Luz.

Luz.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Palavras...

Texto do livro “O consolador,” Emmanuel, psicografia: Chico Xavier.

124 -Qual a importância da palavra humana para as conquistas evolutivas do espírito?
 -A palavra é um dom divino, quando acompanhada dos atos que a testemunhem; e é através de seus caracteres falados ou escritos que o homem recebe o patrimônio de experiências sagradas de quantos o antecederam no mecanismo evolutivo das civilizações. É por intermédio de seus poderes que se transmite, de gerações a gerações, o fogo divino do progresso na escola abençoada da Terra.



161 –Que é arte?
-A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças da alma. O artista verdadeiro é sempre o “médium” das belezas eternas e o seu trabalho, em todos os tempos, foi tanger as cordas mais vibráteis do sentimento humano, alçando-o da Terra para o Infinito e abrindo, em todos os caminhos a ânsia dos corações para Deus, nas suas manifestações supremas de beleza, de sabedoria, de paz e de amor.

162 –Todo artista pode ser também um missionário de Deus?
-Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas cristalizações do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das ideias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da atividade que lhes é próprio, como a literatura, a música, a pintura, a plástica. Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão-somente a luz espiritual que vem do coração uníssono como cérebro, nas realizações da vida, então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus, porquanto saberá penetrar os corações na paz da meditação e do silêncio, alcançando o mais alto sentido da evolução de si mesmo e de seus irmãos em humanidade.

165 –Como poderemos entender o psiquismo dos artistas, tão diferente do que caracteriza o homem comum?
_O artista, de um modo geral, vive quase sempre mais na esfera espiritual que propriamente no plano terrestre. Seu psiquismo é sempre a resultante do seu mundo íntimo, cheio de recordações infinitas das existências passadas, ou das visões sublimes que conseguiu apreender nos círculos de vida espiritual, antes da sua reencarnação no mundo. Seus sentimentos e percepções transcendem aos do homem comum, pela sua riqueza de experiências no pretérito, situação essa que, por vezes, dá motivos à falsa apreciação da ciência humana, que lhe classifica os transportes como neurose ou anormalidade, nos seus erros de interpretação. É que, em vista da sua posição psíquica especial, o artista nunca cede às exigências do convencionalismo do planeta, mantendo-se acima dos preconceitos contemporâneos, salientando-se que, muita vez, na demasia de inconsiderações pela disciplina, apesar de suas qualidades superiores, pode entregar-se aos excessos nocivos à liberdade, quando mal dirigida ou falsamente aproveitada. Eis por que, em todas as situações, o ideal divino da fé será sempre o antídoto dos venenos morais, desobstruindo o caminho da alma para as conquistas elevadas da perfeição.

209 –O escritor de determinada obra será julgado pelos efeitos produzidos pelo seu labor intelectual na Terra?

-O livro é igualmente como a semeadura. O escritor correto, sincero e bem intencionado é o lavrador previdente que alcançará a colheita abundante e a elevada retribuição das leis divinas à sua atividade. O literato fútil, amigo da insignificância e da vaidade, é bem aquele trabalhador preguiçoso e nulo que “semeia ventos para colher tempestades”. E o homem de inteligência que vende a sua pena, a sua opinião e o seu pensamento no mercado da calúnia, do interesse, da ambição e da maldade, é o agricultor criminoso que humilha as possibilidades generosas da Terra, que rouba os vizinhos, que não planta e não permite o desenvolvimento da semeadura alheia, cultivando espinhos e agravando responsabilidades pelas quais responderá um dia, quando houver despido a indumentária do mundo, para comparecer ante as verdades do Infinito.

                                                              -X-

As respostas às perguntas acima, ditadas pela sabedoria de Emmanuel, concernentes à palavra, à vida intelectual e à arte, confirmam uma revelação pessoal que obtive recentemente, a qual sacudiu minha alma até as profundezas.
Ao ler mais um comentário de uma leitora no google+ percebi que ela utilizou expressões minhas para exprimir seu pensamento.
Já havia notado isto há algum tempo. Não só as palavras, mas também as ideias dela estavam visivelmente impregnadas por meu pensamento.
O mesmo ocorreu em uma conversa que tive com uma pessoa em minha cidade, a qual também é minha seguidora na rede social google+. Percebi que ela expressou meu pensamento.
Isto me fez refletir sobre a poderosa força da palavra escrita. Uma fonte invisível capaz de ocasionar efeitos profundos, os quais podem repercutir por milhões de anos e espalhar-se por toda a Terra.
As gerações de antanho descobriram isto. A máxima antiga “A pena é mais poderosa que a espada,” confirma isto.
Basta um olhar rápido à história para depararmos com muitos exemplos. Escritores lançaram obras que revolucionaram o mundo, derrubaram poderes estabelecidos há milênios, causaram revoluções, agitaram, sacudiram a sociedade humana de alto a baixo.
O pensamento é invisível, mas seu poder é magnífico, pois ele está enraizado às profundas forças da natureza infinita, as quais provém do seio de Deus.
Um tal poder pode ser usado também para o mal.
A palavra escrita é capaz de produzir efeitos inesperados e permanentes na alma de quem lê. Não se sabe até quando, nem o quanto vai ocasionar sua ação profunda e poderosa.
Portanto, quem não estiver ao abrigo da luz divina e não tiver o coração iluminado pela estrela do bem eterno não deve penetrar em seu portal sagrado.
Forças poderosíssimas velam diuturnamente o portal iluminado da palavra escrita, quem penetrar seu vestíbulo envergando as vestes maculadas da futilidade, da vaidade, do interesse, da ignorância e da maldade, terá que prestar contas ao poder invencível que cortou a cabeça de reis, incendiou nações inteiras, derrubou tronos milenares, aniquilou ditaduras e transformou em pó as mais poderosas civilizações de nossa história.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Dor e ressurreição.

A dor é nossa eterna companheira. Estamos sempre abraçados à ela mesmo na condições mais supimpas.
Seus golpes podem martelar pouco a pouco, ou desabar em nossa vida repentinamente como um furacão, arrasando tudo de uma única vez.
Ela visita o destino de todos, pessoa alguma escapa de sua investida.
Ricos, pobres, inteligentes, ignorantes, bondosos ou não, ninguém escapa de seu chicote.
É inútil tentar fugir da dor. Ela provém das profundezas inalcançáveis da vida infinita. Ela tem mil formas, ela tem mil disfarces. É sorrateira e sagaz. Ela sabe driblar os mais inteligentes planos para atingir seu objetivo. O mais inteligente dos mortais é incapaz de enganar sua sagacidade. Pudera! Ela é uma das mais poderosas forças do universo de Deus. A dor vence aos mais obstinados, profliga por terra aos mais prepotentes. Faz ajoelhar aos mais orgulhosos.
Sapiente criação de Deus, é à dor que a humanidade deve sua  ressurreição à luz eterna divina. Sem seu chicote providencial ninguém se aventuraria às trilhas da verdade e do bem.
Dentro de nós, nas profundas regiões inexploradas do coração, o fio  invisível e poderoso do destino está ligado indelevelmente à nossa vontade. É lá que a sabedoria infinita de Deus traçou os limites às nossas escolhas.
É lá também que estão traçadas as leis invisíveis, mas poderosíssimas, da vida infinita, as quais determinam a colheita obrigatória do que plantamos.
Enquanto houver maldade dentro de nós haverá a contraparte correspondente de dor. É o preço que pagamos por nosso amor ao mal.
Filhos de Deus que somos, herdeiros de sua luz magnificente e de seu poder infinito, carregamos a mancha maldita do mal que escolhemos na origem dos tempos.
Maldito dia! Maldita insanidade perversa! Amaldiçoado mil vezes o passo maldito! Abrimos nosso coração puro como a neve ao demônio imundo, filho da perversidade, violência, egoísmo, orgulho e da depravação.
E assim perdemos nossa credencial divina, mas não nossa herança eterna. Tornamos mendigos imundos e esfaimados de luz.
Mas a previdência infinita de Deus  anteviu nosso passo infeliz. Seu coração infinitamente compassivo, rebento de sua misericórdia infinita, criou a dor, o mais eficaz antídoto ao mal. A cura definitiva à doença universal do mal e do pecado.
Estamos presos ao amor de Deus, coisa alguma pode mudar isto. É a este amor infinito que devemos nossa ressurreição à cidade celestial do amor, do bem e da verdade eterna, em nossa história repleta de loucura, maldade e ilusão.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Magia álacre.

Na região mais fria do polo norte, entre gigantescas montanhas cobertas de grossas camadas de neve, sob saraivadas geladas, está edificado um  gigantesco castelo, invisível a olhos humanos. É o quartel general das  fadas e gnomos de toda a Terra.
A cada mil anos os anciãos de toda a comunidade se reúnem em assembleia para deliberar sobre o festival das almas, onde todas as fadas e gnomos do planeta trazem a messe mágica, fruto de seus trabalhos  invisíveis durante os últimos mil anos.
A neve acumulava-se por toda a parte, mas no interior do gigantesco castelo a magia eterna da natureza transformava  tudo.
Não existe nada  mais gracioso do que espraiar o olhar dentro do muro do gigantesco castelo e encantar os olhos com as figuras delicadas, pequeninas e sorridentes, caminhando de um lado a outro, vestidas com trajes brilhantes e coloridos. As fadas usam um chapeuzinho colorido que brilha fortemente, ao ponto de ofuscar olhos humanos.
A alegria reina absoluta entre os muros do castelo. Quem caminha por suas alamedas depara-se com uma abundância de flores: rosas, jasmins, margaridas, crisântemos, enfeitam todas as veredas de lado a lado, espalhando um perfume deliciosíssimo, o qual o aroma faz o coração derreter de regozijo.
Fontes de água super cristalina espalham-se por volta do castelo, passarinhos verdes brilhantes bicavam a correnteza cristalina e banhavam-se alegremente. Esquilos graciosos pulavam álacres nos galhos das árvores.
Um grupo de fadas, pequeninas e felizes, deliciosamente alegres, dançava em círculos diante do portal do castelo e cantava um hino em louvor à natureza. Suas vozes cristalinas como a água das fontes, emitiam sons harmoniosos e tocantes. Um coro se formou naturalmente, outras vozes se ajuntaram uma a uma. Os gnomos também ajuntaram-se ao coro coletivo. Um vento super refrescante balançou os galhos das árvores, parecia que também queria cantar. As flores abriam-se, querendo participar do momento jubiloso. Todas as criaturas  queriam dar de si para a alegria geral. A natureza inteira estava impregnada com a magia encantada.
Subitamente, uma chama fulgurante que cintilava como um gigantesco cometa, desceu do céu e estacou no solo; imediatamente, uma rosa gigantesca de uma cor nunca vista por olhos humanos, brotou do solo e cresceu, cresceu até as estrelas.
Todas as vozes disseram em uníssono: “Louvado seja Deus nas alturas. Louvado seja teu nome para sempre.”
Ao fim do festival as fadas e gnomos recolhem bolotas brilhantes, as quais foram espalhadas por toda a parte no momento em que a rosa gigantesca cresceu até as estrelas. Estas bolotas brilhantes são colocadas em cestos graciosos, os quais todos carregam e levam até às maternidades do mundo, para inocular nos corações pequeninos a chama da alegria eterna, para que não se perca para sempre nos escabrosos caminhos do mundo.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Merecimento. Texto do livro "A vida escreve." Hilário Silva. Psicografia: Chico Xavier.




