Luz.

Luz.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O amigo de anjos.

Podeis achar que sou excêntrico ou louco, não me importo! Mas, a verdade é que falo com anjos.
Desde criança sempre me encantou estes seres sublimes e puros, diletos de Deus. Não foram poucas as vezes que eu ficava sentado na calçada em frente de minha casa olhando extasiado o céu estrelado imaginando onde viveriam os anjos...
Perdoai-me, eu ainda era puro; minha alma era virgem, ainda podia cantar melodias em coro de arcanjos. Atualmente, o cansaço do mundo emudeceu minha voz. Ah! Deus, onde ficou minha alma virgem? Quando perdi meu grande tesouro?
E eu ouvia suas vozes e eu via seus vultos radiosos. Sois daqueles que ainda tem a alma virgem? Então sabeis o que digo.
Quem sou eu? Onde moro? É irrelevante! Uma alma é uma alma. Um nome é uma etiqueta imposta pelo mundo.
Um lugar é um lugar, que importa se fica no Brasil, França, Austrália ou no polo ártico?
Sabeis que o sol não se importa com cercas territoriais, ele irradia igualmente para todos. Os homens é que criaram suas cercas. A natureza não reconhece divisões...
Cresci com o coração embevecido em poéticas e enternecidas canções as quais extasiavam minha alma...
Mas, tive que abandonar minha querida infância e trilhar o caminho comum a todos os mortais, fui para a arena do mundo. Mundo! “O mundo é um fosso onde erram os ignorantes e os cegos...” disse Buda. Foi esta a impressão que ficou de minha experiência com o mundo. O mundo é um palco onde palhaços encenam histórias ridículas e vazias para outros palhaços da plateia.
Se o mundo apenas desviasse nossa alma a suas banalidades fúteis e vazias ainda seria tolerável, mas este monstro astuto e perverso devora nossa alma virgem, as almas virgens são seu alimento predileto.
Atentai a isto vós detentores de uma alma virgem, atentai: não deixeis este monstro medonho devorar vossa  alma virgem, buscai a luz dos sábios, buscai a proteção de Deus. Eu vos falo à beira do túmulo, meu corpo quase me aniquila de dores. Ah! Pudesse eu voltar à minha infância querida, cantar minhas queridas canções com meus queridos anjos! Não venderia minha alma ao frio interesse do mundo, não trocaria meu tesouro eterno pelo falaz ouro do mundo. Mesmo a maior montanha de ouro não poupará minha alma da morte certa, não regenerará minha pele ressequida, não curará minha doença mortal. Atentai a isto vós que ainda tendes a ocasião do tempo, não deixeis morrer a virgindade de vossa alma; por certo o mundo  tem suas exigências, mas guardai-vos do monstro devorador de almas virgens.
Senhora morte, esperai um pouco ainda, pois já vos sinto a gelar-me os pés, tende um pouco de paciência!
Senhora morte por que minha alma não receia atravessar o portal medonho? Diga senhora morte, vós que sois a mais severa destruidora de ilusões!
O que vejo! Meu Deus será verdade? Sois vós meus anjos amigos, sois vós meus companheiros iluminados! Perdoai minha traição! Perdoai esta pobre alma fraca. Meu Deus! Meu Deus!  Só mesmo tua misericórdia infinita para acolher um miserável traidor como eu em meu momento mais solene. Ah! Meu Deus...

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   Este texto foi encontrado em um antigo livro francês, adquirido em um sebo  em São Paulo.

domingo, 26 de maio de 2013

Vida e crianças.

