Luz.

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quinta-feira, 19 de março de 2015

Texto do livro "Cartas e crônicas." Irmão X. Psicografia: Chico Xavier

20 - NOTA EXPLICATIVA

Meu amigo, você estranha, sensibilizado, que certo “morto” inteligente haja olvidado o
compromisso de identificar-se, em mensagem pessoal, a determinado companheiro “vivo”.
Refere-se ao contrato de dois escritores respeitáveis que os interesses afetivos
entrelaçaram, profundamente, através de tertúlias literárias.
Um, à frente da morte, prometeu ao outro, mergulhado nas correntes da vida carnal, que
voltaria das pesadas águas do Estige, com noticiário elegante e compreensível.
Preliminarmente, porém, o amigo “morto” leria, em espetáculo de grande estilo, certa ordem
de palavras que o amigo “vivo” manteria em segredo no cofre forte. Reconhecido, então,
pelos poderes divinatórios, o autor desencarnado, promovido a oráculo, passaria à condição
de novo Marco Polo, com rádio e televisão para todos os recantos do mundo.
Com semelhante realização, em seu parecer que eu prezo muito, o Espiritismo salvador seria
respeitado em toda parte.
Todavia, o notável escritor desencarnado, em quebrando os selos do túmulo, pareceu
desmemoriado e distraído e não se arriscou à execução da promessa.
E você, à maneira de muita gente, duvidou e sofreu, porque aguardava a solução ao
problema da imortalidade, assim como se espera numa arena esportiva o resultado de uma
partida de futebol.
O literato encarnado, copiando a tartaruga que de modo algum aceita a existência de outra
praia, além daquela em que respira, enquanto dispõe de abrigo na carapuça, sorriu e negou,
embriagado pelas grossas volutas de incenso narcotizante da vaidade, e vocês, os
torcedores da pugna entre dois mundos, permaneceram desapontados.
Creia, porém, que a morte só é simples mergulho na vida espiritual, para quem soube ser
realmente simples na experiência terrestre.
Considerando, contudo, a complexidade de nossos desejos e os complicados processos de
luta a que nos afeiçoamos, ninguém julgue que “largar o corpo” traduza “ascensão ao céu”.
Enrola-se-nos a vida mental em múltiplos caprichos e, quando suspiramos pela libertação
verdadeira, eis que a nossa independência jaz subordinado aos emaranhados novelos de
nossos pensamentos que resultam em compromissos e prisões de variada espécie.
Somos balões cativos ao lastro de nós mesmos, incapazes de vôo mais elevado no clima
universalista, ainda mesmo quando sejamos portadores de intelectualidade brilhante, a modo
de ave rara pela plumagem ou pelo canto, dentro da floresta.
Nossa grandeza legítima não reside naquilo que aparentamos e, sim, no que somos.

A transição do corpo é fácil, mas a renovação da alma é difícil.
Os desencarnados arrependidos, perturbados e sofredores constituem vastíssima
retaguarda, congregando soldados e lidadores que não souberam vencer na posição a que
foram conduzidos.
Para meu consolo de jornalista humilde e anônimo, tenho visto reis e políticos, papas e
condutores, cientistas e filósofos, aflitos pelo reajustamento próprio, confinados a extremas
desilusões, qual se estivessem em escuro sótão reservado pela vida à sucata espiritual.
Quanto aos méritos do acontecimento para a doutrina consoladora que nos reúne, não
acredite que as adivinhações de um pensador invisível possam desviar o curso natural do
serviço que nos cabe realizar. Surgiriam mil recursos à sonegação calculada. Os
observadores renitentes citariam Houdini, o mágico, e os menos afeitos ao beletrismo
recordariam algum trapaceiro de circo vulgar, porque, realmente, a prova, em si, condiz muito
mais com a telepatia e com a clarividência comuns.
Nas demonstrações fenomênicas, temos sempre grande número de entidades veneráveis
inibidas de fazer o que podem, porque há, igualmente, grande número de médiuns que não
se animam a fazer o que devem, cabendo-nos, no entanto, a obrigação de crer no futuro,
trabalhando, invariavelmente, pela vitória da verdade.
O único Espiritismo triunfante é aquele que espiritualiza o indivíduo; e a hora dessa natureza
é logicamente morosa, por efetiva e segura.
Fenômenos por fenômenos, ninguém superará os do Cristo, materializando Espíritos
célebres no Tabor, ressuscitando cadáveres em Naim e Betânia, curando leprosos, cegos,
aleijados e loucos em Cafarnaum e Jerusalém... Entretanto, as revelações d’Ele ainda não
foram aceitas pela Humanidade inteira. E a nossa própria adaptação aos seus ensinamentos,
da qual espalhamos tanto alarde através de prelos e tribunas, ainda deixa muitíssimo a
desejar.
Prossigamos assim, meu amigo, na edificação doutrinária, com aplicação e diligência,
serenidade e perseverança, por dentro e por fora, servindo por amor, avançando pela fé viva
e glorificando a luta construtiva, em nome da vida eterna.
Quanto à massa dos que descrêem da própria existência de Deus, ajudemo-la, quanto
estiver em nossas possibilidades, recordando, porém, com o velho Horácio, que a morte,
porta de juízes e condenados, de doutos e ignorantes, de aristocratas e plebeus, “bate com
pé indiferente”.