará na proporção de um por mil, depois será um em cem, e assim por diante, até que o homem novo seja maioria e se afirme. A natureza procede por graus e antes de realizar o novo em grandes séries,
experimenta-lhe os exemplares em poucos casos, explorando o terreno.
Quando os judeus quiseram lapidar Cristo - narra João - (cap. 10:33-34)
a acusação era de blasfêmia: (. . . .) "lapidamos-te por blasfêmia, porque sendo tu homem, fazes-te Deus. Jesus lhes replicou: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós
sois Deuses?" Quando descobriremos a grandeza desta nossa natureza divina, que se filia a Deus? Quando os místicos falam de união, provam que atingiram, ou pelo
menos se avizinharam dela. No íntimo de nosso ser, no espírito, há uma profundidade de infinito, para o qual a evolução progressivamente nos desperta. E neste infinito que O nosso pequeno “eu sou” funde-se com: o “Eu sou” do Todo. Quando descobriremos que somos Deuses, que somos, mercê de nossa centelha originária, hoje decaída nas trevas, formados da mesma Substância de que Deus é formado? Como poderia deixar de sê-lo um filho do Pai? E que mais, além disto, poderia significar a imanência?
O Evangelho é uma contínua luta para fazer-se compreender pelos seres inferiores. E os judeus pensavam, como tantos outros ainda hoje, em um Deus
déspota, que é obedecido porque pode mais do que nós e que nos faz pagar a desobediência, um Deus de uma outra raça que nos domina, nada tendo em comum
conosco. Há, contudo, um denominador comum, um fundo comum, ainda que muitíssimo remoto entre Deus Pai, Cristo e o homem - é esta natureza. divina.
Somente que, no ser humano essa íntima Substância se aprofundou tanto na inconsciência, após a queda, que o ser dela nada mais sabe e não consegue imaginar
Deus, seu pai. e amoroso amigo, senão antropomorficamente, tal feroz senhor, qual ele
seria, se porventura viesse a tornar-se Deus. Não é possível ao ser formar de Deus uma
imagem superior a que o grau de compreensão atingido pela sua evolução pode permitir-lhe. Assim, esta não é a psicologia dos judeus apenas, mas do tipo humano
involuído, que hoje impera.
Quando imergimos o olhar na essência das coisas, vemos revelar-se-nos um mundo inteiramente diverso do que comumente nos aparece em superfície. são esses
novos continentes do espírito que. estamos descobrindo nestes volumes, traduzindo o
que tão natural e evidente surge ao olho da intuição, em linguagem racional e científica, reduzindo tudo à forma mental corrente, a fim de tornar-nos
compreensíveis, mesmo por aqueles que não sabem enxergar senão com os olhos da razão. Encontramo-nos diante das mesmas dificuldades que na Terra encontrou o
Evangelho, na mesma luta por se fazer compreendido. O atual homem comum está tão habituado a conceber qualquer manifestação do ser somente na  sua extrema
forma exterior e sensória, está tão convencido de que esta é a realidade e toda a realidade, que quando deseja orar a Deus, projeta Dele uma imagem material, a que
ele poderia formar de Deus, e a adora. Ela não é mentira consciente. É uma tradução da linguagem espiritual, que lhe é incompreensível, em uma linguagem concreta, a ele
acessível. Assim pode ver e tocar as imagens de Deus. Esta é uma ingênua necessidade de involuídos, que não conseguem pensar e orar a não ser com o corpo, e com os
sentidos. Mas certamente, para quem sente Deus em Sua universal presença e potência, isto pode parecer uma profanação, ainda quando, nos casos mais felizes,
constitua um lampejo capaz de reavivar a centelha da arte.
Assim foi que da visão dos grandes problemas cósmicos, chegamos à do problema espiritual do homem nas relações da sua alma com Deus. Agora podemos
formular uma nova e solene pergunta: onde encontrar Deus? E se é verdade que Deus está no íntimo do ser, então por. que não buscá-Lo dentro de nós e não fora? E como se pode alcançar Deus por essa via? Tratemos agora de resolver o problema da procura de Deus, um dos mais árduos e importantes para o ser. Como subirmos ao
Pai que nos gerou e pormo-nos em comunicação com Ele?
Para bem compreender, reportemo-nos às primeiras origens, conceito que depois desenvolveremos (Cap. XVII: Imanência e Transcendência).