Amo a vida. Amo esta potência soberana e complexa, criadora perene. A vida cria a todo o momento: formas, forças, criaturas, fatos; ela faz e desfaz, tem domínio absoluto em todas as coisas existentes. A vida tem tirado o sono de muitos pensadores, intrigado as mentes mais perspicazes, muito se tem aventado sobre a vida, mas sua complexidade sempre escapa ilesa das armadilhas falazes ocasionadas pela estreiteza de visão da bitolada mente humana.
Ela sempre faz revelações a quem sabe compreender sua linguagem. Esta linguagem é bem diferente daquela falada pelos homens, para entendê-la deve-se ser amigo das estrelas, companheiro da lua, amar o sorriso das crianças, o desabrochar das rosas, a carícia dos ventos, a beleza das ondas em uma praia solitária...
As coisas falam, mas nossos ouvidos não podem ouvir, eles estão bloqueados pelo barulho do cotidiano ou desgastados pela modorra cansada...
É por isto que a vida prefere as crianças, elas tem a alma virgem e os ouvidos puros.
Pobres de nós que não sabemos refrescar nosso olhar cansado.
Pobres de nós que não sabemos sair da prisão dos dias...
Infelizes somos nós a morrer um pouco todos os dias.
Quem vai nos libertar dos eternos trilhos aos quais está presa nossa alma como uma locomotiva enferrujada?
É por isto que a vida prefere as crianças. Elas tem o olhar sempre viçoso. A vida ama quem tem a alma viçosa.
Feliz  quem não matou sua alma criança na luta áspera e fria.
A vida ama quem tem a alma viçosa...

terça-feira, 21 de maio de 2013

Após o dilúvio.



Poema de Arthur Rimbaud.

Nem bem se aquietara a idéia do Dilúvio,
Uma  lebre  parou  entre  os  sanfenos  e  as  inquietas
campânulas e elevou sua prece ao arco-íris, através
da teia de aranha.
Oh!  As  pedras  preciosas  que  se  escondiam,  —  as
flores que já olhavam.
Na grande rua suja os açougues se ergueram, e os
barcos foram levados ao mar, que, no alto, era em
degraus como nas figuras.
O  sangue  correu,  na  casa  de  Barba-Azul,  —  nos
matadouros,  —  nos  circos,  onde  o  selo  de  Deus
empalidecia as janelas. O sangue e o leite corriam.
Os castores construíam. Saía fumaça dos cafés nos
botequins.
Na  mansão  de  vidros  ainda  gotejante,  as  crianças
contemplavam as imagens maravilhosas.
Uma porta bateu, — e na praça do vilarejo, a criança
girou  seus  braços,  envolvendo  os  cata-ventos  e  os
galos dos campanários, sob o fulgurante aguaceiro.
A senhora*** instalou um piano nos Alpes. A missa e
as primeiras comunhões foram celebradas nos cem mil
altares da catedral.
As  caravanas  partiram.  E  o  Hotel  Esplêndido  foi
erguido em meio ao caos de gelos e noite polar.
Desde então, a Lua ouviu os chacais berrando pelo
deserto  dos  timos,  —  e  as  éclogas  em  tamancos

rugindo no pomar. Depois, na floresta violeta, coberta
de brotos, Eucaris me disse que chegara a primavera.
—Surge, lago, —Espuma, rola sobre a ponte a e sobre
os bosques; — panos negros e órgãos, — relâmpagos e
trovão,  —  subi  e  rolai;  —  Águas  e  tristezas,  subi  e
restaurai os Dilúvios.
Pois desde que eles se dissiparam, — oh! as pedras
preciosas enterrando-se, e as flores abertas! — reina o
tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa
no pote de barro, jamais quererá contar-nos o que ela
sabe, e que nós ignoramos.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A divina providência.


Do Livro "A grande síntese" psicografia: Pietro Ubaldi
 
Nessa ordem de idéias pode haver lugar para a inconsciência individual, mas não para a inconsciência do Criador. Em qualquer caso, mesmo no mais atroz destino, podeis crer na ignorância e maldade dos homens, mas jamais podeis acreditar na insipiência ou maldade de Deus. É inútil criticar aquele que personifica as suas próprias causas da dor. Trata-se, frequentemente, de instrumentos ignaros, logo, irresponsáveis e movidos por distantes e profundas causas de vós mesmos. A vida é gigantesca batalha de forças que temos de compreender, analisar e calcular. Ninguém pode invadir o destino alheio, só pode semear loucamente alegrias e dores no próprio destino. Uma vida, tão substancialmente perfeita, não pode existir à mercê de um capricho e da louca alegria de atormentar-se mutuamente. Assim, não tem sentido maldizer-se nem rebelar-se, tanto mais que isso nada modifica, ao contrário, agrava o mal. É melhor orar e compreender, porque a dor só cessará depois de termos aprendido a lição que lhe justifica a presença.

