Luz.

Luz.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Do outro lado.

E lá estava ele, parado em frente a uma espécie de tenda brilhante, a qual emitia uma luz azul clara rutilante de um fulgor espetacular.
Ele estava “do outro lado.” Há coisa de dois anos ele vinha vivenciando experiências de projeção astral.
Após meses de tentativas fracassadas, depois de utilizar várias técnicas, ele finalmente encontrou uma mais afeita à sua personalidade. Bastou três semanas para obter sua primeira experiência bem sucedida, embora não tivesse 100% de sua consciência. À medida que ele repetia os exercícios mentais sua consciência aumentava gradativamente.
Foram necessários dois anos de pesquisas, estudos e leitura constante. Ele perdeu a conta de sites e livros que leu sobre o assunto.
Ao tempo que aconteceu o ocorrido que estamos narrando ele já era capaz de sair e entrar no corpo totalmente consciente.
Assim, em uma noite de uma beleza extraordinária, com o céu enfeitado por milhões de pontos brilhantes, ele despertou fora do corpo como já aconteceu muitas vezes. Estava totalmente consciente. Ele observava tudo ao redor de si. Havia muitas pessoas ao lado dele, todas elas tinham presas à sua nuca o cordão astral que as ligava a seu corpo, numa óbvia constatação de sua condição de encarnados.
As coisas que ele viu, os fatos que assistiu em suas experiências “do outro lado”deixariam pasmados os mais terrificantes escritores de livro de terror. As belezas extraordinárias, as novidades, a abundância de coisas desconhecidas e profundas, os fatos exorbitantes que assistiu calariam o mais genial escritor do mundo, poriam abaixo a mais criativa imaginação do mundo.
Ele nunca sentiu tão bem a propriedade da frase genial de Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que nos ensina a nossa vã filosofia.”
Ele não deixou de notar a aparência humilde da maioria das pessoas ali presentes. Muitas estavam semiconscientes, pareciam algo desnorteadas, algumas estavam amparadas por outras pessoas. Ele já havia notado há muito tempo o quanto pesa em nossa economia espiritual o fardo de nossa animalidade ancestral.
Ele não estava sereno, seu semblante estava sério e pensativo e denotava preocupação.
Há algum tempo ele descobriu em suas andanças “do outro lado,” em conversas com almas “de lá” que o sublime mestre Jesus atendia pessoas necessitadas.
A princípio isto pareceu um tanto descabido. Como? Entre bilhões de almas, haveria a necessidade de nosso mestre maior, o qual tem sobre si o governo de toda a existência da Terra, com suas complexidades e  gigantescas dificuldades para dirigir todos os departamentos da atividade humana do mundo, haveria necessidade dele próprio de ocupar-se de tão pequenina tarefa?
Mas o amor é misterioso. A misericórdia é filha do amor. O que nós sabemos sobre o amor?
Ele bem observou o quanto era rasteiro os pedidos feitos pela maioria. Pessoa alguma pedia o pão eterno que iluminava para sempre, mas todos queriam soluções a seus pequeninos problemas cotidianos: uma pessoa pedia ajuda para seu filho desempregado, outra pedia uma casa para fugir do aluguel, assim todos importunavam nosso mestre maior  com uma infinidade de pedidos impertinentes e rasteiros.
Ele via todos saírem da tenda satisfeitos e alegres. O mestre sublime atendia a todos os pedidos,  por mais mesquinhos e baixos que fossem.
Assim, ele também tentou a sorte para  solucionar um grave problema que estava amargurando sua vida há alguns anos. Ele estava assoberbado de dívidas, estava à beira de um colapso econômico que arrasaria sua vida em breve se não acontecesse um milagre imediatamente.
A única saída que encontrou foi o dinheiro que viria referente a  venda de uma casa deixada em herança por seu pai, à qual estava à venda há quase um ano e meio, mas não encontrava comprador.
Era este seu pedido. Ele justificava sua consciência com a necessidade de uma solução imediata para o abismo que se abria em sua vida diante de si.
Ao contrário dos demais, ele se corroía intimamente à medida que a fila andava. Chegou sua vez. Foi convidado a entrar na tenda luminosa.
Lá estava o salvador da humanidade, aquele que desceu dos páramos celestes no paraíso de Deus para diminuir-se e humilhar-se apenas por amor a nós, miseráveis pecadores, perversos e ignorantes.
Seus olhos expressavam uma infinita bondade, havia uma impressão magnífica de pureza e humildade sublime por volta de si. O amor mais divino estava estampado em seu sorriso.
Seu sorriso parecia guardar a luz de bilhões de estrelas. Uma luz estonteante circulava por volta de sua túnica. Era a personificação da divindade infinita de Deus  em pessoa.
Nunca em sua vida ele captou tão bem o sentido da frase: “Eu e o Pai somos um.”
Ele se sentiu ridículo! Uma vergonha terrível apossou-se de seu coração ao sentir o quanto era baixo e mesquinho seu pedido. Um mal estar pavoroso arruinou-lhe o ânimo, ele sentiu-se um grande idiota. Ele sentiu-se o mais miserável dos homens.
O mestre o observava atentamente, ele mudou de ideia imediatamente. Preferiu optar pela falência, o vexame, a dor e a miséria, do que importunar a santidade beatífica de nosso sublime salvador com seus pequeninos problemas.
Ele apenas aproximou-se de nosso salvador e disse: “Desculpe.”
Imediatamente voltou para seu corpo e despertou em sua cama.
A lembrança do encontro ocorrido estava vívida em sua memória.
“Estou perdido.” Ele pensou.
No dia seguinte, estava outra vez na existência cotidiana e suas agruras ilusórias.
Alguns dias depois, ao verificar a caixa de mensagens de sua conta de e-mail deparou-se com uma mensagem de seu advogado pedindo o número de sua conta bancária para depositar o dinheiro de sua herança.