Saturnino Pereira era francamente dos melhores homens. Amoroso mordomo familiar. Companheiro dos humildes. A caridade em pessoa. Onde houvesse a dor a consolar, aí estava de plantão. Não só isso. No trabalho, era o amigo fiel do horário e do otimismo. Nas maiores dificuldades, era um sorriso generoso, parecendo raio de sol dissipando as sombras.
Por isso mesmo, quando foi visto de mão a sangrar, junto à máquina de que era condutor, todas as atenções se voltaram para ele, entre o pasmo e a amargura.
Saturnino ferido! Logo Saturnino, o amigo de todos...
Seus colegas de fábrica rasgaram peças de roupa, a fim de estancar o sangue a correr em bica.
O chefe da tecelagem, solícito, conduziu-o ao automóvel, internando-o de pronto em magnífico hospital.
Operação feliz. O cirurgião informou, sorrindo:
- Felizmente, nosso amigo perderá simplesmente o polegar. Todo o braço direito está ferido, traumatizado, mas será reconstituído em tempo breve.
Longe desse quadro, porém, o caso merecia apontamentos diversos:
- Por que um desastre desses com um homem tão bom? – murmurava uma companheira.
- Tenho visto tantas mãos criminosas saírem ilesas, até mesmo de aviões projetados ao solo, e justamente Saturnino, que nos ajuda a todos, vem de ser a vítima! – comentava um amigo.
- Devemos ajudar Saturnino.
- Cotizemo-nos todos para ajudá-lo.
Mas também não faltou quem dissesse:
- Que adianta a religião, tão bem observada? Saturnino é espírita convicto e leva a sério o seu ideal. Vive para os outros. Na caridade é um herói anônimo.
Por que o infausto acontecimento? – expressava-se um colega materialista.
E à tarde, quando o acidentado apareceu muito pálido, com o braço direito em tipóia, carinho e respeito rodearam-no por todos os lados.
Saturnino agradeceu a generosidade de que fora objeto. Sorriu, resignado. Proferiu palavras de agradecimento a Deus. Contudo, estava triste.

À noite, em companhia da esposa, compareceu à reunião habitual do templo espírita que frequentava.
Sessão íntima.
Apenas dez pessoas habituadas ao trato com os sofredores. Consagrado ao serviço da prece, o operário, em sua cadeira humilde, esperava o encerramento, quando Macário, o orientador espiritual das tarefas, após traçar diretrizes, dirigiu-se a ele, bondoso:
- Saturnino, meu filho, não se creia desamparado, nem se entregue à tristeza inútil. O Pai não deseja o sofrimento dos filhos. Todas as dores decretadas pela Justiça Divina são aliviadas pela Divina Misericórdia, toda vez que nos apresentamos em condições para o desagravo. Você hoje demonstra indiscutível abatimento. Entretanto, não tem motivo. Quando você se preparava ao mergulho no berço terrestre, programou a excursão presente. Excursão de trabalho, de reajuste. Acontece, porém, que formulou uma sentença contra você mesmo...
Fez uma pausa e prosseguiu:
- Há oitenta anos, era você poderoso sitiante no litoral brasileiro e, certo dia, porque pobre empregado enfermo não lhe pudesse obedecer às determinações, você, com as próprias mãos, obrigou-o a triturar o braço direito no engenho rústico. Por muito tempo, no Plano Espiritual, você andou perturbado, contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima, cujos gritos lhe ecoavam no coração. Por muito tempo, por muito tempo...
E continuou:
- E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil. Mas, você, Saturnino, desde a primeira mocidade, ao conhecer a Doutrina Espírita, tem os pés no caminho do bem aos outros. Você tem trabalhado, esmerando-se no dever... Não estamos aqui para elogiar, porque você continua lutando, lutando... e o plantio disso ou daquilo só pode ser avaliado em definitivo por ocasião da colheita. Sei, porém, que hoje, por débito legítimo, alijaria você todo o braço, mas perdeu só um dedo... Regozije-se, meu amigo! Você está pagando, em amor, seu empenho à justiça...
De cabeça baixa, Saturnino derramava grossas lágrimas.
Lágrimas de conforto, de apaziguamento e alegria...

Na manhã seguinte, mostrando no rosto amorável sorriso, compareceu, pontual, ao serviço.
E porque o fiscal do relógio lhe estranhasse o procedimento, quando o médico o licenciara por trinta dias, respondeu simplesmente:
- O senhor está enganado. Não estou doente. Fui apenas acidentado e posso servir para alguma coisa.
E caminhando, fábrica a dentro, falou alto, como se todos devessem ouvi-lo:
- Graças a Deus!

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Verdade e realidade humana.

“Ofereça um cavalo a quem lhe dizer a verdade e dele precisará para fugir e por-se a salvo.”
                                  Provérbio chinês.

Quem vai negar a realidade destas palavras? Quem vai rejeitar a ideia luzente que sobressai de sua sabedoria?
É a confirmação do conflito perpétuo entre o torto e falso mundo alienado de nossa tradição milenar e a verdade eterna que nunca muda.
Caminhamos a  vida inteira por estradas que levam a lugar nenhum. O mundo anda sempre apressado para chegar cansado e aborrecido ao porto vazio de seus desejos.
Nós parecemos um cão de circo, ao qual o treinador mostra um delicioso repasto na frente de seu nariz para fazê-lo correr, pular, saltar obstáculos e abanar a cauda diante do público.
Assim  são para a vida os desejos humanos, não passam de deliciosos repastos para fazer a humanidade caminhar, pois de outra forma ela estagnaria e enferrujaria suas pernas.
Tentai desvelar o manto da verdade aos ignorantes e tereis que velar atentos para que sua estupidez não o dilacere.
Gerações e gerações vem e vão, deixam suas obras no livro invisível do destino para serem lidas e absorvidas pelos demais que chegam após si.
O grande problema é que estas gerações amaram as nuvens do dia que passam e se transformam minuto a minuto e não as estrelas que rolam perpetuamente no infinito por toda a eternidade.
E a verdade é aparentada às constelações infinitas, filha da luz eterna de Deus.
A sabedoria dos séculos realça a beleza do provérbio acima. A luz sobranceira da verdade eterna ilumina suas palavras.
Os tolos e perversos vão fugir no próprio cavalo que ofereceram a quem lhes disse a verdade, mas os filhos da luz divina vão ajoelhar-se e beijar o manto da verdade. Sua alma vai vestir o manto sagrado da humildade e se arrojará aos pés da divindade eterna de nosso Criador Todo Poderoso, para receber o ósculo de todos os astros  do infinito.
Os arcanjos e anjos guardarão seu nome no livro da  vida, até que o amor de Deus termine sua obra divina.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Crianças e esperança.

Não se pode negar: a estrela da esperança cintila no céu humano a todo o momento.
Basta olhar o sorriso das crianças. Mil calamidades podem apagar este sorriso em um segundo, mas, assim mesmo a criança sorri.
Seu sorriso espontâneo não existe apenas motivado pela inexperiência do mundo. Há algo mais profundo que  subjaz à aparência superficial das coisas. Algo misterioso e lindo relacionado à cintilação de mil constelações no infinito.
É a vida poderosa a criar eternamente em todos os os recantos do universo, pressionada pela vontade insuperável de Deus todo poderoso.
Neste turbilhão infinito de seres, forças e astros gigantescos o pobre ser humano não passa de uma formiga, estendendo suas minúsculas patinhas ao céu sem fim que se estende sobre sua cabeça até o infinito.
Agonizaríamos para sempre, perdidos nesta imensidão infinita, enlouqueceríamos irremediavelmente no turbilhão do eterno transformismo de tudo, se a bondade infinita de Deus não sustentasse a divina esperança em nosso coração perpetuamente.
Cada criança que nasce, cada semente que é plantada, cada dia que surge no tempo, iluminado pelo raios do sol, é uma confirmação do poder infinito da vida poderosíssima que pulula abundante até às mais recônditas reentrâncias do universo.
Ao sorrir para a vida a criança demonstra a confiança genuína na sabedoria de Deus. É a mesma confiança à qual iluminou todos os santos do mundo.
Ninguém pode apagar do coração infantil esta chama ardente que derrete o gelo milenar da frieza e do desespero.
As trevas  do mal que escurecem o mundo se abateriam impiedosamente sobre nossa vida se Deus não sustentasse nossa confiança no futuro, protegendo e iluminando a criança que todos tem dentro de si, para que ela não morra afogada nos tempestuosos mares do destino.
Quando um adulto beija e abraça uma criança, está passando adiante de si a herança sublime dos santos de antanho, os quais edificaram com seu amor divino, filho de sua dor, a estrada luminosa que conduz ao paraíso de Deus para sempre.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Texto do livro "Deus e Universo." Pietro Ubaldi. Supremo patamar do conhecimento.

XV À PROCURA DE DEUS.
"Et multum laboravi quarens
Te extrame, et Tu habitas in me.” (E muito me fatiguei, procurando-Te fora de mim, quando te encontras em mim) Santo Agostinho.