   Nessas idéias situa-se, também, logicamente, o conceito de uma Divina Providência, como fato objetivo e cientificamente demonstrável. Se registrásseis em grandes séries o desenvolvimento dos destinos individuais, veríeis ressaltar do resultado uma lei em que aparece evidente a intervenção de uma força superior à vontade e ao conhecimento individuais. Mas o homem se comporta como se estivesse sozinho, isolado no espaço e no tempo. Sua ignorância da grande Lei que governa tudo, fá-lo crer que vive num caos de impulsos desordenados, abandonado apenas às próprias forças, sendo estas sua única lei e amparo. Seu egoísmo é um "salve-se quem puder" de todos contra todos. O homem fica só, um átomo perdido no grande mar dos fenômenos, no terror de ficar torturado por forças gigantescas, agitando seus pobres braços para defender-se, pequena luz em meio às trevas. Refugia-se, então, na inconsciência do carpe diem, que é a filosofia do desespero; cegueira intelectual e moral, que uma ciência que não conclui deixou intacta.

   Cegueira, inconsciência, porque num universo em que tudo brada causalidade, ordem, indestrutibilidade; em que tudo é função, equilíbrio automático e justiça, tudo está ligado por uma rede de reações, vinculado ao funcionamento do grande organismo. Tudo tem uma razão de ser e uma consciência lógica. É absurda qualquer anulação, tanto no campo físico, quanto no moral, como é loucura acreditar numa possibilidade de violência, de usurpação, de injustiça, só porque o homem a quer; pensar que ele, apenas um ponto do infinito, possa impor sua vontade, modificando a Lei universal.

   Com a demonstração científica da ordem soberana, coloquei-vos, agora, na encruzilhada: ou negar, aceitando a inconsciência, criando em torno de vós um mundo caótico, onde estais sozinhos, com vossas forças contra todos os fenômenos, rebeldes, ridículos e tristes, perdidos no mar de trevas; ou então, compreender e ir à frente, enquadrados no grande movimento, como soldados de um grande exército em marcha. A presença de uma ordem suprema resulta aqui já demonstrada: o homem só pode existir imerso na grande lei divina. Isso faz ser absurda qualquer culpa, qualquer baixeza e torna altamente utilitário o caminho da virtude. Cada coisa que existe nasce com sua lei, é a expressão de uma lei, só pode existir como desenvolvimento de um princípio e obedecendo a uma lei. Em qualquer forma, sempre encontrareis uma lei como sua alma, sua substância, única realidade constante através de todas as transformações da ilusão exterior. A forma acompanha sempre essa lei, que a guia e a modifica, para realizar-se em ato. Cada momento resume o passado e contém a linha do futuro, tanto nos organismos físicos, quanto no vosso organismo psíquico. O equilíbrio sustentou-vos até aqui, no presente, através da viagem pela eternidade e agora vos sustenta e guia para o futuro, sabendo e querendo, antes de vós, à revelia de vossa vontade e consciência.

   Ao conceito limitadíssimo de uma força vossa, individual, que dirija os acontecimentos, é necessário substituir o conceito vastíssimo de uma justiça que impõe seu equilíbrio e suas compensações ao destino. Dentro dela, violência e usurpação são absurdas antecipações de um átimo, que se terão de pagar, mais tarde, com exatidão matemática. Dentro dela está presente e age a divina providência. Não uma providência no sentido de um guia pessoal por parte da divindade, de uma ajuda arbitrária que possa solicitar sem merecê-la e que possa escapar-vos dos esforços obrigatórios da vida, mas uma providência que é um momento da grande Lei, permeada de equilíbrio, aderente ao merecimento, mantida por contínuas compensações que levantam quem cai se merecia subir, e esmagam quem sobe, se merecia descer. Trata-se de um princípio de ordem, uma força de nivelamento que ajuda o fraco e substitui os impulsos da prepotência humana; uma força com justiça, muito mais sutil, real e poderosa.

   A providência divina representa esta força maior, a justiça em ação, não só para levantar, como para abater. Por lei espontânea de equilíbrio, vereis que ela sabe dosar as provas para que não ultrapassem as forças; vê-la-eis levantar-se, gigantesca, para proteger o humilde indefeso e honesto que a opressão humana tencionava arruinar; vereis que ela dá a quem merece e tira de quem abusa, premiando e punindo, distribuindo além das partilhas humanas.

