Luz.

Luz.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Solidão e coragem.

Quem é amigo da solidão deve ser forte. Não é à  toa que os maiores gênios da humanidade eram solitários. É o preço que se paga por seguir seu próprio caminho, muito distante das veredas tortuosas e escabrosas trilhadas pelo  rebanho alienado de todas as épocas.
O rebanho não tolera a independência. Ele ama a fraqueza, o comodismo e a preguiça.  Quem se arrisca a afrontar este monstro invejoso e perverso, atrairá  sua ira.
Este monstro manhoso e astuto usa de todas artimanhas para manter todos sob seu domínio e tenta sufocar imediatamente qualquer manifestação de independência e liberdade.
A mediocridade e a ignorância –tão comum nas multidões-  sempre foram escravas deste monstro desde tempos imemoriais.

A vida não tolera os fracos, os acomodados,  os covardes e medrosos. Ela quer que sejamos fortes e corajosos. As provações da vida tem como objetivo fortalecer a alma humana. Deus estabeleceu leis sapientes que provam todos nós em todos os momentos. É um aprendizado constante e poderoso por toda a existência até o último suspiro.
É assim que Deus nos prepara dia a dia, momento a momento para que colhamos a messe de experiências, as quais transformam nosso coração e nossa mente abrindo caminho para que seu amor se achegue sempre mais, até a assunção completa da divindade que todos tem dentro de si, camuflada pela maldade, ignorância e a estupidez.
Quem quiser assumir sua divindade, terá que palmilhar o caminho da solidão, mas terá para si o o amor divino de Deus a sustentá-lo e protegê-lo na luta cotidiana, forças poderosíssimas do universo o sustentarão.
Também terá que assumir a beleza moral em seu comportamento no dia a dia. Terá que dizer não ao demônio que tem dentro de si, para que resplandeça a luz divina de Deus e o fogo sagrado do amor irradie de seu coração e ilumine tudo ao redor de si.
Então amanhã sua alma será absorvida pela luz infinita que irradia do coração de Deus e  sustenta toda a criação. Desfrutará da plenitude eterna sob o olhar amoroso de Deus.
A dor, a tristeza, a amargura e a infelicidade serão totalmente excluídas para sempre. O amor, a alegria legítima, a beleza e a pureza reinarão  por toda a eternidade.

sábado, 11 de abril de 2015

Uma joia da sabedoria. Do livro de Baruc, velho testamento.

Escuta Israel, os mandamentos, presta atenção, aprende a viver.
Que foi, Israel? Que aconteceu para estares em terra inimiga?
Estás envelhecendo em terra estranha! Por que te contaminas com os mortos, pelo contato com defuntos?
Abandonaste a fonte da sabedoria!
Se tivesses andado no caminho de Deus, agora estarias morando em paz sem fim.
Aprende, pois, onde está o saber viver, onde está o poder, onde a inteligência, para saber também onde está a vida longa e a saúde, onde a luz dos olhos, onde a paz!
Quem há de encontrar onde mora a paz? Quem chegará ao seu esconderijo?
Onde estão os governantes das nações, os domadores de todas as feras da terra?
Os que brincavam com as aves do céu e os que acumulavam tesouros de prata e de ouro – nessas coisas confiam os homens – e cujas riquezas não tinham limite? E os que lavravam a prata com esmero tal que ninguém reproduzia suas obras?
Desapareceram, caíram na fossa dos mortos, e outros surgiram em seu lugar.
Gente nova veio à luz e na terra veio morar, mas o trilho do saber foi incapaz de dominar,
seus atalhos não percebe e nem disso faz questão, mas os filhos depois deles já perderam a direção.
Dela nunca se ouviu em Canaã e em Temã jamais apareceu, nem os filhos de Agar, que pela terra a procuram, ou os mercadores de Mercã e Tema a contar histórias buscando o saber, chegaram a experimentar a sabedoria nem se lembram dos seus caminhos.
