Podeis achar que sou excêntrico ou louco, não me importo!
Mas, a verdade é que falo com anjos.
Desde criança sempre me encantou estes seres sublimes e
puros, diletos de Deus. Não foram poucas as vezes que eu ficava sentado na
calçada em frente de minha casa olhando extasiado o céu estrelado imaginando
onde viveriam os anjos...
Perdoai-me, eu ainda era puro; minha alma era virgem,
ainda podia cantar melodias em coro de arcanjos. Atualmente, o cansaço do mundo
emudeceu minha voz. Ah! Deus, onde ficou minha alma virgem? Quando perdi meu
grande tesouro?
E eu ouvia suas vozes e eu via seus vultos radiosos. Sois
daqueles que ainda tem a alma virgem? Então sabeis o que digo.
Quem sou eu? Onde moro? É irrelevante! Uma alma é uma
alma. Um nome é uma etiqueta imposta pelo mundo.
Um lugar é um lugar, que importa se fica no Brasil, França,
Austrália ou no polo ártico?
Sabeis que o sol não se importa com cercas territoriais,
ele irradia igualmente para todos. Os homens é que criaram suas cercas. A
natureza não reconhece divisões...
Cresci com o coração embevecido em poéticas e
enternecidas canções as quais extasiavam minha alma...
Mas, tive que abandonar minha querida infância e trilhar
o caminho comum a todos os mortais, fui para a arena do mundo. Mundo! “O mundo
é um fosso onde erram os ignorantes e os cegos...” disse Buda. Foi esta a impressão
que ficou de minha experiência com o mundo. O mundo é um palco onde palhaços
encenam histórias ridículas e vazias para outros palhaços da plateia.
Se o mundo apenas desviasse nossa alma a suas banalidades
fúteis e vazias ainda seria tolerável, mas este monstro astuto e perverso
devora nossa alma virgem, as almas virgens são seu alimento predileto.
Atentai a isto vós detentores de uma alma virgem,
atentai: não deixeis este monstro medonho devorar vossa alma virgem, buscai a luz
dos sábios, buscai a proteção de Deus. Eu vos falo à beira do túmulo, meu corpo
quase me aniquila de dores. Ah! Pudesse eu voltar à minha infância querida,
cantar minhas queridas canções com meus queridos anjos! Não venderia minha alma
ao frio interesse do mundo, não trocaria meu tesouro eterno pelo falaz ouro do
mundo. Mesmo a maior montanha de ouro não poupará minha alma da morte certa,
não regenerará minha pele ressequida, não curará minha doença mortal. Atentai a
isto vós que ainda tendes a ocasião do tempo, não deixeis morrer a virgindade
de vossa alma; por certo o mundo tem suas
exigências, mas guardai-vos do monstro devorador de almas virgens.
Senhora morte, esperai um pouco ainda, pois já vos sinto
a gelar-me os pés, tende um pouco de paciência!
Senhora morte por que minha alma não receia atravessar o
portal medonho? Diga senhora morte, vós que sois a mais severa destruidora de
ilusões!
O que vejo! Meu Deus será verdade? Sois vós meus anjos
amigos, sois vós meus companheiros iluminados! Perdoai minha traição! Perdoai
esta pobre alma fraca. Meu Deus! Meu Deus!
Só mesmo tua misericórdia infinita para acolher um miserável traidor
como eu em meu momento mais solene. Ah! Meu Deus...
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Este texto foi encontrado em um
antigo livro francês, adquirido em um sebo
em São Paulo.