   Tremei vós, vencedores pela força humana, diante desse poder da justiça, que impulsiona todo o universo; e vós, fracos, não acrediteis que a providência seja inércia ou fatalismo, amiga dos preguiçosos; não espereis que essa força vos afaste do sagrado esforço de vossa evolução. Conceito de justiça e de trabalho, conceito científico do mundo fenomênico, não é base de um afastamento gratuito de sanções de dor e significa direito ao mínimo indispensável às forças humanas para ascender o cansativo caminho da vida; significam repousos merecidos e necessários, não ócios gratuitos e perenes, como quereríeis.

   Nada mais falso que a identificação da providência com um estado de inércia e expectativa passiva. Isto é invenção de indolentes iludidos, é exploração dos princípios divinos. Ela está presente para reerguer o homem que, na luta, perde suas forças, como o está ao abater o rebelde, mesmo se gigante; ela está ativa sobretudo para o justo que quer o bem e com seu esforço o impõe. Então o inerme, sem forças humanas, sem apoio, sem meios, apertará no punho fechado as forças mais altas da vida; as tempestades do mundo se acalmarão e os grandes se dobrarão, porque ele personifica a Lei e sua ordem. Enquanto permaneceis sozinhos na luta, abandonados apenas às vossas pobres forças, situado na profunda organicidade do real, recolhe-as de todo o infinito. Se parece abandonado e derrotado, uma voz lhe grita: tu não estás sozinho. O inerme pode então dizer a grande palavra que ribomba em todo o universo: falo-vos em nome de Deus.

sábado, 4 de maio de 2013

Cultura humana: novos aspectos.


As gerações vem e vão na esteira do tempo. As gerações fazem sua história contribuem, conscientes ou não, para a formação da cultura humana.
Toda criatura existente causa alguma alteração no meio ambiente em que existe, tanto boas quanto más. Desde as microscópicas formas de vida até o ser humano todos causam impacto na natureza simplesmente por existir.
As criaturas inferiores ao ser humano na escala biológica convivem na ordem determinada pelo instinto, mas no ser humano o livre arbítrio – uma abençoada conquista humana – favorece a desordem, como o demonstra a história humana.
Quantas gerações existiram e continuarão a existir neste planeta! Elas vem e vão, mas marcam sua presença, não nos registros históricos, mas no registro invisível denominado cultura humana.
Qualquer ser humano influencia este invisível, mas poderoso fator, tanto quanto é influenciado por ele desde os primeiros anos de vida.
Ao abrir os olhos a criança depara-se com um mundo formado, mas em constante evolução. Ela recebe uma herança moral e psicológica deixada por todas as gerações que a antecederam, formada por pensamentos, desejos, ações que vão inevitavelmente afetar sua formação moral.
O que faz a criança assimilar tão facilmente desde os primeiros anos as más influências? Temos que admitir que todos já nascem com uma predisposição natural ao mal, a qual encontra afinidade natural com a cultura social que ela encontra ao nascer.
 A cultura social humana guarda em seu registro invisível o mal deixado por todas as gerações humanas, este mal influencia o comportamento das novas gerações devido a pressão da corrupta cultura humana tanto quanto ao mal que  a criança traz em si.
A história humana revela um progresso contínuo, apesar de tantos obstáculos. Quantas epidemias, cataclismas, guerras e tantos outros desastres ocorreram na história humana! No entanto, isto não impediu a evolução constante da humanidade. A que atribuir esta ordem perpétua na desordem? Deus! Só Deus tem poder para manter a ordem e organização perpétua entre tantos destinos e seres existentes no mundo. Se Deus abandonasse o universo um segundo sequer o universo se tornaria um caos absoluto devido a ação de tantas forças antagônicas do mal, as quais prevalecem no mundo alimentadas inconscientemente por pensamentos, desejos e ações de todos.
É a Deus – e sua infinita bondade -  com suas leis profundas e sábias, que devemos a constante evolução moral da humanidade a qual eliminará o mal do mundo para sempre.