Como é grande, ó Israel, a Casa de Deus, espaçoso o lugar de sua propriedade!
É tão grande que não tem fim, é tão alto que não tem teto.
Aí surgiram os gigantes famosos, lá no começo do mundo, de enorme estatura e treinados para a guerra.
Não foi, porém a eles que o Senhor escolheu, nem jamais lhes ensinou o caminho da inteligência.
Eles morreram por não saberem viver, por falta de inteligência eles morreram.
Quem acaso subiu ao céu para alcançar a sabedoria para, do alto das nuvens, arrastá-la aqui para baixo?
Quem atravessou o mar para encontrá-la e deu-lhe um valor igual ao do ouro puro?
Não há quem conheça o seu caminho nem perceba os seus atalhos.
Só Aquele que tudo sabe conhece a sabedoria. Ele mesmo com sua inteligência a encontrou, só Aquele que fez a terra para duração eterna e de quadrúpedes a encheu, só Aquele que manda a luz e ela vai, chama de volta e, tremendo, ela vem: as estrelas brilham alegres cada qual no seu lugar.
Deus chama e elas respondem: “Pronto!”, brilhando com alegria para aquele que as fez.
É este o nosso Deus! Outro não se pode imaginar ao lado dele!
Foi ele quem encontrou todo o caminho da inteligência e, depois, o ensinou a Jacó, seu servo, a Israel, seu querido.
Ela é o livro dos mandamentos de Deus, a Lei decretada para sempre; quem os guarda, fica entre os vivos, quem os despreza morre.
Volta atrás, ó Jacó, e abraça esta Lei, caminha para a claridade à luz que dela vem.
Não dês a outro a tua glória nem entregues tua vantagem a gente estranha.
Felizes somos nós, ó Israel, pois a nós foi revelado o agrado de Deus.
Confia, povo meu, na memória de Israel: Fostes vendidos às nações – não para a destruição –, fostes entregues aos inimigos por terdes irritado a Deus.
Insultastes vosso próprio criador, sacrificando a demônios e não a Deus.
Esquecestes o Deus que vos alimentou, o Deus eterno, provocastes a tristeza de Jerusalém que vos amamentou.
Ela viu cair sobre vós a ira que vem de Deus e disse, então: “Escutai, vizinhas de Sião, Deus me trouxe um grande sofrimento:
Vi a prisão de meus filhos e filhas trazida pelo Eterno.
Com alegria eu os tinha criado, deles me despedi, chorando e gemendo.
Ninguém queira mais comigo se alegrar, que agora estou viúva, abandonada. Se agora fiquei só e vazia, foi por causa dos pecados de meus filhos que se desviaram da Lei de Deus.
Não entenderam seus mandamentos, não andaram pelos caminhos da Lei de Deus, nem entraram pelos trilhos da disciplina e da justiça.
Que venham as vizinhas de Sião e lembrem-se da prisão de meus filhos e filhas trazidos pelo Eterno.
Reuniu em torno deles uma gente lá de longe, povo atrevido e de língua estranha, que não respeitava os mais velhos nem tinha compaixão das crianças.
Levaram embora o filho único da viúva, ou deixaram a mulher sozinha, sem as filhas”. Mas eu, em que vos posso ajudar?
É Aquele mesmo que vos trouxe a desgraça, quem vai poder libertar-vos do inimigo.
Ide-vos embora, filhos meus, ide embora! Eu aqui fico na solidão.
Tirei minha veste de felicidade e vesti o luto da súplica, para clamar por toda a vida ao Eterno.
Coragem, meus filhos, clamai a Deus! E ele vos há de livrar dos poderosos, vai libertar-vos das mãos dos inimigos.
Eu, da minha parte, espero da mão do Eterno a vossa salvação. Para mim já chegou a alegria que vem do Santo, por causa da misericórdia que logo vos chegará da parte do Eterno, o vosso Salvador.