Deus, antes de realizar o ato criador, era o Uno-Todo, Que deveria ainda tudo tirar de Si. Sobrevindo a criação dos espíritos, o sistema desmorona, como já vimos, e
com ele, de certa forma, desmorona também Deus, que, sendo o seu íntimo animador,
não podia e, por Amor, não devia separar-se dele, houvesse o que houvesse. Por isso
nasceu de Deus o aspecto de imanência, que o torna presente no anti-sistema ou sistema desmoronado, como igualmente. vimos. Mas em Seu aspecto transcendente,
Ele está além de qualquer criação Sua e dos fatos a ela referentes. E a sua divisão nestes dois aspectos representa juntamente a divisão do Todo no dualismo, que será depois a característica desse Todo, cindido daí por diante em sistema e anti-sistema, entre Deus e Satanás que, então, nasceu como tal, o antagonista. O partir do pão na Eucaristia, já vimos que significa exatamente a divisão do Uno no dualismo, prelúdio
da imanência, pela qual o princípio fundamental e originário do Amor não pode subsistir a não ser como sacrifício. Eis a lógica concatenação que liga a divisão do pão
à paixão de Cristo, cuja descida à Terra, em corpo humano, é um caso e prova fulgurante da imanência de Deus no anti-sistema, em que nos encontramos. Sem
imanência, não poderia existir a paixão e redenção maior que Deus realiza em todo o nosso universo, como já expusemos. E a Eucaristia, para o caso particular de nossa humanidade e do Cristo que a preside, representa justamente esta imanência Isto quer dizer que Cristo não quis descer à Terra por uns poucos anos apenas, mas aí quis ficar permanentemente presente em espírito, na Eucaristia, que expressa. a imanência de Deus em nossa humanidade, com finalidade regeneradora (redenção).
E esta, que é a via da descida, representa também o canal da subida; o fio de comunicação com a divindade. Que significa imanência, senão que Deus permaneceu
no fundo de nosso ser como espírito, a animá-lo e fazê-lo evolver, reconduzindo-o a Ele? O espírito, como já afirmamos, é o fundo comum entre Deus Pai, Cristo e o
homem e só através desse fundo comum é possível a comunicação. Isto confirma ainda que Deus realmente não pode ser alcançado senão quando descemos conscientes à profundeza de nosso espírito. Veremos a seguir o que significa - conscientes.
Ouçamos as confirmações que nos enviam as grandes almas, as que souberam percorrer esse caminho de retorno. Diz-nos Agostinho: “Est Deus superior summo,
interior intimo meo”

. E acrescenta, falando de Deus: “Et multum laboravi, quaerens (Deus está nas supremas alturas e também no meu íntimo.)



Te extra me, et Tu habitas in me”. Agostinho testemunha, portanto, que Deus está na
intimidade do ser e que não deve ser procurado fora, mas dentro de nós. Paulo afirma a respeito de Deus: "In ipso vivimus, movemur et sumus" (Nele vivemos, nos movemos e existimos)
21 (. . . .) - S. Paulo em
Atenas -Atos, 17: 28.
A Beata Ângela de Foligno ouviu Cristo dizer-lhe: "Eu sou mais íntimo de tua alma do que ela de ti mesma". Os místicos cristãos, experimentados em semelhantes
indagações; dizem que: "Deus é a nossa superessência”, isto é, algo de tão íntimo e profundo a ponto de parecer a nossa própria sublimação.
Eis a palavra que nos traça a via de retorno: sublimação, isto é, purificação e elevação de nossa personalidade. Esta é a estrada que reconduz o ser ao ponto de partida, lá onde, após determinados períodos, a ascensão atingirá a meta que é o ponto de chegada. Então o Deus imanente, que por Amor se mostra prazerosamente
no sacrifício, lado a lado com a criatura, com ela carregando a cruz, terá refeito todo o
caminho da descida. E assim o ciclo será completado e o Deus, do aspecto imanente, terá alcançado o Deus do aspecto transcendente, o imperfeito ter-se-á tornado
perfeito, poderá fundir-se nele, o Uno ter-se-á reconstituído e a cisão do dualismo estará sanada.
E evidente que hoje o Todo está dividido em duas partes: o perfeito, que ficou como recordação no fundo do "eu" qual anelo e instinto fundamental dele; e o imperfeito, que evolve para a sua perfeição. Ora, se o imperfeito avança sempre para o perfeito, na progressão para o infinito, ele deverá reduzir as distâncias a
quantidades cada vez mais infinitesimais, até sobrepor-se e coincidir com o perfeito.