Fundimos em um estreito monismo, em um só sistema, o Todo, desde o seu pólo espírito, até o pólo oposto, matéria. Terra e céu assim se tocam e se fundem em
um único universo, em que o espiritual e o material não passam de momentos ou posições da mesma Substância. Podemos agora dizer ao homem imerso nas trevas:
desperta e sentirás que Deus está a teu lado, está dentro de ti, é a tua vida, a vida de tudo. Esta é a grande descoberta, que desloca o eixo do ser e que a ciência nem de leve sabe conceber: descobrir a própria imortalidade, o divino que está em nós e com ele aprender a viver eternamente; despertar a própria consciência adormecida, para compreender que somos filhos de Deus, imensamente amados por Ele; capacitar-se de
que a causa de todos os nossos sofrimentos não reside na defeituosa construção do sistema, mas em nossa incompreensão da sua perfeita construção; convencer-se de que o tremendo destino de dor que nos aflige depende sobretudo de nossa ignorância e que ele pode transmudar-se em um destino de glória, somente se soubermos superar os nossos baixos instintos e evadir-nos de nossa natureza animal inferior; entender
que a vida não pode estagnar, sem avançar, a guerra não terá fim, enquanto o homem não empreender formas de luta e seleção mais evoluídas; compreender que Satanás, o qual gostamos de seguir porque nos engoda, é antes inimigo de nossa felicidade, e que Deus, o Qual relutamos em acompanhar, porque primeiro exige de nós o justo trabalho para depois nos dar a alegria, é o nosso primeiro amigo, que outra coisa não quer e procura, senão cumular-nos de felicidade.
Até aqui temos procurado explicar, com o máximo de clareza, o fim do mal: a autodestruição. As teorias não são nossas, mas as lemos no livro da vida e o Evangelho
(Lucas, 11: 17-18) no-las confirma, quando nos diz: "Todo reino dividido contra si mesmo será destruído, e as casas cairão umas sobre as outras. Se, pois, Satanás está
dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino?" (. . . .). O mal, portanto, como
provém do anti-sistema, com força negativa, está condenado ao aniquilamento pela própria natureza e qualidade. O espírito de separatismo que anima Satanás o desagregará também pela mesma lei fatal das coisas. E com Satanás se extinguirão a dor e a morte, com a vitória da vida, vida cujo centro se situa no espírito, centelha pela qual Deus se manifesta em tudo o que existe. Não deve a compreensão de tudo isso encher-nos
de alegria, de um otimismo fecundo em meio a qualquer dor? Esta é a psicologia da superação que vai além do miserável contigente e nos dá a paz das coisas eternas e
a segurança do amanhã.
Tudo isto está largamente exposto no Evangelho e foi por nós tentado racional e cientificamente demonstrar nos esquemas expostos, a fim de conseguir tornar
compreensível esta boa nova, já proclamada por Cristo e que aqui repetimos identicamente, porque ela é a maior alegria da alma. Deus está conosco. Quando uma
espiga de trigo se multiplica em centenas de espigas e as messes aluíram os campos para dar-nos o pão, Deus está conosco. Quando os rebanhos se multiplicam e os
animais, que nos fornecem alimento, se desenvolvem e tudo na terra germina e cresce fecundamente, Deus está conosco. Quando nossos filhos se tornam grandes, Deus está conosco. Deus é esse irrefreável impulso de vida, mesmo que ele possa ser feroz nos graus inferiores, porque os seres não sabem ainda aprender lições mais refinadas.
Avançamos, contudo, no caminho ascensional. Já muitos homens têm terror desta vida inferior, em que muitos se sentem bem. É fatal que a evolução avance e produza
um novo e mais civilizado tipo biológico humano. Ele talvez seja, como hoje, dado apenas por um em um milhão. Amanhã estará na proporção de um por mil, depois será um em cem, e assim por diante, até que o homem novo seja maioria e se afirme. A natureza procede por graus e antes de realizar o novo em grandes séries,
experimenta-lhe os exemplares em poucos casos, explorando o terreno.
Quando os judeus quiseram lapidar Cristo - narra João - (cap. 10:33-34)
a acusação era de blasfêmia: (. . . .) "lapidamos-te por blasfêmia, porque sendo tu homem, fazes-te Deus. Jesus lhes replicou: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós
sois Deuses?" Quando descobriremos a grandeza desta nossa natureza divina, que se filia a Deus? Quando os místicos falam de união, provam que atingiram, ou pelo
menos se avizinharam dela. No íntimo de nosso ser, no espírito, há uma profundidade de infinito, para o qual a evolução progressivamente nos desperta. E neste infinito que O nosso pequeno “eu sou” funde-se com: o “Eu sou” do Todo. Quando descobriremos que somos Deuses, que somos, mercê de nossa centelha originária, hoje decaída nas trevas, formados da mesma Substância de que Deus é formado? Como poderia deixar de sê-lo um filho do Pai? E que mais, além disto, poderia significar a imanência?
O Evangelho é uma contínua luta para fazer-se compreender pelos seres inferiores. E os judeus pensavam, como tantos outros ainda hoje, em um Deus
déspota, que é obedecido porque pode mais do que nós e que nos faz pagar a desobediência, um Deus de uma outra raça que nos domina, nada tendo em comum
conosco. Há, contudo, um denominador comum, um fundo comum, ainda que muitíssimo remoto entre Deus Pai, Cristo e o homem - é esta natureza. divina.
Somente que, no ser humano essa íntima Substância se aprofundou tanto na inconsciência, após a queda, que o ser dela nada mais sabe e não consegue imaginar
Deus, seu pai. e amoroso amigo, senão antropomorficamente, tal feroz senhor, qual ele
seria, se porventura viesse a tornar-se Deus. Não é possível ao ser formar de Deus uma
imagem superior a que o grau de compreensão atingido pela sua evolução pode permitir-lhe. Assim, esta não é a psicologia dos judeus apenas, mas do tipo humano
involuído, que hoje impera.
Quando imergimos o olhar na essência das coisas, vemos revelar-se-nos um mundo inteiramente diverso do que comumente nos aparece em superfície. são esses
novos continentes do espírito que. estamos descobrindo nestes volumes, traduzindo o
que tão natural e evidente surge ao olho da intuição, em linguagem racional e científica, reduzindo tudo à forma mental corrente, a fim de tornar-nos
compreensíveis, mesmo por aqueles que não sabem enxergar senão com os olhos da razão. Encontramo-nos diante das mesmas dificuldades que na Terra encontrou o
Evangelho, na mesma luta por se fazer compreendido. O atual homem comum está tão habituado a conceber qualquer manifestação do ser somente na  sua extrema
forma exterior e sensória, está tão convencido de que esta é a realidade e toda a realidade, que quando deseja orar a Deus, projeta Dele uma imagem material, a que
ele poderia formar de Deus, e a adora. Ela não é mentira consciente. É uma tradução da linguagem espiritual, que lhe é incompreensível, em uma linguagem concreta, a ele
acessível. Assim pode ver e tocar as imagens de Deus. Esta é uma ingênua necessidade de involuídos, que não conseguem pensar e orar a não ser com o corpo, e com os
sentidos. Mas certamente, para quem sente Deus em Sua universal presença e potência, isto pode parecer uma profanação, ainda quando, nos casos mais felizes,
constitua um lampejo capaz de reavivar a centelha da arte.
Assim foi que da visão dos grandes problemas cósmicos, chegamos à do problema espiritual do homem nas relações da sua alma com Deus. Agora podemos
formular uma nova e solene pergunta: onde encontrar Deus? E se é verdade que Deus está no íntimo do ser, então por. que não buscá-Lo dentro de nós e não fora? E como se pode alcançar Deus por essa via? Tratemos agora de resolver o problema da procura de Deus, um dos mais árduos e importantes para o ser. Como subirmos ao
Pai que nos gerou e pormo-nos em comunicação com Ele?
Para bem compreender, reportemo-nos às primeiras origens, conceito que depois desenvolveremos (Cap. XVII: Imanência e Transcendência).
Deus, antes de realizar o ato criador, era o Uno-Todo, Que deveria ainda tudo tirar de Si. Sobrevindo a criação dos espíritos, o sistema desmorona, como já vimos, e
com ele, de certa forma, desmorona também Deus, que, sendo o seu íntimo animador,
não podia e, por Amor, não devia separar-se dele, houvesse o que houvesse. Por isso
nasceu de Deus o aspecto de imanência, que o torna presente no anti-sistema ou sistema desmoronado, como igualmente. vimos. Mas em Seu aspecto transcendente,
Ele está além de qualquer criação Sua e dos fatos a ela referentes. E a sua divisão nestes dois aspectos representa juntamente a divisão do Todo no dualismo, que será depois a característica desse Todo, cindido daí por diante em sistema e anti-sistema, entre Deus e Satanás que, então, nasceu como tal, o antagonista. O partir do pão na Eucaristia, já vimos que significa exatamente a divisão do Uno no dualismo, prelúdio
da imanência, pela qual o princípio fundamental e originário do Amor não pode subsistir a não ser como sacrifício. Eis a lógica concatenação que liga a divisão do pão
à paixão de Cristo, cuja descida à Terra, em corpo humano, é um caso e prova fulgurante da imanência de Deus no anti-sistema, em que nos encontramos. Sem
imanência, não poderia existir a paixão e redenção maior que Deus realiza em todo o nosso universo, como já expusemos. E a Eucaristia, para o caso particular de nossa humanidade e do Cristo que a preside, representa justamente esta imanência Isto quer dizer que Cristo não quis descer à Terra por uns poucos anos apenas, mas aí quis ficar permanentemente presente em espírito, na Eucaristia, que expressa. a imanência de Deus em nossa humanidade, com finalidade regeneradora (redenção).
E esta, que é a via da descida, representa também o canal da subida; o fio de comunicação com a divindade. Que significa imanência, senão que Deus permaneceu
no fundo de nosso ser como espírito, a animá-lo e fazê-lo evolver, reconduzindo-o a Ele? O espírito, como já afirmamos, é o fundo comum entre Deus Pai, Cristo e o
homem e só através desse fundo comum é possível a comunicação. Isto confirma ainda que Deus realmente não pode ser alcançado senão quando descemos conscientes à profundeza de nosso espírito. Veremos a seguir o que significa - conscientes.
Ouçamos as confirmações que nos enviam as grandes almas, as que souberam percorrer esse caminho de retorno. Diz-nos Agostinho: “Est Deus superior summo,
interior intimo meo”

. E acrescenta, falando de Deus: “Et multum laboravi, quaerens (Deus está nas supremas alturas e também no meu íntimo.)