Entre lágrimas e gemidos eu vos dei adeus; Deus porém, vos há de fazer voltar a mim acompanhados de alegria e festa eternas.
Da mesma forma como as vizinhas de Sião vos viram, há pouco, partir cativos, assim, em breve, elas terão de ver a salvação que de vosso Deus vos chegará, pois é com grande glória e brilho eterno que ele vos libertará.
Suportai, firmes, filhos meus, a ira de Deus que se voltou contra vós. Teu inimigo te perseguiu, logo, porém, poderás ver sua derrota e pisar-lhe o pescoço.
Meus filhos queridos tiveram de passar por um caminho pedregoso, tocados pelo inimigo como gado roubado.
Coragem, filhos meus! Clamai a Deus! Aquele que vos feriu, de vós há de se lembrar.
Como um dia vos veio a ideia de abandonar a Deus, agora, com dez vezes maior disposição, voltai a procurá-lo.
Aquele mesmo que vos trouxe tanto sofrimento, com a vossa salvação, alegria eterna há de trazer.
Coragem, Jerusalém, Aquele que te deu um nome é quem vai te consolar.
Infelizes os que te prejudicaram, e se alegraram com tua queda.
Infelizes as cidades a quem teus filhos serviram como escravos, infeliz aquela que recolheu os teus filhos.
Da mesma forma como ela ficou feliz com tua queda e fez festa com tua derrota, assim também sentirá a tristeza do seu próprio abandono.
Vou cortar lhe a arrogância de ser muito populosa e a sua alegria se transformará em luto.
Um fogo lhe há de vir, mandado pelo Eterno, para durar muito tempo, e por longos anos será morada dos demônios.
Olha para o oriente, Jerusalém, e vê a alegria que te vem da parte de Deus.
Eis que  estão chegando os filhos que viste partir, estão vindo, reunidos, desde o nascente até o poente, pela palavra do Santo.
Estão vindo, festejando a glória de Deus.
Tira, Jerusalém, tua roupa de luto e humilhação e veste para sempre a formosura gloriosa, daquela glória que vem de Deus.
Veste o manto da justiça que vem de Deus! Põe na tua cabeça a grinalda gloriosa do Eterno.
Deus vai mostrar o teu esplendor a tudo o que existe debaixo do céu.
De Deus receberás, então, este nome: “Paz-da-Justiça“, “Glória-do-culto-a-Deus”.
Levanta-te, Jerusalém, põe-te no alto! Olha bem para o lado do nascente, poderás ver teus filhos sendo reunidos, pela palavra do Santo, do nascente ao poente, alegres porque Deus se lembrou deles.
Deste lugar um dia eles partiram, tocados a pé pelos inimigos. Agora Deus vai trazê-los de volta carregados solenemente como em cortejo de rei.
É que Deus já mandou cortar todo morro elevado, toda serra antiga, para aterrar os lugares mais fundos e aplainar o chão a fim de que Israel possa passar com segurança, sob a glória de Deus.
Por ordem de Deus todas as árvores e plantas de cheiro hão de fazer sombra para Israel.
Assim é que, festivamente, Deus há de conduzir Israel para a luz de sua glória, por força da justiça e da misericórdia que dele vêm.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

A função da dor. Texto de "A grande síntese." Psicografia: Pietro Ubaldi. Apogeu máximo do conhecimento.

