Luz.

Luz.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Cansaço e ilusão.

Cansaço! É o prêmio de vossos esforços durante toda a vida.
Cansaço! É o fim infeliz de vossa estrada ilusória. Esta estrada conduzirá à cidade do tédio e do desespero.
Por que não ouvis a voz de vossa alma? Não podeis enxergar as cinzas dos grandes impérios do passado? O que restaram de Roma, Grécia, do Egito? As maiores civilizações do passado. Vítimas e algozes foram transformados em pó há milênios. O que restou deles?
Todos eles vieram e partiram como vós chegastes e tereis que partir. Não enxergais a ampulheta invisível do tempo a encher um punhado de areia momento a momento?
Sabei viver! Buscai antes de tudo o manancial luminoso de tua alma. Abandonai as mercadorias que pesam tanto em tua vida. Abandonai o peso invisível que vos acabrunha dia a dia e vos faz arrastar sob sua pressão, até que acabais envergado e prostrado na senda macabra que escolhestes para si próprio.
Viveis como formigas atarantadas, ocupadas com cargas inúteis, que para coisa alguma servem senão para fortalecer vossas pernas. Mas o que ganhais com isto? Para aonde fostes depois de tudo? Ficastes parado com as mãos vazias olhando para o ar, vazio como tua alma.
Acreditai! Para a Vida vale mais oferecerdes uma flor para tua amada, de que atulhardes de mercadorias tua casa.  Vale mais encherdes as faces dela de beijos, de que estardes  ornamentados de ouro dos pés à cabeça. Acreditai! Para a sábia Vida vale mais sorrirdes a uma criança de que estardes com teu cofre atulhado de notas.
A Vida ama mais um bêbado que ajuda outro bêbado a ir para a casa, do que tu com teu cofre cheio.
De nada vale teu esforço se não estiverdes estribado na alma! De que vale tudo o que fazeis se teu coração está distante?
Um pequeno ato de amor e bondade, vale mais para Deus do que todos os cofres do mundo atulhados de notas até a borda.
Plantai no espírito, plantai na alma. Enveredai pelas trilhas maravilhosas do coração e colherás a alegria perpétua por toda a eternidade.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Chocolate...