Isto porque, se Deus de um certo modo desmoronou no Seu aspecto imanente, Ele permaneceu perfeito, sem desmoronar, em seu aspecto transcendente. Este é o ponto de chegada que aguarda o imperfeito. Este é o eixo íntegro de todo o sistema, aquele que deve salvá-lo, mesmo no seu momento negativo de anti-sistema.
Como se vê, o problema da ascensão espiritual ou sublimação tem suas raízes no cosmo e não é solúvel a não ser em função do grande problema do ser. Há, pois, um grande fio condutor para a ascensão dado pela imanência de Deus, que deriva da Sua transcendência, o imperfeito que deriva do perfeito. Ora, este último termo do ciclo, no qual o dualismo é sanado e as duas metades do Uno se reúnem, está no fundo de nós mesmos e é nesta direção que devemos caminhar se quisermos atingi-lo. E como se deve proceder para caminhar em direção à profundeza de nós mesmos? Isto significa
o que antes já havíamos dito em outras palavras, ou seja, "descer conscientes na profundeza de nosso espírito". Palavras igualmente sibilinas, que não sabemos como
traduzir no mundo da ilusão a que chamamos realidade! Trata-se de passar de uma linguagem verdadeira, onde tudo se faz com o espírito - única realidade - para um
linguagem falsa, onde tudo se faz com o corpo e com os seus sentidos, construtores da ilusão. O leitor, todavia, vê como estamos assediando e envolvendo a fortaleza em que o problema se entrincheira, até poder finalmente penetrar nela. Primeiro o encaramos do alto das posições máximas do ser. Abordamo-lo agora de baixo, partindo de nosso corpo físico.
A primeira qualidade do existir, que chamamos de vida, é o sentir. A insensibilidade é característica da morte, ausência do espírito. A sensibilidade é
atributo do espírito, que é o existir. Espírito significa o que é. Onde falta o espírito, não há existência, porque Deus é espírito, isto é, a plenitude do ser. A sensibilidade, ou seja, a aptidão de perceber, como nós a possuímos, é qualidade exclusiva da alma.
Uma vez esta destacada do corpo, este não mais sente, ainda que os seus órgãos estejam intactos. O místico, arrebatado em êxtase, não percebe mais através dos
sentidos, porque a alma está ausente deles. Quando estamos distraídos, a mensagem
sensória chega regularmente à alma, mas esta não a registrou e, assim, vendo, não
enxergamos, escutando, não ouvimos. Sabemos que os nossos vários órgãos sensoriais
nada mais são do que aparelhos de captação e transmissão de ondas, não mais. Isto
implica que existe um ponto de chegada da transmissão a que estão ligados esses aparelhos. O sistema central (cerebral) para o qual converge o periférico, é apenas um
órgão de seleção e coordenação, ainda situado na dimensão espacial, enquanto o “eu”
possui a faculdade de juízo e de síntese, próprias de outras dimensões, a que não pertencem nem o sistema central, nem o periférico. Trata-se de um “eu” princípio
unitário de todo o organismo e que, como tal, permanece inalterável, não obstante o
crescimento e envelhecimento deste, que está sujeito a um contínuo transformismo.
Nesse princípio está o abstrato, o supersensório, algo de qualitativamente diverso da
vibração transmitida, qualquer coisa que pensa, quer e reage depois, por meio de
outros órgãos. Eis o espírito, que se une a Deus. Ele põe-se em comunicação com o
mundo exterior por intermédio dos órgãos do corpo, os quais lhe transmitem sinais que ele interpreta e que lhe permitem registrar uma limitada gama de vibrações (som,luz, calor), necessárias à sua vida terrena, além das quais ele nada percebe do mundo exterior. O resto do universo terá também ele a sua sensibilidade, pois que é
igualmente animado de vida, isto é, de espírito, de Deus imanente. Mas qual seja ela, não o sabemos. Não podemos saber se a matéria, quem sabe de que maneira, sente a sua estrutura atômica; se um cristal percebe a sua vibração molecular; a célula, o seu
metabolismo; uma planta, o mundo exterior. Não podemos penetrar nessas formas do ser tão distanciadas de nós, mas apenas nas biologicamente para nós mais semelhantese aproximadas.
Ora, a evolução é uma espiritualização, isto é, um despertar para a vida do espírito, que é interior; é um aguçamento, uma precisão, um aperfeiçoamento da
sensibilização. Isto é caminhar para a vida, sentindo que se vive cada vez mais intensamente. Significa uma acentuação da vida, isto é, uma revelação crescente do
espírito. São qualidades que não podem nascer do nada, mas que constituem apenas um despertar consciente do que estava adormentado no inconsciente, qualidades que
representam um progressivo revelar-se de capacidade sensitiva, que forma a divina essência do espírito, o qual, por esta via do despertar, se põe em união com Deus.