81. A FUNÇÃO DA DOR.
 Outra força que o homem moderno teria de compreender é a dor. A atitude de vossa mentalidade diante do fenômeno da dor é a de defesa e de rebelião. A ciência fez faiscar em vossas mentes a ilusão de uma possibilidade de paraíso imediato na Terra e desencadeou uma guerra contra a dor, mesmo à custa de qualquer prostituição moral, num paroxismo de terror que revela como, mesmo nas dobras de sua audácia, esconde-se numa zona cinzenta de fraqueza, uma alma cega diante dos objetivos supremos. Mas essa atitude de espírito não alcançou sua meta e jamais, mesmo no estrondo de tão grande progresso, a dor assanhou-se tanto mais aguda e profunda; nunca se viu maior vazio no espírito, faltando a coragem de lutar e saber sofrer. A ciência não compreendeu que a dor tem uma função fundamental de equilíbrio na economia da vida e como tal, não pode ser eliminada; ela é íntima função de ordem, função biológica construtiva, como excitante de atividades conscientes. O tão criticado estado de alma, de resignação paciente, é uma virtude de adaptação, de resistência e de defesa, que os povos modernos estão perdendo. A ciência movimentou-se para eliminar as causas próximas da dor; ela, porém, corresponde a uma lei de ampla causalidade, cujos primeiros e distantes impulsos é mister pesquisar. Essas causas estão na substância dos atos humanos, na natureza individual. Enquanto o homem for o que é e não souber realizar o esforço de realizar-se a si mesmo, a dor será parte integrante de sua vida, com funções evolutivas fundamentais. Portanto, é irredutível fator substancial que impõe a evolução. Sei muito bem como é o homem moderno e não lhe peço a perfeição imediata. Digo-lhe, entretanto, que, se não for capaz de melhorar-se e enquanto não modificar-se, todas as dores que lhe sobrevierem serão justas e bem merecidas. Pobre ciência: muda diante dos problemas substanciais! Pobres crianças que odiais a dor que vós mesmos quisestes e que semeastes; que tendes a ilusão de vencê-la, calando-a e escondendo-a ao invés de compreendê-la. Os problemas só se resolvem quando são enfrentados com lealdade e coragem. No meio de tanto progresso, cada um caminha mudo dentro de si mesmo, a sorrir numa máscara de cortesia, que esconde seu fardo de males secretos. A cada dia, novos excessos em todos os setores, excitando novas reações de sofrimentos futuros. Se o homem tem de ser livre e, no entanto, ignora as consequências de suas ações, uma dor atroz que o flagele é, para seu bem, a reação necessária e proporcional à sua sensibilidade. Isto é inevitável, quando a orientação da vida for toda errada. A lei das coisas nem por isso se modifica, mas reage a cada momento para fazer-se compreender. Em sua ingenuidade, o homem pretenderia violar e modificar a Lei, torcendo-a a seu favor; está iludido de que pode e sabe tudo, fraudando a todos; ri-se das reações e considera o irmão caído como um falido, ao invés de estender-lhe a mão, para que a encontre estendida para si quando for sua vez de cair. Deveria, ao contrário, compreender que, num mundo em que nada se cria e nada se destrói, também no campo das qualidades morais sutis, só se neutraliza um efeito ao reconduzi-lo invertido para a sua causa, a fim de aí encontrar sua compensação. Não se anula uma quantidade de caráter consciente e moral, se não for absorvida pela vida. A mentalidade moderna míope limita-se ao jogo da defesa imediata, contra uma força que volta sempre. Com constante esforço expulsa-a, ao invés de absorver-lhe o alívio que a esgota; para não ver e para atordoar-se nos prazeres, aumenta-a com novos erros, que voltam sempre em forma de novas dores. Assim, homens, classes sociais e nações transferem-se uns aos outros essa massa saturada de débitos, que circula por todos, passa de geração em geração e fica sempre a mesma, porque ninguém a absorve. Cristo, que morreu na cruz, redimindo