Um garoto de nove anos caminhava solitário no acostamento de uma rodovia do interior no estado de São Paulo durante a noite que precede o dia de finados.
Seus passos miúdos se estendiam pelo acostamento  da rodovia deserta àquela hora da madrugada. Ele caminhava, triste e cabisbaixo em  direção à cidade vizinha àquela em que morava. Já havia percorrido 3 dos 21 quilômetros totais de seu percurso.
Lembranças terríveis assombravam sua alma na escuridão silenciosa daquela rodovia àquela hora. Sua vida tornou-se um inferno desde a morte de sua mãe um ano e sete meses antes.
Seu pai desapareceu de sua vida desde seus primeiros anos de vida. Depois da morte de sua mãe ele foi morar com a família de um  de seus tios, os quais o maltratavam frequentemente. Cansado de perseguições, maldades e constrangimentos, ele colocou algumas roupas em uma mochila e partiu discretamente. A família percebeu sua fuga, mas ninguém foi procurá-lo.
Ele caminhava no sereno da madrugada, seus olhos estavam marejados de lágrimas. Com o coração partido, a alma pesada como chumbo, a sensação da fome a corroer-lhe o estômago vazio, ele percorria o caminho sob a luz das estrelas, muito brilhantes naquela hora e naquele lugar afastado.
Cansado, ele sentou-se em uma moita à beira da estrada. Tão logo ele sentou, uma fadiga imensa o obrigou a deitar na grama. Ele cochilou por um momento. Bastou ele apoiar a cabeça em sua mão esquerda, fazendo o braço de travesseiro, para a imagem querida de sua mãe surgir diante dos olhos de sua alma. Ele recordou momentos marcantes de ternura inesquecíveis. Ele lembrava dos carinhos de sua mãe, parecia sentir a mão de sua mãe acariciando-lhe a orelha. Ele parecia sentir o toque de seus lábios em sua face. Lágrimas abundantes escorriam de seus olhos ao lembrar daquela alma tão querida. Um sentimento horroroso de solidão invadiu sua alma, ele sentiu-se completamente só e abandonado. Ele chorou muito, perdeu a sensação do tempo. Não sabia dizer quanto tempo esteve deitado na relva.
Enfim, levantou-se e continuou seu caminho. Era sua intenção visitar o túmulo de sua mãe na cidade vizinha, onde ela foi enterrada e procurar a casa de sua avó materna. Sua mãe! A alegria de sua alma! Sua mãe! O tesouro de seu coração! O que ele mais amava no mundo! Onde estaria sua mãe?
Tão logo ele pôs se a caminho avistou alguns pés de laranjeiras ao redor da rodovia,  - a misericórdia de Deus nunca abandona ninguém – ele encheu a mochila e chupou algumas ali mesmo antes de prosseguir.
Ele continuou sua jornada. Depois de caminhar mais de uma hora e meia passou por um grande posto de gasolina, onde havia vários ônibus estacionados junto a vários automóveis e caminhões. Havia um grande restaurante e várias pessoas dentro. Ele aproximou-se, foi até a porta e olhou para dentro. A primeira coisa que notou foi uma mesa repleta de doces e entre os doces uma casa feita de chocolate sobre a mesa.
Ele amava chocolate! Desde seus primeiros anos ele sentiu uma verdadeira paixão por chocolate. Sua mãe sempre comprava chocolate para ele.
De volta à rodovia ele ficou com a lembrança daquela casa de chocolate no pensamento, na qual misturava-se a imagem de sua mãe formando uma amálgama esdrúxula.
Começou a chover. Ele continuava a caminhar sob a tormenta. O trecho que ele passava no momento era mais movimentado. Caminhões e automóveis passavam em alta velocidade por ele. A chuva caía torrencialmente.
Ele precisou atravessar para o outro lado da rodovia devido a  uma obra que impedia o caminho por onde andava.
Havia um certo movimento de veículos naquele trecho. Ele esperou o momento oportuno e correu para o outro lado. Quando estava quase chegando ao outro lado da pista, escorregou e bateu com a cabeça em cheio no solo. Seu corpo rolou para a pista, ele tentou se levantar e correr para o acostamento, mas  foi o suficiente para que um automóvel chocasse com seu corpo lançando-o longe.
O motorista do carro carregou seu corpo exânime até o carro e levou-o para o pronto socorro da cidade. Era tarde, o médico informou que ele já havia chegado morto.
Foram feitas buscas na cidade para encontrar o paradeiro de algum parente, mas em vão. Ele foi enterrado no cemitério da cidade. Não havia pessoa alguma em seu funeral. Apenas alguns pássaros chilreavam próximo ao seu túmulo, como uma lembrança de Deus a todos os corações solitários do mundo.
Coisa bem diversa acontecia “do outro lado.” Seu corpo foi entregue à natureza, mas sua alma imortal, seu “eu” legítimo desprendia-se das correntes que a prendiam às misérias e angústias da vida humana.
Ele sentiu-se livre e leve como uma borboleta. Qual não foi sua surpresa ao perceber que estava em um jardim imenso, repleto de flores. Margaridas, rosas, crisântemos e uma variedade enorme, espalhavam-se por lindos canteiros, mas havia algo insólito: as flores eram de chocolate! Não só as flores, tudo ali era de chocolate. Os muros que cercavam os canteiros, as cadeiras, as mesas e até as paredes de umas graciosas casinhas que estavam espalhadas por toda a parte eram de chocolate! Havia mesmo uma montanha enorme de chocolate.
Estátuas graciosas de criaturas de aparência adulta, mas do tamanho de crianças, espalhavam-se em pedestais por todos os lados. Como tudo, também eram de chocolate.
Um portal se abriu diante dele e seus olhos maravilhados viram surgir diante de si um grupo sorridente de criaturinhas graciosas e delicadas. Eram todas extremamente simpáticas e afáveis. Tinham um aventalzinho colorido e um gorro extremamente gracioso ornava-lhe as cabeças delicadas.
Uma delas adiantou-se sorridente e disse: "seja bem-vindo! Eu sou a fada Lu. Estas aqui são minhas companheiras, todas fadas como eu. Você quer chocolate? Como o quanto quiser!" Ele dirigiu-se ao jardim e retirou uma das flores e comeu. Deus do céu! O que era aquilo? pensou! Nunca em  sua  vida experimentava algo tão delicioso! Parecia um néctar dos deuses! Um prazer inefável tomou conta de si, uma sensação de alegria exultante penetrou até o fundo de sua alma. Um sentimento delicioso de paz, harmonia e beleza regozijante inundou sua alma.
Ao acabar de comer, uma ideia, ou melhor, uma intuição magnífica tomou conta de seu coração. Ficou receoso de falar o que vinha-lhe à alma.

Nem foi preciso. A fada Lu pegou em sua mão direita e encaminhou ele para uma vereda estreita que se estendia à direita. Lá estava uma pessoa com os olhos cheios de lágrimas.
Seu coração inundou-se de uma emoção infinita. Parecia que todo o universo se concentrava em uma única palavra, a qual saiu de seus lábios emocionados: “Mãe!”
Ele correu para os braços dela. Ficaram abraçados por muito tempo diante das abundantes lágrimas que caiam do olhos do gracioso grupo de fadas.
As lágrimas da mãe, do filho e das fadas ajuntaram-se no ar e transformaram-se em uma estrela gigantesca. Imediatamente uma cópia de chocolate da estrela erigiu-se do solo enquanto a estrela original foi-se para o infinito.