Certamente, entendemos aqui sensibilização no sentido lato, não só sensório, dado que pode receber novas mensagens do exterior, mas também espiritual e, sobretudo, moral, pela qual se impõem normas de vida cada vez mais aderentes à Lei de Deus.
É por intermédio deste processo que conseguimos sentir em nós, e nas coisas, a presença de Deus. Compreendida de maneiras extremamente diversas no contingente,
esta é a essência e o último significado da evolução: despertar em nós o Deus imanente, oculto na profundeza do espírito; tornar de novo consciente e vivido aquilo
que, havendo-se invertido pela queda, tornara-se inconsciente e morto. Todo o trabalho da vida, o sucesso ou insucesso, a alegria ou a dor, através de infinitas
provas, tudo se reduz a isto. Chama-se catarse ou sublimação, sensibilização sensória, psíquica ou moral, maceração ou maturação evolutiva, superação da treva ou da ignorância pela luz ou conhecimento - trata-se sempre do mesmo fenômeno de infinitas formas. A hierarquia dos seres é dada pelo grau deste despertar, pois ele que
marca o seu valor, representado pela capacidade conseguida de vibrar, é dada pelo grau de consciência alcançado, que os avizinha mais ou menos de Deus.
As almas vão, assim, lentamente despertando, compelidas pela Lei, que expressa a imanência de Deus entre nós. Os involuídos não passam de pobres
adormecidos. Entretanto, Deus está tão próximo, que realmente é o "interior intimo
meo"! Como fazer, então, compreender isto a seres que O sentem, ao invés, tão distante, chegando mesmo ao ateísmo? Em que consiste essa proximidade e distância? A verdade é que esta sensação possui um sentido interiormente espiritual e não espacial.
Não é em quilômetros, como na Terra, ou em anos - luz, como para as estrelas, que se podem medir essas distâncias. O espírito não vive na dimensão espaço, mesmo que venha a manifestar-se nele.
Para compreender é preciso reportar-se à natureza do espírito, que não é matéria espacial, mas um imponderável, definível, por conseguinte, por outras
mensurações. A presença de Deus no universo é dada pelo estado cinético, que vimos ser a nova posição que Deus assume do absoluto imóvel, projetando-se na gênese. A
vida do universo se manifesta como estado mais ou menos complexo e evoluído, mas sempre com tal íntima natureza. A vida do espírito é representada, então, por um estado vibratório. E a vibração, pois, mais ou menos complexa e evoluída, é também a medida que o define. Ora, a proximidade ou distância entre uma alma e Deus é dada pelo grau de afinidade de vibração atingido por ela em relação a Ele. Em outros
termos, a vizinhança é uma sintonização, uma vibração do mesmo diapasão, que, para os místicos, termina na unificação. Ora, o involuído não vibra de modo algum com a vibração do divino, isto é, não está fundido na Lei com toda a alma e, se vibrar, vibra ignorando Deus, frequentemente contra Deus. Eis no que consiste a imensa distância.
Daí os místicos sentirem a sua personalidade desfazer-se em Deus, no qual se anulam como egocentrismo separado, porque vêm a assumir, cada vez mais, a vibração do centro. E assim, quanto maior o progresso neste sentido, tanto mais difícil se torna distinguir-se como "eu", mas em compensação o "eu" se sente viver mais como Deus, isto é, como vastidão, potência e unidade. Por isso Paulo pôde dizer:"Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.”
 É assim que a divindade pode despertar em nós. Eis os resultados da evolução. E quanto mais ela avança, tanto mais o egocentrismo separatista do "eu", filho da fragmentação do Uno, se atenua, irmanando-se em unidades coletivas cada vez maiores, e tanto mais se reconstitui a grande harmonia unitária do sistema, rompida na queda.