a humanidade com sua paixão, é o grandioso símbolo que resume e convalida esses conceitos. Que diremos ao homem comum que sofre, mesmo ignorando? É bem triste, por vezes, o quadro das reações naturais, que denominais castigo divino. Inútil negá-lo: todos sofrem mais, ou menos; todos se debatem entre os braços do monstro. Pobre ser, o homem! Não só permaneceu pagão, mas bestial na substância, abaixa tudo a seu nível: religião, estado, sociedade, ética. Para adaptá-los a sua condição, realiza uma contínua redução de todos os valores morais; permanecendo nos instintos primordiais do furto e da guerra, precisa atravessar dores ingentes, porque só elas poderão fazer-se entendidas, abalando sua inconsciência. A alma humana, que hoje amontoou sobre si um fardo tão embaraçoso de inútil cerebralismo, não vê esses equilíbrios espontâneos e simples. No paroxismo de um dinamismo frenético, sua alma é fraca e primitiva. Que poderia fazê-lo recobrar a razão, mesmo deixando-o livre, se não a imensurável massa de dores? Está equilibrado em seu nível, oprimido por áspera luta e por uma realidade de dores. Iludido, insensível, inconsciente, o homem resiste a qualquer melhoria substancial; corre atrás dos sentidos, ambiciona a ascensão exterior, econômica, ávido para abusar de tudo, imerso no egoísmo do momento, ignorante do amanhã, fechado em seu horizonte. Se o gênio não se abaixar até ele, certamente que nada saberá fazer para alçar-se até o gênio. As verdades são julgadas, mas o esgotamento dos ideais é tão velho quanto os homens e a sociedade habituou-se a considerá-los mentira. Cada um sabe, por instinto, filho de experiências seculares, que por trás de tantas ostentações de coisas grandes, existe a própria miséria moral e material; que aquelas são retórica e esta a realidade; acredita nas verdades em que todos creem, a festa do próprio ventre e a vitória por qualquer meio. A palavra é dada à dor, única marteladora eterna de destinos e forjadora de almas. Ela ficará enxertada no esforço da vida, gotejando cada dia, e com grandes lufadas periódicas coletivas, para atingir as almas e deixar nelas suas marcas. Para chegar à solução do problema é indispensável o aperfeiçoamento moral, o remate do amadurecimento biológico do super-homem; é preciso subir com Cristo à cruz e refazer a vida individual e coletiva nas bases do amor; é necessário saber reencontrar na dor uma força amiga, da qual se compreendem as causas, a função, e delas se utiliza para a própria ascensão. A dor é o esforço necessário da evolução, é a essência e a razão da existência; contém o germe de uma felicidade cada vez mais alta que o homem “deve” conquistar. Esses equilíbrios são insuprimíveis e indispensáveis à respiração do universo. Se a dor faz a evolução, a evolução anula progressivamente a dor. Esta, reabsorvendo a reação e eliminando o débito, operando a gradativa harmonização e atuação da Lei no Eu, elimina-se a si mesma, enquanto faz progredir o ser. Isso demonstra a justiça e a bondade da Lei, que não é lei de mal, nem de dor, mas lei de bem e de felicidade. Por isso é necessário seguir um caminho de gradual redenção em várias etapas: primeiro, reabsorver as reações livremente excitadas no passado, sofrer pacientemente as consequências das próprias culpas; depois, reconstituído o equilíbrio, manter-se em estado de harmonia com a Lei, evitando qualquer nova violação e reação. É indispensável conceber o universo não como um meio para a realização do próprio Eu, seu centro, mas como um universo regulado por uma Lei suprema, dentro da qual só é possível realizar o próprio Eu, quando em harmonia com tudo o que existe. É necessário conceber a dor não como um mal devido ao acaso, mas como uma forma de justiça, como uma função de equilíbrio que ensina ao homem, mesmo respeitando-lhe a liberdade, os verdadeiros caminhos da vida, e o “constrange”, após tentativas e erros, pelo