Te extra me, et Tu habitas in me”. Agostinho testemunha, portanto, que Deus está na
intimidade do ser e que não deve ser procurado fora, mas dentro de nós. Paulo afirma a respeito de Deus: "In ipso vivimus, movemur et sumus" (Nele vivemos, nos movemos e existimos)
21 (. . . .) - S. Paulo em
Atenas -Atos, 17: 28.
A Beata Ângela de Foligno ouviu Cristo dizer-lhe: "Eu sou mais íntimo de tua alma do que ela de ti mesma". Os místicos cristãos, experimentados em semelhantes
indagações; dizem que: "Deus é a nossa superessência”, isto é, algo de tão íntimo e profundo a ponto de parecer a nossa própria sublimação.
Eis a palavra que nos traça a via de retorno: sublimação, isto é, purificação e elevação de nossa personalidade. Esta é a estrada que reconduz o ser ao ponto de partida, lá onde, após determinados períodos, a ascensão atingirá a meta que é o ponto de chegada. Então o Deus imanente, que por Amor se mostra prazerosamente
no sacrifício, lado a lado com a criatura, com ela carregando a cruz, terá refeito todo o
caminho da descida. E assim o ciclo será completado e o Deus, do aspecto imanente, terá alcançado o Deus do aspecto transcendente, o imperfeito ter-se-á tornado
perfeito, poderá fundir-se nele, o Uno ter-se-á reconstituído e a cisão do dualismo estará sanada.
E evidente que hoje o Todo está dividido em duas partes: o perfeito, que ficou como recordação no fundo do "eu" qual anelo e instinto fundamental dele; e o imperfeito, que evolve para a sua perfeição. Ora, se o imperfeito avança sempre para o perfeito, na progressão para o infinito, ele deverá reduzir as distâncias a
quantidades cada vez mais infinitesimais, até sobrepor-se e coincidir com o perfeito.
Isto porque, se Deus de um certo modo desmoronou no Seu aspecto imanente, Ele permaneceu perfeito, sem desmoronar, em seu aspecto transcendente. Este é o ponto de chegada que aguarda o imperfeito. Este é o eixo íntegro de todo o sistema, aquele que deve salvá-lo, mesmo no seu momento negativo de anti-sistema.
Como se vê, o problema da ascensão espiritual ou sublimação tem suas raízes no cosmo e não é solúvel a não ser em função do grande problema do ser. Há, pois, um grande fio condutor para a ascensão dado pela imanência de Deus, que deriva da Sua transcendência, o imperfeito que deriva do perfeito. Ora, este último termo do ciclo, no qual o dualismo é sanado e as duas metades do Uno se reúnem, está no fundo de nós mesmos e é nesta direção que devemos caminhar se quisermos atingi-lo. E como se deve proceder para caminhar em direção à profundeza de nós mesmos? Isto significa
o que antes já havíamos dito em outras palavras, ou seja, "descer conscientes na profundeza de nosso espírito". Palavras igualmente sibilinas, que não sabemos como
traduzir no mundo da ilusão a que chamamos realidade! Trata-se de passar de uma linguagem verdadeira, onde tudo se faz com o espírito - única realidade - para um
linguagem falsa, onde tudo se faz com o corpo e com os seus sentidos, construtores da ilusão. O leitor, todavia, vê como estamos assediando e envolvendo a fortaleza em que o problema se entrincheira, até poder finalmente penetrar nela. Primeiro o encaramos do alto das posições máximas do ser. Abordamo-lo agora de baixo, partindo de nosso corpo físico.
A primeira qualidade do existir, que chamamos de vida, é o sentir. A insensibilidade é característica da morte, ausência do espírito. A sensibilidade é
atributo do espírito, que é o existir. Espírito significa o que é. Onde falta o espírito, não há existência, porque Deus é espírito, isto é, a plenitude do ser. A sensibilidade, ou seja, a aptidão de perceber, como nós a possuímos, é qualidade exclusiva da alma.
Uma vez esta destacada do corpo, este não mais sente, ainda que os seus órgãos estejam intactos. O místico, arrebatado em êxtase, não percebe mais através dos
sentidos, porque a alma está ausente deles. Quando estamos distraídos, a mensagem
sensória chega regularmente à alma, mas esta não a registrou e, assim, vendo, não
enxergamos, escutando, não ouvimos. Sabemos que os nossos vários órgãos sensoriais
nada mais são do que aparelhos de captação e transmissão de ondas, não mais. Isto
implica que existe um ponto de chegada da transmissão a que estão ligados esses aparelhos. O sistema central (cerebral) para o qual converge o periférico, é apenas um
órgão de seleção e coordenação, ainda situado na dimensão espacial, enquanto o “eu”
possui a faculdade de juízo e de síntese, próprias de outras dimensões, a que não pertencem nem o sistema central, nem o periférico. Trata-se de um “eu” princípio
unitário de todo o organismo e que, como tal, permanece inalterável, não obstante o
crescimento e envelhecimento deste, que está sujeito a um contínuo transformismo.
Nesse princípio está o abstrato, o supersensório, algo de qualitativamente diverso da
vibração transmitida, qualquer coisa que pensa, quer e reage depois, por meio de
outros órgãos. Eis o espírito, que se une a Deus. Ele põe-se em comunicação com o
mundo exterior por intermédio dos órgãos do corpo, os quais lhe transmitem sinais que ele interpreta e que lhe permitem registrar uma limitada gama de vibrações (som,luz, calor), necessárias à sua vida terrena, além das quais ele nada percebe do mundo exterior. O resto do universo terá também ele a sua sensibilidade, pois que é
igualmente animado de vida, isto é, de espírito, de Deus imanente. Mas qual seja ela, não o sabemos. Não podemos saber se a matéria, quem sabe de que maneira, sente a sua estrutura atômica; se um cristal percebe a sua vibração molecular; a célula, o seu
metabolismo; uma planta, o mundo exterior. Não podemos penetrar nessas formas do ser tão distanciadas de nós, mas apenas nas biologicamente para nós mais semelhantese aproximadas.
Ora, a evolução é uma espiritualização, isto é, um despertar para a vida do espírito, que é interior; é um aguçamento, uma precisão, um aperfeiçoamento da
sensibilização. Isto é caminhar para a vida, sentindo que se vive cada vez mais intensamente. Significa uma acentuação da vida, isto é, uma revelação crescente do
espírito. São qualidades que não podem nascer do nada, mas que constituem apenas um despertar consciente do que estava adormentado no inconsciente, qualidades que
representam um progressivo revelar-se de capacidade sensitiva, que forma a divina essência do espírito, o qual, por esta via do despertar, se põe em união com Deus.
Certamente, entendemos aqui sensibilização no sentido lato, não só sensório, dado que pode receber novas mensagens do exterior, mas também espiritual e, sobretudo, moral, pela qual se impõem normas de vida cada vez mais aderentes à Lei de Deus.
É por intermédio deste processo que conseguimos sentir em nós, e nas coisas, a presença de Deus. Compreendida de maneiras extremamente diversas no contingente,
esta é a essência e o último significado da evolução: despertar em nós o Deus imanente, oculto na profundeza do espírito; tornar de novo consciente e vivido aquilo
que, havendo-se invertido pela queda, tornara-se inconsciente e morto. Todo o trabalho da vida, o sucesso ou insucesso, a alegria ou a dor, através de infinitas
provas, tudo se reduz a isto. Chama-se catarse ou sublimação, sensibilização sensória, psíquica ou moral, maceração ou maturação evolutiva, superação da treva ou da ignorância pela luz ou conhecimento - trata-se sempre do mesmo fenômeno de infinitas formas. A hierarquia dos seres é dada pelo grau deste despertar, pois ele que
marca o seu valor, representado pela capacidade conseguida de vibrar, é dada pelo grau de consciência alcançado, que os avizinha mais ou menos de Deus.
As almas vão, assim, lentamente despertando, compelidas pela Lei, que expressa a imanência de Deus entre nós. Os involuídos não passam de pobres
adormecidos. Entretanto, Deus está tão próximo, que realmente é o "interior intimo
meo"! Como fazer, então, compreender isto a seres que O sentem, ao invés, tão distante, chegando mesmo ao ateísmo? Em que consiste essa proximidade e distância? A verdade é que esta sensação possui um sentido interiormente espiritual e não espacial.
Não é em quilômetros, como na Terra, ou em anos - luz, como para as estrelas, que se podem medir essas distâncias. O espírito não vive na dimensão espaço, mesmo que venha a manifestar-se nele.
Para compreender é preciso reportar-se à natureza do espírito, que não é matéria espacial, mas um imponderável, definível, por conseguinte, por outras
mensurações. A presença de Deus no universo é dada pelo estado cinético, que vimos ser a nova posição que Deus assume do absoluto imóvel, projetando-se na gênese. A
vida do universo se manifesta como estado mais ou menos complexo e evoluído, mas sempre com tal íntima natureza. A vida do espírito é representada, então, por um estado vibratório. E a vibração, pois, mais ou menos complexa e evoluída, é também a medida que o define. Ora, a proximidade ou distância entre uma alma e Deus é dada pelo grau de afinidade de vibração atingido por ela em relação a Ele. Em outros
termos, a vizinhança é uma sintonização, uma vibração do mesmo diapasão, que, para os místicos, termina na unificação. Ora, o involuído não vibra de modo algum com a vibração do divino, isto é, não está fundido na Lei com toda a alma e, se vibrar, vibra ignorando Deus, frequentemente contra Deus. Eis no que consiste a imensa distância.
Daí os místicos sentirem a sua personalidade desfazer-se em Deus, no qual se anulam como egocentrismo separado, porque vêm a assumir, cada vez mais, a vibração do centro. E assim, quanto maior o progresso neste sentido, tanto mais difícil se torna distinguir-se como "eu", mas em compensação o "eu" se sente viver mais como Deus, isto é, como vastidão, potência e unidade. Por isso Paulo pôde dizer:"Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.”
 É assim que a divindade pode despertar em nós. Eis os resultados da evolução. E quanto mais ela avança, tanto mais o egocentrismo separatista do "eu", filho da fragmentação do Uno, se atenua, irmanando-se em unidades coletivas cada vez maiores, e tanto mais se reconstitui a grande harmonia unitária do sistema, rompida na queda.
Eis o que significa o despertar de Deus dentro de nós. A vibração Dele, estado cinético da vida, mantém-se em inatividade no involuído e com isto a verdadeira vida
está apenas latente, em estado de inércia, à espera de desenvolvimento, como um instrumento musical, cujas cordas estão mudas. A vida do involuído é uma vida
animal, inferior, que a cada passo é contida pela morte e pela dor. Não é a vida verdadeira. Trata-se aqui de um despertar de consciência, que é justamente o estado
cinético, qualidade do espírito; trata-se de entrar cada vez mais nesse estado cinético, o que significa desmaterializar-se (sair da inércia da matéria), para espiritualizar-se (entrar no dinamismo do espírito). E retornar ao espírito significa retornar ao divino,
nosso estado originário, volvendo a ser consciente, vivo, vibrante, até na profundeza em que está Deus. Eis qual é a via para reencontrar Deus. Quando o homem tiver se
tornado consciente da presença de Deus em si, o caminho da evolução estará completado, o edifício desmoronado estará reconstruído, a natureza rebelde terá volvido ao Criador.
O homem comum está em poder do jogo das suas ilusórias sensações de superfície e ignora que maravilhosos tesouros repousam inexplorados na intimidade
do seu ser. Mas aqui estão descritos de forma racional as profundas mutações ocorridas na alma, quando um homem se torna santo. Poucos as reparam porque a
maioria vive de sensações a que escapam tais interioridades. Estes não estão em grau
de compreender e admitir, em absoluto, uma distância qualitativa, evolutiva, de igual natureza, do tipo de vibração, uma imensa distância de algo que, no entanto, nos é tão intimo. É inútil, pois, falar de uma incompreensível imanência de Deus em todas as
coisas e, sobretudo, na profundidade de nossa alma. Quem não possui meios para registrar uma vibração, acredita-a inexistente e a nega. Essa incompreensão, porém, explica-se facilmente. É difícil da periferia mover-se à procura de Deus, onde se está situado em posição invertida A ciência, em última análise, nada mais faz do que tentar essa procura. Ela não o sabe, embevecida pelas habituais miragens, mas, na realidade,
é esse o seu verdadeiro e substancial objetivo. Na periferia, todavia, em meio a um sistema esfrangalhado em uma infinita poeira fenomênica, ela se perde no particular, condenada ainda à ausência de uma síntese total. Para voltar a encontrar Deus, seria
necessário reconstituir no Uno essa infinita pulverização do ser, o que é impossível.
Não é, pois, à ciência que podemos pedir tais resultados. São necessárias outras vias para que isso se dê.
Assim, tudo o que existe, inclusive os homens, escalona-se por degraus ao longo da escala evolutiva, representando a reconstrução dos vários planos do sistema desmoronado. A escala do que conhecemos vai da matéria ao super-homem. E tudo está a caminho. O termo fixo de comparação, o absoluto que, na relatividade do Todo,
permite estabelecerem-se as distâncias, é Deus. No mineral, o divino está tão profundamente sepultado em estado de inconsciência que não se pode, de maneira
nenhuma, falar de consciência e espírito, pois que eles jazem como que anulados. Sem liberdade de escolha, nem luz de compreensão, o ser ai se movimenta no determinismo que a Lei, completamente ignorada, impõe. Todavia, a individualidade atômica, molecular, química, planetária ou galáctica, tem as suas características inequívocas, que lhe conferem como que uma personalidade. E esta exprime uma estrutura tão
complexa, que o homem ainda não a decifrou. Há, pois, aí também, um grande pensamento, que não pode deixar de ser o de Deus imanente, porque ao certo essa
individualidade o ignora por completo. Não poderemos admitir que o átomo saiba calcular a sua velocidade interior e trajetória. Ele é ligado a uma lei de ferro, da qual não tem consciência. Estamos nos antípodas do centro-Deus, onde existe a plenitude da liberdade e da consciência. O ser deve reconquistar essa plenitude, que, neste caso extremo, se inverteu em uma carência completa; deve, evolvendo, reconstruir-se. E
assim se sobe gradativamente. Na progressiva conquista de mobilidade e de sensibilidade, há uma liberação. A consciência, qualidade divina, revela-se cada vez
mais, por graus, até o plano do homem e do super-homem. Mas nós vemos que a inteligência de Deus existe mesmo nos graus ínfimos do ser. Só existe esta diferença
com as formas mais evoluídas: estas, quanto mais ascendem; tanto mais vêm a tornar-se partícipes dessa inteligência que já existia, mas da qual, embora ela existisse dentro deles, esses seres estavam excluídos. E que mais significa esta, senão tornar-se
consciente, isto é, o despertar no ser do Deus Que, com o desmoronamento, permaneceu nele imanente, mas sepultado na inconsciência?
É grave e de transcendental importância a conclusão deste capítulo, especialmente para quem está em condições de senti-lo inteiramente, porque a atingiu
por si mesmo, através da própria maturação e visão. Constitui uma descoberta revolucionária chegar a saber que, na profundidade do próprio "eu", se possui o
divino e que Deus, Que o animal ignora e o ignorante nega, está tão junto de nós. E deveras emocionante saber-se eterno cidadão do universo! E uma conclusão de
incomensurável alcance, mas por isso mesmo perigosa, se não for encarada sabiamente, motivo pelo qual não pode ser dita indiscriminadamente a todos e
manuseada pelo involuído Quem não estiver preparado, não pode receber a luz da verdade, tão excessivamente ofuscante. A verdade deve ser dada proporcionadamente
a quem a recebe. Tais conceitos, postos na mente do involuído, são transviados, podem ser entendidos às avessas no que se refere à sua posição de modo que, ao invés de estimularem uma anulação do próprio egocentrismo, na fusão com Deus podem levá-
lo a exalçar-se, erigindo-se em anti-Deus. A primeira rebelião está sempre pronta a explodir de novo no anti-sistema. O indivíduo pode, assim, ser levado a crer-se Deus.
Esta, embora uma interpretação invertida, satânica, da conclusão verdadeira, será quase certa. E por esta razão que o conhecimento de um fato de tal alcance, como é a
presença do divino em nós, é vedado à maioria, enquanto não houver alcançado o
grau de evolução necessário. Ai de quem entender em sentido inverso a presença de Deus em nós, porque, então, tudo isto, ao invés de servir para a ascensão, contribuirá para a descida ainda maior. O místico jamais se ensoberba com essa descoberta; pelo contrário, vê nela um motivo a mais de obediência e humildade. É necessário fazer Deus crescer em si, não pelo caminho oposto da exaltação do "eu". Deus está em nós
como princípio de Amor, para que façamos Dele o nosso centro, e não para que façamos de nós um centro contra Ele. Então Deus se negará cada vez mais, em lugar
de dar-se, e o ser precipitar-se-á ao invés de subir.
Estamos na Terra, em um reino periférico do anti-sistema, onde é comum subverter a verdade no erro. Assim é fácil, neste reino, conferir à nossa fé e intuição
da imanência de Deus uma interpretação de panteísmo impessoal, confundindo-o com o unilateral, que exclui de Deus o aspecto pessoal e transcendente. Esta foi
efetivamente a interpretação que emprestaram aos volumes precedentes, especialmente em A Grande Síntese, da qual este e os demais tomos não são mais do
que o desenvolvimento e a explicação. Ora, Deus estar em nós, como presente em todos os seres, porque sem Ele nada pode existir, é uma certeza, uma realidade que
jamais poderá renegar quem a atingir por intuição. Depois, se corretamente interpretada, ela não leva a uma soberba deificação do nosso eu , ou da natureza, mas
determinará a fusão de nossa alma e do criado, com o Criador aí imanente, sem o que tudo estaria órfão. Os conceitos acima expostos não levantam o "eu" contra Deus, mas tendem a diminuir o "eu" para deixar que Deus desperte nele e viva nele em lugar do "eu" separado, filho do desmoronamento. Não é mais o "eu" rebelde que agora predomina, mas o "eu" em sacrifício, aos pés da Lei. "Os últimos serão os primeiros",
isto é, quem quiser ser o primeiro no sistema, deve ser o último no anti-sistema, ou
seja, servo do próximo, não em soberba, mas em obediência e em humildade. Desta maneira não se aumenta a cisão, mas a unificação, não se caminha para o triunfo do "eu", mas de Deus. É evidente que a via acima traçada não é a que leva a Satanás, mas a que conduz a Deus.
E assim evidente também o que diz o Evangelho sobre a necessidade de decidir-se na escolha, porque não é possível servir a dois senhores ao mesmo tempo,
isto é, prosperar concomitantemente no sistema e no anti-sistema. Se quisermos realmente vencer, é de nosso interesse seguir o primeiro e não o segundo. É natural,
pois, que Cristo e o mundo sejam inexoravelmente inimigos, mas também que Cristo, Senhor do sistema, vença o anti-sistema. Cristo não sofreu porque fosse fraco ou vencido, como acreditou a estupidez dos seus algozes, mas em razão de livre e deliberado sacrifício de Amor. A paixão de Cristo se situa logicamente no plano de
salvação do universo, no plano da reconstrução do sistema com o anti-sistema em que ele desmoronou.
Senhor deste plano, desdenhando os pobres meios humanos de ataque e defesa, Cristo, o Cordeiro pacífico e inerme, venceu o mundo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O espírito de Castelnaudary. Texto do livro "O céu e o inferno" de Allan Kardec.


O ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY.

Rumores e outras estranhas e várias manifestações
ocorridas numa casinha perto de Castelnaudary, faziam-
-na tomar por habitada de fantasmas, mal-assombrada, etc.
Assim, foi a dita casa exorcismada em 1848, aliás sem resultado.
O proprietário, Sr. D..., pretendendo habitá-la, faleceu
repentinamente alguns anos depois; um seu filho,
animado do mesmo desejo, ao penetrar-lhe um dos compartimentos,
recebeu de mão desconhecida vigorosa bofetada,
e, como estivesse só, não teve a menor dúvida de uma
origem oculta, razão esta que o levou a abandonar a casa
definitivamente. No lugar corria uma versão segundo a qual
um grande crime fora cometido ali. O Espírito que dera a
bofetada foi evocado na Sociedade de Paris, em 1859, e
manifestou-se por sinais de tal violência, que foram improfícuos
todos os esforços para acalmá-lo. Interrogado S. Luís
a esse respeito, respondeu: “É um Espírito da pior espécie, verdadeiro monstro: fizemo-lo comparecer, mas a despeito
de tudo quanto lhe dissemos não foi possível obrigá-lo a
escrever. Ele tem o seu livre-arbítrio, do qual o infeliz tem feito triste uso.”
— P. Este Espírito é passível de melhora? — R. Por que
não? pois não o são todos, este como os outros? É possível
entretanto que haja nisso dificuldades, porém a permuta
do bem pelo mal acabará por sensibilizá-lo. Orai em primeiro lugar, e, se o evocardes daqui a um mês, vereis a
transformação operada.
Novamente evocado mais tarde, o Espírito mostrou-se
mais brando e, pouco a pouco, submisso e arrependido.
Explicações posteriores, ministradas não só por ele como
por outros Espíritos, deram em resultado saber-se que, em 1608, habitando aquela casa, assassinara um
irmão por motivos de terrível ciúme, degolando-o durante
o sono. Alguns anos decorridos, também assassinara a
esposa.
O seu falecimento ocorreu em 1659, na idade de 80
anos, sem que houvesse respondido por estes crimes, que
pouca atenção despertaram naquela época de balbúrdias.
Depois da morte, jamais cessara de praticar o mal, provocando vários acidentes ocorridos na tal casa.
Um médium vidente que assistiu à primeira evocação
viu-o, no momento em que pretendiam forçá-lo a escrever,
quando sacudiu violentamente o braço do médium. De medonha catadura, trajava uma camisa ensanguentada, tendo na mão um punhal.


1. P. (A S. Luís.) — Tende a bondade de nos descrever o
gênero de suplício deste Espírito. — R. É atroz, porque está condenado a habitar a casa em que cometeu o crime, sem poder fixar o pensamento noutra coisa que não no crime, tendo-o sempre ante os olhos e acreditando na eternidade de tal tortura. Está como no momento do próprio crime, porque qualquer outra recordação lhe foi retirada e interdita toda comunicação com qualquer outro Espírito  sobre a Terra, só pode permanecer naquela casa, e no Espaço só lhe restam solidão e trevas.
2. Haveria um meio de o desalojar dessa casa? Qual seria
esse meio? — R. Quando se quer desembaraçar obsessões
de semelhantes Espíritos, o meio é fácil — orar por eles.
Contudo, é precisamente isso que se deixa de fazer muitas vezes, preferindo-se intimidá-los com exorcismos formulados que, aliás, muito os divertem.
3. Insinuando às pessoas interessadas essa ideia de orar por ele, fazendo-o também nós, conseguiríamos desalojá-lo?
— R. Sim, mas reparai que eu disse para orar e não para
mandar orar.
4. Estando em tal situação há dois séculos, apreciará ele
todo esse tempo como se fora encarnado, isto é, o tempo
parecer-lhe-á tanto ou menos longo do que quando na Terra?
— R. Mais longo: o sono não existe para ele.
5. Disseram-nos que o tempo não existe para os Espíritos e que um século, para eles, não passa de um instante na
eternidade. Dar-se-á efetivamente esse fato para com todos os Espíritos? — R. Não, decerto, porquanto isso só se dá com os Espíritos que têm atingido elevadíssimo grau de adiantamento; para os inferiores, porém, o tempo é frequentemente moroso, sobretudo quando sofrem.
6. Donde vinha esse Espírito antes da sua encarnação? —
R. Tivera uma existência entre tribos das mais ferozes e
selvagens, e, precedentemente, em planeta inferior à Terra.
7. Severamente punido agora por esse crime, sê-lo-ia igualmente pelos que porventura tivesse cometido, como é de supor, quando vivendo entre selvagens? — R. Sim, porém não tanto, visto como, em ser mais ignorante, menos alcançava a extensão do delito.
8. O estado em que se vê esse Espírito é o dos seres vulgarmente designados por danados? — R. Absolutamente não, pois há condições ainda mais horrorosas. Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos, variando conforme seja o culpado mais ou menos acessível ao arrependimento.
Para este, aquela casa é o seu inferno, outros trazem
esse inferno em si mesmos, pelas paixões que os
atormentam sem que possam saciá-las.
9. Apesar da sua inferioridade, este Espírito é sensível aos efeitos da prece, o que também temos verificado com Espíritos igualmente perversos e da mais grosseira natureza; entretanto, Espíritos há que, esclarecidos, de mais desenvolvida inteligência, demonstram completa ausência de bons sentimentos, motejando de tudo que há de mais sagrado; a nada se comovendo e até não dando tréguas ao seu cinismo...
— R. A prece só aproveita ao Espírito que se arrepende;
para aqueles que, arrebatados de orgulho, se revoltam
contra Deus e persistem no erro, exagerando-o mesmo, tal
como procedem os infelizes, para esses a prece nada adianta, nem adiantará senão quando tênue vislumbre de arrependimento começar a germinar-lhes na consciência. A ineficácia da prece também é para eles um castigo. Enfim, ela só alivia os não totalmente endurecidos.
10. Vendo-se um Espírito insensível à ação da prece, será
motivo para que se deixe de orar por ele? — R. Não, porquanto, cedo ou tarde, a prece poderá triunfar do seu endurecimento, sugerindo-lhe benéficos pensamentos. O mesmo sucede com certos doentes nos quais a ação
medicamentosa só se torna sensível depois de muito tempo e vice-versa. Compenetrando-nos bem de que todos os Espíritos são suscetíveis de progresso, e que nenhum é fatal e eternamente condenado, fácil nos ser compreender a eficácia da prece em quaisquer circunstâncias. Por mais
ineficaz que ela possa parecer-nos à primeira vista, o certo é que contém germens em si mesma, bastante benéficos, para bem predisporem o Espírito, quando o não afetem imediatamente. Erro seria, pois, desanimarmos por não colher dela imediato resultado.
11. Ao reencarnar-se este Espírito, qual será a sua categoria?
— R. Depende dele e do arrependimento que então tiver.
Muitos colóquios com este Espírito deram em resultado
notável transformação do seu moral.
Eis aqui algumas das suas respostas:

12. (Ao Espírito.) Por que não pudestes escrever da primeira vez que vos evocamos? — R. Porque não queria. — P. Mas por quê? — R. Ignorância e embrutecimento.
13. Agora podeis deixar, quando vos apraz, a casa de
Castelnaudary? — R. Permitem-mo, porque aproveito os
vossos conselhos. — P. Sentis algum alívio? — R. Começo a ter esperança.
14. Se possível nos fora o vermo-vos, qual a vossa aparência?
— R. Ver-me-íeis com a camisa, mas sem o punhal. —
P. Por que não mais com o punhal? Que fim lhe destes? —
R. Amaldiçoando-o, Deus arrebatou-mo das vistas.
15. Se o filho do Sr. D... (o da bofetada) voltasse àquela
casa, que lhe faríeis? — R. Nada, porque estou arrependido.
— P. E se ele pretendesse ainda desafiar-vos? — R. Não
me façais essa pergunta! Eu não me dominaria, isso está
acima das minhas forças, pois sou um miserável.
16. Lobrigais um termo aos vossos padecimentos? — R.
Oh! ainda não. É já muito o saber, graças à vossa intercessão, que esses padecimentos não serão eternos.
17. Tende a bondade de nos descrever a vossa situação
antes de vos evocarmos pela primeira vez. Não é preciso
acrescentarmos que este pedido tem por fim sabermos como ser-vos úteis, e não a simples e fútil curiosidade. R. Já vos disse que nada mais compreendia além do meu crime, e que não podia abandonar a casa em que o cometi, a não ser para vagar no Espaço, solitário e obscuro; disso não


poderia eu dar-vos uma ideia, porque nunca pude compreender o que se passava. Desde que me alçava ao Espaço, era tudo negrume e vácuo, ou, antes, não sei mesmo o que era... Hoje o meu remorso é muito maior, e no entanto não sou constrangido a permanecer naquela casa fatal, sendo-me permitido vagar sobre a Terra e orientar-me pela observação de quanto aí vejo, compreendendo melhor, assim, a enormidade dos meus crimes, e, se menos sofro por um lado, por outro aumentam as torturas do remorso...
Mas... ainda bem que tenho esperança.
18. A terdes de reencarnar, que existência preferiríeis? —
R. Sobre isso não tenho meditado suficientemente.
19. Durante o vosso longo insulamento — quase podemos
dizer cativeiro — experimentastes algum remorso? — R.
Nenhum, e por isso sofri tão longamente. Somente quando o senti, foi que ele provocou, sem que disso me apercebesse, as circunstâncias determinantes da vossa evocação ao meu Espírito, para início da libertação. Obrigado, pois, a vós que de mim vos apiedastes e me esclarecestes.
Efetivamente, temos visto avaros sofrerem à vista do
ouro, que para eles não passava de verdadeira quimera;
orgulhosos, atormentados pelo ciúme das honrarias prestadas a outros que não eles; homens que dominavam na Terra, humilhados pela potência invisível constrangidos à obediência, em presença de subordinados, que não mais se lhe curvavam; ateus atônitos pela dúvida, em face da imensidade, no mais absoluto insulamento, sem um ser que os
esclareça.

No mundo dos Espíritos há compensações para todas
as virtudes, mas há também penalidades para todas as faltas, e, destas, as que escaparam às leis dos homens são
infalivelmente atingidas pelas leis de Deus.
Devemos ainda notar que as mesmas faltas, ainda que
cometidas em circunstâncias idênticas, são diversamente
punidas, conforme o grau de adiantamento do Espírito delinquente.
Aos Espíritos mais atrasados, de natureza mais
grosseira, como este de que vimos de nos ocupar, são infligidos castigos de alguma sorte mais materiais que morais, ao passo que o contrário se dá para com aqueles cuja inteligência e sensibilidade estejam mais desenvolvidas. Aos primeiros impõe-se o castigo apropriado à rudeza do seu discernimento, para compreenderem o erro e dele se libertarem.
Assim é que a vergonha, por exemplo, causando
pouca ou nenhuma impressão para estes, torna-se para
aqueles intolerável.
Neste divino código penal, a sabedoria, a bondade, a
providência de Deus para com as suas criaturas revelam-se até nas mínimas particularidades, sendo tudo proporcionado e concatenado com admirável solicitude para facilitar ao culpado os meios de reabilitação. As mínimas aspirações são consideradas e recolhidas.
Pelos dogmas das penas eternas, ao contrário, são no
inferno confundidos os grandes e pequenos criminosos,
os culpados de momento e os reincidentes contumazes, os
endurecidos e os arrependidos. Além disso, nenhuma tábua de salvação se lhes oferece; a falta momentânea pode
acarretar uma condenação eterna e, o que mais é, qualquer benefício que porventura hajam feito de nada lhes valerá. De que lado, pois, a verdadeira justiça, a verdadeira bondade?

Esta evocação nada tem de casual; e como deveria aproveitar
a esse infeliz, visto que ele já começava a compreender
a enormidade do seu crime, eis que os Espíritos que
velavam julgaram oportuno esse socorro eficaz e entraram a facilitar-lhe as circunstâncias propícias. É este um fato que temos visto reproduzir-se frequentemente. Perguntar-
-se-á que seria deste Espírito se não fosse evocado, o que
será de todos os sofredores que o não podem ser, bem como daqueles em que se não pensa... Poderíamos redarguir que os meios de que Deus dispõe para salvar as criaturas são inumeráveis, sendo a evocação um dentre esses meios, porém, não único, certamente. Deus não deixa ninguém olvidado, além de que, sobre os Espíritos suscetíveis de arrependimento, as preces coletivas devem exercer alguma influência.
A sorte dos Espíritos sofredores não poderia ser por
Deus subordinada à boa vontade e aos conhecimentos
humanos.
Desde que os homens puderam estabelecer relações
regulares com o mundo invisível, uma das primeiras consequências do Espiritismo foi o ensino dos serviços que por meio dessas relações podem prestar aos seus irmãos desencarnados.
Deus patenteia por esse modo a solidariedade existente
entre todos os seres do Universo, ao mesmo tempo que
dá a lei da natureza por base ao princípio da fraternidade.
Deus demonstra-nos a feição verdadeira, útil e séria das
evocações, até então desviadas do seu fim providencial pela
ignorância e pela superstição.

Aos sofredores jamais faltaram socorros em qualquer
época e, se as evocações lhes proporcionam uma nova via
de salvação, aproveitam ainda mais, talvez, aos encarnados, por lhes proporcionar novos meios de fazer o benefício, instruindo-se ao mesmo tempo sobre as condições da vida futura.

Missão do homem inteligente na Terra. Texto do evangelho segundo o espiritismo. Allan Kardec.

II – Missão do Homem Inteligente na Terra

13 – Não vos orgulheis por aquilo que sabeis, porque esse saber tem limites bem estreitos, no mundo que habitais. Mesmo supondo que sejais uma das sumidades desse globo, não tendes nenhuma razão para vos envaidecer. Se Deus, nos seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, foi por querer que a usásseis em benefício de todos. Porque é uma missão que Ele vos dá, pondo em vossas mãos o instrumento com o qual podeis desenvolver, ao vosso redor, as inteligências retardatárias e conduzi-las a Deus. A natureza do instrumento não indica o uso que dele se deve fazer? A enxada que o jardineiro põe nas mãos do seu ajudante não indica que ele deve cavar? E o que diríeis se o trabalhador, em vez de trabalhar, erguesse a enxada para ferir o seu senhor? Diríeis que isso é horroroso, e que ele deve ser expulso. Pois bem, não se passa o mesmo com aquele que se serve da sua inteligência para destruir, entre os seus irmãos, a ideia da Providência? Não ergue contra o seu Senhor a enxada que lhe foi dada para preparar o terreno? Terá ele direito ao salário prometido, ou merece, pelo contrário, ser expulso do jardim? Pois o será, não o duvideis, e arrastará existências miseráveis e cheias de humilhação, até que se curve diante daquele a quem tudo deve.
 A inteligência é rica em méritos para o futuro, mas com a condição de ser bem empregada. Se todos os homens bem dotados se servissem dela segundo os desígnios de Deus, a tarefa dos Espíritos seria fácil, ao fazerem progredir a humanidade. Muitos, infelizmente, a transformaram em instrumento de orgulho e de perdição para si mesmos. O homem abusa de sua inteligência, como de todas as suas faculdades, mas não lhe faltam lições, advertindo-o de que uma poderosa mão pode retirar-lhe o que ela mesma lhe deu.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"Uniões antipáticas," texto do "Livro dos espíritos." Allan Kardec.

IV – Uniões Antipáticas


       939. Desde que os Espíritos simpáticos são levados a se unir,  como se explica que entre os encarnados a afeição frequentemente exista apenas de um lado e o amor sincero seja recebido com indiferença e mesmo com repulsa? Como, além disso, a mais via afeição entre dois seres pode se transformar em antipatia e, algumas vezes, em ódio?

     — Não compreendes, então, que seja uma punição, embora passageira? Além disso, quantos há que pensam amar perdidamente porque julgam apenas as aparências, e, quando são obrigados a viver em comum, não tardam a reconhecer que se tratava somente de uma paixão material! Não é suficiente estar enamorado de uma pessoa que vos agrada e que supondes dotada de belas qualidades; é vivendo realmente com ela que a podereis apreciar. Quantas uniões, por outro lado, que a princípio pareciam incompatíveis e com o correr do tempo, quando ambos se conheceram melhor , se transformaram num amor terno e durável porque baseado na estima recíproca! É necessário não esquecer que o Espírito é quem ama, e não o corpo, e que, dissipada a ilusão material, o Espírito vê a realidade.

     Há duas espécies de afeição: a do corpo e a da alma, e frequentemente se toma uma pela outra. A afeição da alma, quando pura e simpática, é duradoura; a do corpo é perecível; eis porque os que se julgam amar com um amor eterno acabam se odiando, quando passa a ilusão.