Eis o que significa o despertar de Deus dentro de nós. A vibração Dele, estado cinético da vida, mantém-se em inatividade no involuído e com isto a verdadeira vida
está apenas latente, em estado de inércia, à espera de desenvolvimento, como um instrumento musical, cujas cordas estão mudas. A vida do involuído é uma vida
animal, inferior, que a cada passo é contida pela morte e pela dor. Não é a vida verdadeira. Trata-se aqui de um despertar de consciência, que é justamente o estado
cinético, qualidade do espírito; trata-se de entrar cada vez mais nesse estado cinético, o que significa desmaterializar-se (sair da inércia da matéria), para espiritualizar-se (entrar no dinamismo do espírito). E retornar ao espírito significa retornar ao divino,
nosso estado originário, volvendo a ser consciente, vivo, vibrante, até na profundeza em que está Deus. Eis qual é a via para reencontrar Deus. Quando o homem tiver se
tornado consciente da presença de Deus em si, o caminho da evolução estará completado, o edifício desmoronado estará reconstruído, a natureza rebelde terá volvido ao Criador.
O homem comum está em poder do jogo das suas ilusórias sensações de superfície e ignora que maravilhosos tesouros repousam inexplorados na intimidade
do seu ser. Mas aqui estão descritos de forma racional as profundas mutações ocorridas na alma, quando um homem se torna santo. Poucos as reparam porque a
maioria vive de sensações a que escapam tais interioridades. Estes não estão em grau
de compreender e admitir, em absoluto, uma distância qualitativa, evolutiva, de igual natureza, do tipo de vibração, uma imensa distância de algo que, no entanto, nos é tão intimo. É inútil, pois, falar de uma incompreensível imanência de Deus em todas as
coisas e, sobretudo, na profundidade de nossa alma. Quem não possui meios para registrar uma vibração, acredita-a inexistente e a nega. Essa incompreensão, porém, explica-se facilmente. É difícil da periferia mover-se à procura de Deus, onde se está situado em posição invertida A ciência, em última análise, nada mais faz do que tentar essa procura. Ela não o sabe, embevecida pelas habituais miragens, mas, na realidade,
é esse o seu verdadeiro e substancial objetivo. Na periferia, todavia, em meio a um sistema esfrangalhado em uma infinita poeira fenomênica, ela se perde no particular, condenada ainda à ausência de uma síntese total. Para voltar a encontrar Deus, seria
necessário reconstituir no Uno essa infinita pulverização do ser, o que é impossível.
Não é, pois, à ciência que podemos pedir tais resultados. São necessárias outras vias para que isso se dê.
Assim, tudo o que existe, inclusive os homens, escalona-se por degraus ao longo da escala evolutiva, representando a reconstrução dos vários planos do sistema desmoronado. A escala do que conhecemos vai da matéria ao super-homem. E tudo está a caminho. O termo fixo de comparação, o absoluto que, na relatividade do Todo,
permite estabelecerem-se as distâncias, é Deus. No mineral, o divino está tão profundamente sepultado em estado de inconsciência que não se pode, de maneira
nenhuma, falar de consciência e espírito, pois que eles jazem como que anulados. Sem liberdade de escolha, nem luz de compreensão, o ser ai se movimenta no determinismo que a Lei, completamente ignorada, impõe. Todavia, a individualidade atômica, molecular, química, planetária ou galáctica, tem as suas características inequívocas, que lhe conferem como que uma personalidade. E esta exprime uma estrutura tão
complexa, que o homem ainda não a decifrou. Há, pois, aí também, um grande pensamento, que não pode deixar de ser o de Deus imanente, porque ao certo essa
individualidade o ignora por completo. Não poderemos admitir que o átomo saiba calcular a sua velocidade interior e trajetória. Ele é ligado a uma lei de ferro, da qual não tem consciência. Estamos nos antípodas do centro-Deus, onde existe a plenitude da liberdade e da consciência. O ser deve reconquistar essa plenitude, que, neste caso extremo, se inverteu em uma carência completa; deve, evolvendo, reconstruir-se. E
assim se sobe gradativamente. Na progressiva conquista de mobilidade e de sensibilidade, há uma liberação. A consciência, qualidade divina, revela-se cada vez
mais, por graus, até o plano do homem e do super-homem. Mas nós vemos que a inteligência de Deus existe mesmo nos graus ínfimos do ser. Só existe esta diferença
com as formas mais evoluídas: estas, quanto mais ascendem; tanto mais vêm a tornar-se partícipes dessa inteligência que já existia, mas da qual, embora ela existisse dentro deles, esses seres estavam excluídos. E que mais significa esta, senão tornar-se
consciente, isto é, o despertar no ser do Deus Que, com o desmoronamento, permaneceu nele imanente, mas sepultado na inconsciência?