único caminho possível, o do próprio progresso. A dor não pode desaparecer, se não for pago o débito à Lei de justiça, que, no campo moral, social, histórico, econômico, físico e químico, é sempre a mesma Lei, a mesma vontade, o mesmo Deus. Não se rouba, não se escapa, no tempo, à sua ação; rebelar-se é excitar maior choque de reações; sua elasticidade (divina misericórdia) é tão grande que pode conter todo o livre-arbítrio humano, terminando sempre por devolver-vos como fato inexorável. A anulação da dor é feita corajosamente através da dor. Por isso, ela pode ser colocada no caminho das ascensões humanas. Recusai a utopia que o materialismo vos pôs na mente e percebei esta solene verdade da vida. Entre o impulso frenético de vossos tempos para todas as felicidades, entre a série lastimável de todas as experiências humanas, diante da desilusão, com um sonho vão nas pupilas da felicidade não atingida, tenha o homem a coragem de olhar esta realidade mais profunda, abrace fraternalmente sua dor. Que ele aprenda e progrida na arte de saber sofrer. Talvez julgueis este tom prevalentemente negativo, mas ele é apenas sob vosso ponto de vista humano, não das reconstruções super-humanas, onde jaz minha maior afirmação. Na tábua relativa de vossos valores éticos, estais sempre embaixo e vossas virtudes violentas e guerreiras, necessárias ao vosso estado atual, não serão mais virtudes e serão superadas amanhã. Tudo é proporcional ao próprio nível e o exprime. Há muitas formas de dor, esta é tanto mais grave, quanto mais baixo estiver o ser. A medida do contragolpe doloroso, que recai sobre quem movimentou a causa, é obtida pelo cálculo de responsabilidade e vimos, modifica-se com o grau de evolução, a qual sutiliza a cadeia férrea das reações. Observai como o castigo quase se volatiliza, no processo da espiritualização progressiva. No mundo subumano, a dor é derrota sem compaixão; o ser sofre nas trevas, cheio apenas de ira, num estado de miséria absoluta, sem luzes espirituais compensadoras. É a dor do condenado, cego, sem esperança. E o homem tem liberdade de retroceder para esse inferno, se não quiser aceitar o esforço de sua libertação. No mundo humano, a consciência desperta, pesa e reflete; o espírito tem o pressentimento de uma justiça, de uma compensação e de uma libertação, e espera. É a dor tranquila de quem sabe e resgata; é o purgatório confortado por uma fé; o castigo pára nas portas da alma, que tem seu refúgio na paz. A mente analisa a dor, descobre-lhe as causas e a Lei, aceita-a livremente como ato de justiça que trará alegria; de um tormento faz um trabalho fecundo, um instrumento de redenção. Quanto já perdeu a dor de sua virulência! Muito diferente é o sofrer esperando e bendizendo, pois, o golpe contra a alma assim encouraçada é menos amargo e, no espírito defendido por essa profunda consciência, tem menor força de penetração. A visão substancial das coisas dá, a cada caso, a sensação da justiça, uma grande fé e um absoluto otimismo; entre as dissonâncias do ambiente, forma-se na alma um oásis de harmonia. Chega-se, assim, por graus, ao mundo super-humano, em que a dor perde seu caráter negativo e maléfico e transforma-se numa afirmação criadora, em poder de regeneração, numa corrida à vida. Ergue-se, então, o hino da redenção: felizes os que choram. A dor, obrigando o espírito a dobrar-se sobre si mesmo, prepara o caminho para as profundas introspecções e penetrações, desperta e desenvolve suas qualidades de outro modo latentes, multiplica-lhe todas as potencialidades. Sobretudo para as grandes almas, a dor é uma força de valorização e criação. A expansão da vida, constrangida para dentro, atinge realidades mais profundas e o choque da dor obriga a seguir os caminhos da libertação. Novo mundo se revela a cada golpe que parece trazer ruína, algo referve e nasce do âmago do Eu; a cada golpe da dor que parece