      940. A falta de simpatia entre os seres destinados a viver juntos não é igualmente uma fonte de sofrimentos, tanto mais amarga quando envenena toda a existência?

    —  Muito amarga, de fato; mas é uma dessas infelicidades de que, na maioria das vezes, sois a primeira causa. Em primeiro lugar, as vossas leis são erradas, pois acreditais vós que Deus vos obriga a viver com aqueles que vos desagradam? Depois, nessas uniões procurais quase sempre mais a satisfação do vosso orgulho e da vossa ambição do que a felicidade de uma afeição mútua. E sofreis, então, apenas a consequência dos vossos preconceitos.



       940 – a) Mas nesse caso não haverá quase sempre uma vítima inocente?

– Sim, e isso é para ela uma dura expiação, mas a responsabilidade de sua infelicidade recairá sobre os que a causaram. Se a luz da verdade tiver penetrado em sua alma, ela se consolará com a fé no futuro. De resto, à medida que os preconceitos se enfraquecerem, desaparecerão também as causas das infelicidades íntimas.

Capítulo do "Livro dos espíritos." Allan Kardec.

I – Felicidade e Infelicidade Relativas


      920. O homem pode gozar na Terra uma felicidade completa?

      — Não, pois a vida lhe foi dada como prova ou expiação, mas dele depende abrandar os seus males e ser tão feliz, quanto se pode ser na Terra.

      921. Concebe-se que o homem seja feliz na Terra quando a Humanidade estiver transformada, mas, enquanto isso não se verifica, pode cada um gozar de uma felicidade relativa?

      — O homem é, na maioria das vezes, o artífice de sua própria infelicidade. Praticando a lei de Deus, ele pode poupar-se a muitos males e gozar de uma felicidade tão grande quanto o comporta a sua existência num plano grosseiro.

Comentário de Kardec: O homem bem compenetrado do seu destino futuro não vê na existência corpórea mais do que uma rápida passagem. É como uma parada momentânea numa hospedaria precária. Ele se consola facilmente de alguns aborrecimentos passageiros, numa viagem que deve conduzi-lo a uma situação tanto melhor quanto mais atenciosamente tenha feito os seus preparativos para ela.

      Somos punidos nesta vida pelas infrações que cometemos às leis da existência corpórea, pelos próprios males decorrentes dessas infrações e pelos nossos próprios excessos. Se remontarmos pouco a pouco à origem do que chamamos infelicidades terrenas veremos a estas, na sua maioria, como a consequência de um primeiro desvio do caminho certo. Em virtude desse desvio inicial, entramos num mau caminho e de consequência em consequência, caímos afinal na desgraça.

     922. A felicidade terrena é relativa à posição de cada um; o que é suficiente para a felicidade de um faz a desgraça de outro. Há, entretanto, uma medida comum de felicidade para todos os homens?

     – Para a vida material, a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e a fé no futuro.

      923. Aquilo que seria supérfluo para um não se torna o necessário para outro, e vice-versa, segundo a posição?

      —Sim, de acordo com as vossas ideias materiais, os vossos preconceitos, a vossa ambição e todos os vossos caprichos ridículos, para os quais o futuro fará justiça quando tiverdes a compreensão da verdade. Sem dúvida, aquele que tivesse uma renda de cinquenta mil libras e a visse reduzida a dez mil, considerar-se-ia muito infeliz, por não poder continuar fazendo boa figura, mantendo o que chama a sua classe, ter bons cavalos e lacaios, satisfazer a  todas as paixões etc. Julgaria faltar-lhe o necessário. Mas. francamente, podes considerá-lo digno de lástima, quando ao seu lado há os que morrem de fome  e de frio, sem um lugar em que repousar a cabeça! O homem sensato, para ser feliz, olha para baixo e jamais para os que lhe estão acima, a não ser para elevar sua alma ao infinito.

      924. Existem males que não dependem da maneira de agir e que ferem o homem mais justo. Não há algum meio de se preservar deles?

      — O atingido deve resignar-se e sofrer sem queixa, se deseja progredir. Entretanto, encontra sempre uma consolação na sua própria consciência,  que lhe dá a esperança de um futuro melhor, quando ele faz o necessário para obtê-lo.

       925. Por que Deus beneficia com os bens da fortuna certos homens que não parecem merecê-los?

       — Esse é um favor aos olhos daqueles que não enxergam além do presente; mas sabei-o, a fortuna é uma prova geralmente mais perigosa que a miséria.

       926. A civilização, criando novas necessidades, não é a fonte de novas aflições?      

       — Os males deste mundo estão na razão das necessidades artificiais  que criais para vós mesmos. Aquele que sabe limitar os seus desejos e ver sem cobiça o que está fora das suas possibilidades, poupa-se a muitos  aborrecimentos nesta vida. O mais rico é aquele que tem menos necessidades.

     Invejais os prazeres dos que vos parecem os felizes do mundo. Mas sabeis, por acaso, o que lhes está reservado? Se não gozam senão para si  mesmos, são egoístas e terão de sofrer o reverso. Lamentai-os, antes de invejá-los! Deus, às vezes, permite que o mau prospere, mas essa felicidade não é para se invejar, porque a pagará com lágrimas amargas. Se o justo é infeliz é porque passa por uma prova que lhe será levada em conta, desde que a saiba suportar com coragem. Lembrai-vos das palavras de Jesus: “Bem-aventurados os que sofrem, porque serão consolados”.

       927. O supérfluo não é, por certo, indispensável à felicidade, mas não se dá o mesmo com o necessário. Ora, a desgraça daqueles que estão privados do necessário não é real?

       – O homem não é verdadeiramente desgraçado senão quando sente a falta daquilo que lhe é necessário para a vida e a saúde do corpo. Essa privação é talvez a consequência de sua própria falta e então ele só deve queixar-se de si mesmo. Se a falta fosse de outro, a responsabilidade caberia a quem a tivesse causado.

       928. Pela natureza especial das aptidões naturais, Deus indica evidentemente a nossa vocação neste mundo. Muitos males não provêm do fato de não seguirmos essa vocação?

       – Isso é verdade, e muitas vezes são os pais que, por orgulho ou avareza fazem os filhos se desviarem do caminho traçado pela Natureza comprometendo-lhes com isso a felicidade. Mas serão responsabilizados.

      928 – a) Então considerais justo que o filho de um homem da alta sociedade fabricasse tamancos, por exemplo, se fosse essa a sua aptidão?

      – Não se precisa cair no absurdo nem no exagero: a civilização tem as suas necessidades. Por que o filho de um homem da alta sociedade como dizes, teria de fazer tamancos, se pode fazer outras coisas ? Ele poderá sempre se tornar útil na medida de suas faculdades, se não as aplicar em sentido contrário. Assim, por exemplo, em vez de um mau advogado, poderia ser talvez um bom mecânico etc.

Comentário de Kardec: O deslocamento de sua esfera intelectual é seguramente uma das causas mais frequentes de decepção. A inaptidão para a carreira abraçada é uma fonte inesgotável de reveses. Depois, o amor-próprio vem juntar-se a isso, impedindo o homem de recorrer a uma profissão mais humilde e lhe mostra  o suicídio como o supremo remédio para escapar ao que ele julga uma humilhação. Se uma educação moral o tivesse preparado acima dos tolos preconceitos do orgulho, jamais ele seria apanhado desprevenido.

      929. Há pessoas que, privadas de todos os recursos, mesmo quando reine a abundância em seu redor, não veem outra perspectiva de solução para o seu caso a não ser a morte. Que devem fazer? Deixar-se morrer de fome?

      — O homem jamais deve ter a ideia de se deixar morrer de fome, pois sempre encontraria meios de se alimentar, se o orgulho não se interpusesse entre a necessidade e o trabalho.  Frequentemente dizemos que não há profissões humilhantes e que não é o ofício que desonra; mas dizemos para os outros e não para nós.

       930. É evidente que, sem os preconceitos sociais, pelos quais se deixa dominar, o homem sempre encontraria um trabalho qualquer que o pudesse ajudar a viver, mesmo deslocado de sua posição. Mas entre as pessoas que não tem preconceitos ou que os põem de lado, não há as que estão impossibilitadas de prover as suas necessidades em consequência de moléstias ou outras causas independentes de sua vontade?

     — Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome.

Comentário de Kardec: Com uma organização social previdente e sábia, o homem não pode sofrer necessidades, a não ser por sua culpa. Mas as próprias culpas do homem são frequentemente o resultado do meio em que ele vive. Quando o homem praticar a lei de Deus, disporá de uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade e com isso mesmo ele será melhor.

         931. Por que as classes sociais sofredoras são mais numerosas do que as felizes?

      — Nenhuma é perfeitamente feliz, pois aquilo que se considera a felicidade muitas vezes oculta pungentes aflições. O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para responder ao teu pensamento, direi que as classes a que chamas sofredoras são mais numerosas porque a Terra é um lugar de expiação. Quando o homem a tiver transformado em morada do bem e dos bons espíritos, não mais será infeliz nesse mundo, que será para ele o paraíso terrestre.

         932. Por que, neste mundo, os maus exercem geralmente maior influência  sobre os bons?

       — Pela fraqueza dos bons. Os maus são intrigantes e audaciosos; os bons são tímidos. Estes, quando quiserem, assumirão a preponderância.

         933. Se é o homem, em geral, o artífice dos seus sofrimentos materiais sê-lo-á também dos sofrimentos morais?

       — Mais ainda, pois os sofrimentos materiais são, às vezes, independentes da vontade, enquanto o orgulho ferido, a ambição frustrada, a ansiedade da avareza, a inveja, o ciúme, todas as paixões, enfim constituem torturas da alma.

       Inveja e ciúme!, felizes os que não conhecem esses dois vermes vorazes. Com a inveja e o ciúme, não há calma, não há repouso possível.  Para aquele que sofre desses males, os objetos da sua cobiça, do seu ódio e do seu despeito; se erguem diante dele como fantasmas que não o deixam em paz e o perseguem até no sono. O invejoso e o ciumento vivem num estado de febre contínua. É essa uma situação desejável? Não compreendeis que, com essas paixões, o homem cria para si mesmo suplícios voluntários e que a Terra se transforma para ele num verdadeiro inferno.

Comentário de Kardec: Muitas expressões figuram energicamente os efeitos de algumas paixões. Diz-se: está inchado de orgulho, morrer de inveja, secar de ciúme ou de despeito,  perder o apetite por ciúmes etc. esse quadro nos dá bem a verdade. Às vezes, o ciúme nem tem objeto determinado. Há pessoas que se mostram naturalmente ciumentas de todos os que se elevam, de todos os que saem da vulgaridade, mesmo quando não tenham no caso nenhum interesse direto, mas unicamente por não poderem atingir o mesmo plano. Tudo aquilo que parece acima do horizonte comum as ofusca, e, se formassem a maioria da sociedade, tudo desejariam rebaixar ao seu próprio nível. Temos nestes casos o ciúme aliado à mediocridade.

       O homem é infeliz ,geralmente, pela importância que liga às coisas deste mundo.  A vaidade, a ambição e a cupidez fracassadas o fazem infeliz. Se ele se elevar acima do circulo estreito da vida material, se elevar o seu pensamento ao infinito, que é o seu destino, as vicissitudes  da Humanidade lhe parecerão mesquinhas e pueris, como as mágoas da criança que se aflige pela perda de um brinquedo que representava a sua felicidade suprema.