É grave e de transcendental importância a conclusão deste capítulo, especialmente para quem está em condições de senti-lo inteiramente, porque a atingiu
por si mesmo, através da própria maturação e visão. Constitui uma descoberta revolucionária chegar a saber que, na profundidade do próprio "eu", se possui o
divino e que Deus, Que o animal ignora e o ignorante nega, está tão junto de nós. E deveras emocionante saber-se eterno cidadão do universo! E uma conclusão de
incomensurável alcance, mas por isso mesmo perigosa, se não for encarada sabiamente, motivo pelo qual não pode ser dita indiscriminadamente a todos e
manuseada pelo involuído Quem não estiver preparado, não pode receber a luz da verdade, tão excessivamente ofuscante. A verdade deve ser dada proporcionadamente
a quem a recebe. Tais conceitos, postos na mente do involuído, são transviados, podem ser entendidos às avessas no que se refere à sua posição de modo que, ao invés de estimularem uma anulação do próprio egocentrismo, na fusão com Deus podem levá-
lo a exalçar-se, erigindo-se em anti-Deus. A primeira rebelião está sempre pronta a explodir de novo no anti-sistema. O indivíduo pode, assim, ser levado a crer-se Deus.
Esta, embora uma interpretação invertida, satânica, da conclusão verdadeira, será quase certa. E por esta razão que o conhecimento de um fato de tal alcance, como é a
presença do divino em nós, é vedado à maioria, enquanto não houver alcançado o
grau de evolução necessário. Ai de quem entender em sentido inverso a presença de Deus em nós, porque, então, tudo isto, ao invés de servir para a ascensão, contribuirá para a descida ainda maior. O místico jamais se ensoberba com essa descoberta; pelo contrário, vê nela um motivo a mais de obediência e humildade. É necessário fazer Deus crescer em si, não pelo caminho oposto da exaltação do "eu". Deus está em nós
como princípio de Amor, para que façamos Dele o nosso centro, e não para que façamos de nós um centro contra Ele. Então Deus se negará cada vez mais, em lugar
de dar-se, e o ser precipitar-se-á ao invés de subir.
Estamos na Terra, em um reino periférico do anti-sistema, onde é comum subverter a verdade no erro. Assim é fácil, neste reino, conferir à nossa fé e intuição
da imanência de Deus uma interpretação de panteísmo impessoal, confundindo-o com o unilateral, que exclui de Deus o aspecto pessoal e transcendente. Esta foi
efetivamente a interpretação que emprestaram aos volumes precedentes, especialmente em A Grande Síntese, da qual este e os demais tomos não são mais do
que o desenvolvimento e a explicação. Ora, Deus estar em nós, como presente em todos os seres, porque sem Ele nada pode existir, é uma certeza, uma realidade que
jamais poderá renegar quem a atingir por intuição. Depois, se corretamente interpretada, ela não leva a uma soberba deificação do nosso eu , ou da natureza, mas
determinará a fusão de nossa alma e do criado, com o Criador aí imanente, sem o que tudo estaria órfão. Os conceitos acima expostos não levantam o "eu" contra Deus, mas tendem a diminuir o "eu" para deixar que Deus desperte nele e viva nele em lugar do "eu" separado, filho do desmoronamento. Não é mais o "eu" rebelde que agora predomina, mas o "eu" em sacrifício, aos pés da Lei. "Os últimos serão os primeiros",
isto é, quem quiser ser o primeiro no sistema, deve ser o último no anti-sistema, ou
seja, servo do próximo, não em soberba, mas em obediência e em humildade. Desta maneira não se aumenta a cisão, mas a unificação, não se caminha para o triunfo do "eu", mas de Deus. É evidente que a via acima traçada não é a que leva a Satanás, mas a que conduz a Deus.
E assim evidente também o que diz o Evangelho sobre a necessidade de decidir-se na escolha, porque não é possível servir a dois senhores ao mesmo tempo,
isto é, prosperar concomitantemente no sistema e no anti-sistema. Se quisermos realmente vencer, é de nosso interesse seguir o primeiro e não o segundo. É natural,
pois, que Cristo e o mundo sejam inexoravelmente inimigos, mas também que Cristo, Senhor do sistema, vença o anti-sistema. Cristo não sofreu porque fosse fraco ou vencido, como acreditou a estupidez dos seus algozes, mas em razão de livre e deliberado sacrifício de Amor. A paixão de Cristo se situa logicamente no plano de
salvação do universo, no plano da reconstrução do sistema com o anti-sistema em que ele desmoronou.
Senhor deste plano, desdenhando os pobres meios humanos de ataque e defesa, Cristo, o Cordeiro pacífico e inerme, venceu o mundo.