mutilar a vida, algo se reconquista, que a faz crescer e a eleva. A dor desapega e liberta de um invólucro denso de desejos e de sensações; a alma, a cada pedaço de animalidade arrancado, dilata-se em mais amplo poder de percepção, em forma mais intensa de vida, em realidade mais profunda. Imaginai a mais titânica das lutas, o mais tremendo dos esforços, a mais impetuosa tempestade. Há um dilaceramento silencioso no âmago das leis biológicas; uma disputa palmo a palmo no campo da vida; um encarniçamento de retornos atávicos para baixo, uma atração irresistível para o alto. Espírito e animalidade lutam, vinculados e inimigos, como na hora da alvorada lutam a luz e as trevas, para que surja o dia. Na fase super-humana a dor não é mais apenas expiação, que se conforta com a esperança: é o ímpeto frenético das grandes criações espirituais. No meio da luta pela libertação, a sensação dominante é juventude, na expansão das energias é ressurreição; enfraquecidas as paixões e dominadas as prepotências da natureza inferior, a sensação do espírito vitorioso é o doce repouso de quem aporta num oásis de paz. O espírito olha então com mais calma dentro de si. A dor e a luta sutilizaram seu ouvido e ele pode ouvir. Então evoca-se o canto do infinito. Então, lentamente, do âmago da alma, entoa-se a grande sinfonia do universo. As notas que aí cantam são as estrelas e os mundos, as flores e as almas, as harmonias da lei e o pensamento de Deus. Levanta-te ó alma, tua dor está vencida! Morta, entre as coisas mortas, está tua dor, lá em baixo, inútil instrumento jogado fora, lá embaixo, na margem deserta de um caminho triste. No infinito, o universo canta: levanta-te, tua dor está vencida. Todas as coisas transformaram-se diante do olhar de Deus; o canto tem tal profundidade de doçura, que a alma se desorienta. Pela alegria da mente, caem os véus do mistério; pela alegria do coração caem as barreiras do amor. Abre-se o universo. Uma vibração onipresente de amor transporta o espírito fora de si, de visão em visão, de felicidade em felicidade. Ele não luta mais: abandona-se, esquece-se em Deus. As forças da vida o sustentam e o arrastam, lançam-no para o alto onde está o novo equilíbrio. Decepadas as cadeias, ele está verdadeiramente livre e pode subir; o passado persegue e é necessário percorrer até o fundo os caminhos do bem, tanto quanto para os maus é preciso que se afoguem até o fundo, nos caminhos do mal. Então o ser não pertence mais à Terra de dor: imerge cada vez mais na luz do Cristo e aí se aniquila num incêndio de amor. Estas não são rarefações utopísticas da respiração da vida, senão enquanto não for deslocado o centro da personalidade para o mundo super-humano. O conceito de dor-prejuízo e de dor-mal evolui, desse modo, por gradações, para o de dor-redenção, dor-trabalho, dor-utilidade, dor-alegria, dor-bem, dor-paixão, dor-amor. Há como que uma transubstanciação da dor na lei santa do sacrifício. Nesse paraíso, o milagre da superação da dor através dela própria está realizado. O mal transitório, o estridor das violações, o choque violento entre a livre ação e a lei esgotam-se em suas funções; a dor existe para engolir-se a si mesma; cai o desacordo à proporção que atinge a harmonia. Por meio desse sábio mecanismo, pelo qual a liberdade é obrigada a canalizar-se para o progresso, chega-se à unificação do Eu com a Lei. Então desaparece qualquer possibilidade de violação e de reação e  a dor se anula em sua causa. Então a alma brada: “Senhor, agradeço-Te por esta, que é a maior maravilha da vida: que minha dor seja Tua bênção”! Mesmo por outros caminhos inferiores e coletivos, a dor tende a anular-se. Este é o último anel da cadeia: involução, ignorância, egoísmo, força, luta, seleção. Mas o ímpeto evolutivo transforma a fase da força em justiça, o mal em bem. Demolindo as mais baixas condições de vida, opera a transformação da