       Aquele que só encontra a felicidade na satisfação do orgulho e dos apetites grosseiros é infeliz quando não os pode satisfazer, enquanto o que não se interessa pelo supérfluo se sente feliz com aquilo que para os outros constituiria infortúnio.

       Referimo-nos aos homens civilizados porque o selvagem, tendo necessidades mais limitadas, não tem os mesmos motivos de cobiça e de angústias; sua maneira de ver as coisas é muito diferente. No estado de civilização, o homem pondera  a sua infelicidade, a analisa, e por isso é mais afetado por ela, mas pode também ponderar e analisar os seus meios de consolação. Esta consolação ele a encontra no sentimento cristão, que lhe dá a esperança de um futuro melhor, e no Espiritismo, que lhe dá a certeza do futuro.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Sonho e realidade humana.

“Um homem que não se alimenta de seus sonhos, envelhece cedo.”
                                 Shakespeare.

É uma verdade supimpa esta frase do maior escritor de todos os tempos.
Ele extravasou genialidade e sabedoria ao expressar este formoso pensamento.
Todos nós nascemos com o véu mágico dos sonhos. A  infância é a idade dourada na qual desvela-se este véu mágico, o qual encobre a realidade com seu brilho cintilante.
Ao crescer e absorver naturalmente as influências inevitáveis do mundo tão medíocre, baixo e vulgar, com suas misérias e perversidades, a criança afasta-se gradualmente da fonte de luz luminosa que iluminava sua infância.
É um dos maiores crimes contra a soberana natureza de Deus esta perseguição tão antiga da maioria perversa e  ignorante aos sonhadores.
Quem quiser seguir a trilha luminosa do sonho deverá apartar-se do caminho das trevas em que palmilha a massa universal dos medíocres, dos acomodados, daqueles que tem a alma pesada, o coração endurecido e pervertido pela frieza e indiferença.
Pobres criaturas!  Não só envelhecerão logo, como afirmou o bardo genial nas palavras acima, mas morrerão por inanição da alma.
Por isto Shakespeare disse “Um homem que não alimenta de seus sonhos.” A alma precisa do mundo encantado dos sonhos para sustentar a estrada mágica que nos conecta à realidade sublime,  infinitamente acima da baixa e perversa realidade humana.
Esta estrada está aberta a todos, mas só as crianças pequenas e os grandes artistas tem pureza e amor suficientes em seu coração para conectar à via cintilante e mágica que nos conduz à realidade eterna no seio de Deus.
“Um grande homem é aquele que não perdeu o coração de menino.” Disse um sábio chinês.
A maioria da humanidade deixa morrer sua criança interior muito cedo. Com isto “morre” também a fonte mágica, aquela mesma fonte que iluminou gerações e gerações que vieram e partiram em nossa longa história.
A vida ama os sonhadores. É para estas almas que vai o brilho das estrelas todas as noites. É para estas almas que vai o beijo das fadas, gnomos e dos anjos todos os dias.
O sonho é luz que brilha para sempre. O sonho é chama que nunca se apaga. É a vereda mágica que nos conduz ao maravilhoso. Nos faz subir às alturas supremas, nas plagas divinas da eternidade. Quem abrir mão de seu sonho, cairá para sempre na escuridão das almas arrependidas e perdidas, às quais gemem e agonizam nas trevas malditas que escolheram para si próprias,  desde o amaldiçoado dia que deixaram morrer a criança alegre e viçosa dentro de si.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Do outro lado.

E lá estava ele, parado em frente a uma espécie de tenda brilhante, a qual emitia uma luz azul clara rutilante de um fulgor espetacular.
Ele estava “do outro lado.” Há coisa de dois anos ele vinha vivenciando experiências de projeção astral.
Após meses de tentativas fracassadas, depois de utilizar várias técnicas, ele finalmente encontrou uma mais afeita à sua personalidade. Bastou três semanas para obter sua primeira experiência bem sucedida, embora não tivesse 100% de sua consciência. À medida que ele repetia os exercícios mentais sua consciência aumentava gradativamente.
Foram necessários dois anos de pesquisas, estudos e leitura constante. Ele perdeu a conta de sites e livros que leu sobre o assunto.
Ao tempo que aconteceu o ocorrido que estamos narrando ele já era capaz de sair e entrar no corpo totalmente consciente.
Assim, em uma noite de uma beleza extraordinária, com o céu enfeitado por milhões de pontos brilhantes, ele despertou fora do corpo como já aconteceu muitas vezes. Estava totalmente consciente. Ele observava tudo ao redor de si. Havia muitas pessoas ao lado dele, todas elas tinham presas à sua nuca o cordão astral que as ligava a seu corpo, numa óbvia constatação de sua condição de encarnados.
As coisas que ele viu, os fatos que assistiu em suas experiências “do outro lado”deixariam pasmados os mais terrificantes escritores de livro de terror. As belezas extraordinárias, as novidades, a abundância de coisas desconhecidas e profundas, os fatos exorbitantes que assistiu calariam o mais genial escritor do mundo, poriam abaixo a mais criativa imaginação do mundo.
Ele nunca sentiu tão bem a propriedade da frase genial de Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que nos ensina a nossa vã filosofia.”
Ele não deixou de notar a aparência humilde da maioria das pessoas ali presentes. Muitas estavam semiconscientes, pareciam algo desnorteadas, algumas estavam amparadas por outras pessoas. Ele já havia notado há muito tempo o quanto pesa em nossa economia espiritual o fardo de nossa animalidade ancestral.
Ele não estava sereno, seu semblante estava sério e pensativo e denotava preocupação.
Há algum tempo ele descobriu em suas andanças “do outro lado,” em conversas com almas “de lá” que o sublime mestre Jesus atendia pessoas necessitadas.
A princípio isto pareceu um tanto descabido. Como? Entre bilhões de almas, haveria a necessidade de nosso mestre maior, o qual tem sobre si o governo de toda a existência da Terra, com suas complexidades e  gigantescas dificuldades para dirigir todos os departamentos da atividade humana do mundo, haveria necessidade dele próprio de ocupar-se de tão pequenina tarefa?
Mas o amor é misterioso. A misericórdia é filha do amor. O que nós sabemos sobre o amor?
Ele bem observou o quanto era rasteiro os pedidos feitos pela maioria. Pessoa alguma pedia o pão eterno que iluminava para sempre, mas todos queriam soluções a seus pequeninos problemas cotidianos: uma pessoa pedia ajuda para seu filho desempregado, outra pedia uma casa para fugir do aluguel, assim todos importunavam nosso mestre maior  com uma infinidade de pedidos impertinentes e rasteiros.
Ele via todos saírem da tenda satisfeitos e alegres. O mestre sublime atendia a todos os pedidos,  por mais mesquinhos e baixos que fossem.
Assim, ele também tentou a sorte para  solucionar um grave problema que estava amargurando sua vida há alguns anos. Ele estava assoberbado de dívidas, estava à beira de um colapso econômico que arrasaria sua vida em breve se não acontecesse um milagre imediatamente.
A única saída que encontrou foi o dinheiro que viria referente a  venda de uma casa deixada em herança por seu pai, à qual estava à venda há quase um ano e meio, mas não encontrava comprador.
Era este seu pedido. Ele justificava sua consciência com a necessidade de uma solução imediata para o abismo que se abria em sua vida diante de si.
Ao contrário dos demais, ele se corroía intimamente à medida que a fila andava. Chegou sua vez. Foi convidado a entrar na tenda luminosa.
Lá estava o salvador da humanidade, aquele que desceu dos páramos celestes no paraíso de Deus para diminuir-se e humilhar-se apenas por amor a nós, miseráveis pecadores, perversos e ignorantes.
Seus olhos expressavam uma infinita bondade, havia uma impressão magnífica de pureza e humildade sublime por volta de si. O amor mais divino estava estampado em seu sorriso.
Seu sorriso parecia guardar a luz de bilhões de estrelas. Uma luz estonteante circulava por volta de sua túnica. Era a personificação da divindade infinita de Deus  em pessoa.
Nunca em sua vida ele captou tão bem o sentido da frase: “Eu e o Pai somos um.”
Ele se sentiu ridículo! Uma vergonha terrível apossou-se de seu coração ao sentir o quanto era baixo e mesquinho seu pedido. Um mal estar pavoroso arruinou-lhe o ânimo, ele sentiu-se um grande idiota. Ele sentiu-se o mais miserável dos homens.
O mestre o observava atentamente, ele mudou de ideia imediatamente. Preferiu optar pela falência, o vexame, a dor e a miséria, do que importunar a santidade beatífica de nosso sublime salvador com seus pequeninos problemas.
Ele apenas aproximou-se de nosso salvador e disse: “Desculpe.”
Imediatamente voltou para seu corpo e despertou em sua cama.
A lembrança do encontro ocorrido estava vívida em sua memória.
“Estou perdido.” Ele pensou.
No dia seguinte, estava outra vez na existência cotidiana e suas agruras ilusórias.
Alguns dias depois, ao verificar a caixa de mensagens de sua conta de e-mail deparou-se com uma mensagem de seu advogado pedindo o número de sua conta bancária para depositar o dinheiro de sua herança.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Coelhinhos...

Coelhinhos são a fina flor da natureza. Se os coelhos adultos tem que enfrentar os desafios da sobrevivência e seus riscos, o que se há de pensar de seus delicados e frágeis filhotes? Não há quem não se deixe encantar por seus olhinhos graciosos. São dóceis por natureza. Como são vegetarianos, sua sobrevivência não é uma ameaça perversa às outras espécies. Para sobreviver eles não precisam compactuar com a crueldade.
Como são formosos! Delicadeza e beleza são atributos naturais doados por Deus a estas criaturas fofas.
A marca indelével do carinho de Deus está impregnada em sua espécie para sempre.
Seus graciosos olhinhos, seu gracioso modo de andar, saltitando sobre as patas traseiras, sua pelagem macia e veludosa são um convite da natureza divina à contemplação da beleza eterna que jorra do seio de Deus para todo o universo.
Sua existência em meio da selvageria natural dos reinos inferiores é uma prova cabal da sabedoria de Deus, a qual protege e ampara os filhos da beleza eterna.
Estas criaturas fofas e delicadas não pensam, elas simplesmente existem. Elas não se preocupam. Sua existência é um indício patente de confiança na sabedoria de Deus.
Todas as criaturas da natureza tem esta confiança natural na sabedoria e na bondade de Deus.
Aqui há uma profunda lição da natureza eterna de Deus a todos os filhos da beleza eterna do universo, os quais sobrevivem sob a égide da fé em Deus.
Estes filhos da beleza eterna palmilham os passos da luz e da bondade nas pedregosas estradas do mundo, enlameadas do começo ao fim com o lodo do egoísmo, da ignorância  e da crueldade milenares.
São coelhinhos do espírito e do bem a plantar as flores da alma e do sentimento no deserto frio do mundo. Como as graciosas criaturas veludosas, estes coelhinhos da alma são protegidos e amparados pela sabedoria e bondade infinita de Deus, sem a qual não sobreviveriam um segundo sequer neste infernal vale de tormentos e perversidades.