dor. Coletivamente, a força — por um jogo de reações coletivas, por progressiva aproximação e pela lei do mínimo esforço — tende, com o uso, à auto-eliminação, quase reabsorvida em si mesma e ressurgindo em forma de justiça; assim coletivamente a dor tende a anular-se como fator transitório inerente às mais baixas fases de evolução. Absurdos seriam um mal e uma dor incondicionais e definitivos. O maior ímpeto da vida, a evolução, leva, necessariamente, o mal ao bem, a dor à felicidade. Mostro-vos todas as gradações da verdade, para que cada um escolha a mais elevada em seu concebível. Dizei-me como sabeis sofrer e vos direi quem sois. Cada um sofre diferentemente, de acordo com seu nível: uns amaldiçoando, outros resgatando, outros abençoando e criando! Das três cruzes iguais sobre o Gólgota, partiram três gritos diferentes. Só justiça e amor é a reação dos Grandes. Cabe a vós saberdes extrair do esforço da vida a maior ascensão do espírito, utilizando a dor, ao invés de combatê-la, transportando cada vez mais para o alto o centro de vossa vida. Certamente que nestes níveis não estamos na ordem comum das coisas humanas atuais, e tudo isso pode parecer fuga e demolição de virtudes positivas; mas eu vos disse que é fuga, para uma afirmação mais elevada. Isso pode parecer mutilação de aspirações e de vontades, supressão de energias sadias, produtivas, mas aquelas aspirações jamais vos farão sair do ciclo da vida nos níveis inferiores, nos quais cada vitória tem que contrabalançar-se com uma derrota, cada juventude com uma velhice. Aí, cada grandeza precipita-se sempre em sua destruição. O que vos indico, porém, é sublimação da vida, numa forma de ação mais alta, dirigida a conquistas que são as únicas eternas; ação mais enérgica e civilizada que o desperdício inútil da agressão comum, que desorganiza; ação mais produtiva, porque consciente das forças naturais, entre as quais ocorre. Não vos indico como ideal supremo humano a figura primitiva do herói da força que violenta e vence, mas — ainda que as massas não nos entendam — mostro-vos o super-homem, em que a vontade do dominador, a inteligência do gênio, a hipersensibilidade do artista e a bondade do santo fundem-se; o lutador sobre-humano que perdoa e ajuda a seu semelhante, só ataca as forças biológicas e as submete, ser de nova raça, lutador da justiça, senhor de si mesmo, para o bem coletivo. A santidade não morreu nem foi superada, apenas começou e tem que subsistir no mundo moderno uma santidade nova, culta, consciente, científica, que ressurja das velhas formas no coração de vossa vida turbilhonante; é mister que volte a lutar pelo bem e, com vossa psicologia objetiva, enfrente heroicamente o choque de vossa rebelde alma nova. Se hoje o lema é força, que seja a força superior do espírito; seja uma beleza espiritual que ouse mostrar-se viva no mundo como um desafio, para que este, se não compreender, dilacere-a e dilacerando-a, aprenda. O santo, nesse sentido amplíssimo, passa em missão, só é grande por inclinar-se a educar e erguer para essas superações da dor. Muito lento é o caminho das massas inconscientes, embaixo . Esperam elas a fecundação da parte desse ser, ponto culminante, para o qual converge todo o transformismo fenomênico, sustentado e querido por todas as forças da evolução, fenômeno realizado da transformação biológica. No último produto do grande esforço da vida, a criação dobra-se sobre si mesma para retomar, no movimento evolutivo, as camadas mais baixas. O impulso torna a descer para elevar e para aliviar a dor; estende a mão ao homem que caminha sob o peso de sua ascensão, e carrega sobre si a dor do mundo. Esta retomada ascensional, que já estudamos como característica fundamental no desenvolvimento da trajetória típica dos movimentos fenomênicos, aqui se torna inerente ao impulso da evolução e nela representa ainda uma tendência à eliminação da dor.