Luz.

Luz.

terça-feira, 26 de março de 2013

Texto de André Luiz. Psicografia: Chico Xavier e Waldo Vieira


Nota ao Leitor. (Prefácio da obra "Evolução em dois mundos")

Ajustadas a supremo conforto, no oceano das facilidades materiais,
não se forram as criaturas humanas contra os pesares da
solidão e da angústia.
Nesse navio prodigioso a que chamamos civilização, estruturado
em largueza de conhecimento e primor de técnica, instalam-se
os homens, demandando o porto que já alcançamos pelo impulso
da morte.
Contudo, isso não impede regressemos ao bojo da nave imponente
para alertar o ânimo dos viajores nossos irmãos, com
passaporte imprescritível para o mesmo país da Verdade que os
espera amanhã, quanto ontem nos aguardava.
E voltamos porque a suntuosidade da embarcação não está livre
do nevoeiro da ignorância a lhe facilitar a incursão entre os
rochedos do crime, nem segura contra a violência das tempestades
que lhe convulsionam a organização e ameaçam a estrutura.
Realmente, dentro dela atingimos luminosa culminância no
setor da cultura, em tudo o que tange à proteção da vida física.
Sabemos equilibrar a circulação do sangue para garantir a segurança
do ciclo cardíaco, mas ignoramos como libertar o coração
do cárcere de sombras em que jaz, muitas vezes, mergulhado na
poça das lágrimas, quando não seja algemado aos monstros da
delinqüência.
Identificamos a neurite óptica com eliminação progressiva
dos campos visuais e medicamo-la com a vantagem possível, na
preservação dos olhos; entretanto, desconhecemos como arrancar
a visão às trevas do Espírito.

Ofertamos braços e pernas artificiais aos mutilados; contudo,
somos francamente incapazes de remediar as lesões do sentimento.
Interferimos com vasta margem de êxito nos processos patológicos
das células nervosas, auscultando as deficiências de vitaminas
e enzimas, que ocasionam a diminuição da taxa metabólica
do cérebro; todavia, estamos inabilitados a qualquer anulação das
síndromes espirituais de aflição e desespero que agravam a psicastenia
e a loucura.
Achamo-nos convictos de que a hidrocefalia congênita provém
da acumulação indébita do líquido céfalo-raquiano, impondo
dilatação no espaço por ele mesmo ocupado na província intracraniana;
no entanto, não percebemos a causa fundamental que a
provoca.
Ainda assim, não voltamos para confabular com aqueles que
se sintam acomodados ao desequilíbrio.
Retornamos à convivência dos que contemplam o horizonte
entre a inquietação e a fadiga perguntando, em pranto, sobre o fim
da viagem.
De espírito voltado para eles, os torturados do coração e da
inteligência, aspiramos a escrever um livro simples sobre a evolução
da alma nos dois planos, interligados no berço e no túmulo,
nos quais se nos entretece a senda para Deus... Notas em que o
despretensioso médico desencarnado que somos – tomando para
alicerce de suas observações o material básico já conquistado pela
própria ciência terrestre, material por vezes colhido em obras de
respeitáveis estudiosos –, pudesse algo dizer do corpo espiritual,
em cujas células sutis a nossa própria vontade situa as causas de
nosso destino sobre a Terra.

Páginas em que conseguíssemos aliar o conceito rígido da ciência,
compreensivelmente armada contra todas as afirmações que
não possa esposar pela experimentação fria, e a mensagem consoladora
do Evangelho de Jesus-Cristo de que o Espiritismo contemporâneo
se faz o mais alto representante na atualidade do
mundo... Um pequeno conjunto de definições sintéticas sobre
nossa própria alma imortal, à face do Universo...
Todavia, para tal empreendimento, carecíamos de instrumentação
mais ampla, motivo pelo qual nos utilizamos de dois médiuns
diferentes, em lugares distintos, dois corações amigos que
se prontificaram a receber-nos os textos humildes, dos quais se
compõe a nossa apagada oferta.
Foi assim, meu amigo, que este livro nasceu por missiva de
irmão aos irmãos que lutam e choram.
Se não sentes o frio da noite sobre o revolto mar das provações
humanas, entorpecido na ilusão que te faz escarnecer da
própria verdade, nossa lembrança em tuas mãos traz errado endereço.
Mas se guardas contigo o estigma do sofrimento, indagando
pela solução dos velhos problemas do ser e da dor, se percebes a
nuvem que prenuncia a tormenta e o vórtice traiçoeiro das ondas
em que navegas, vem conosco!... Estudemos a rota de nossa multimilenária
romagem no tempo para sentirmos o calor da flama de
nosso próprio espírito a palpitar imorredouro na Eternidade e,
acendendo o lume da esperança, perceberemos, juntos, em exaltação de
alegria, que Deus, o Pai de Infinita Bondade, nos traçou a divina
destinação para além das estrelas.







domingo, 17 de março de 2013

Dependência humana.


Impressionante é a dependência humana. Nossa sociedade não produz indivíduos independentes, antes incentiva toda forma de dependência social. Muito diferente dos animais que criam seus filhos para ser totalmente independentes.
O ser humano é educado para ser dependente, emocional e intelectualmente, do grupo social a que pertence. Ai de quem rebelar-se e seguir seu próprio caminho! O rebanho alienado imediatamente tenta sufocar qualquer manifestação de independência. A corja dos medíocres não suporta inovações, quer manter o status quo a todo custo.
A história está repleta de casos de perseguições, sacrifícios executados pela maioria ignorante aos inovadores, os idealistas que com coragem e determinação ousaram seguir seu próprio caminho, não se importando com as pedradas da ignorância. Quantos foram queimados, torturados por ousar trazer luz às trevas deste mundo!
Assim tem sido o roteiro palmilhado por todos os gênios em todos os séculos.
Independência é uma das maiores características do gênio, o gênio não suporta qualquer tipo de sujeição. Ele mantem o cérebro e o coração livres durante toda a vida, ao contrário da maioria ignorante, sempre sujeita a outrem. Mesmo a maior pressão social não conseguiu calar o gênio. Os séculos futuros revelaram ao mundo quem estava com a verdade.
É muito forte a pressão da maioria em manter todos sujeitos ao rebanho, quem ousar não enquadrar-se é repelido. O rebanho impõe seus conceitos, padrões e medidas a todos. Todos têm que sujeitar-se à determinação deste monstro invisível e deturpador de consciências.
O mundo atual passa por mudanças radicais em sua estrutura social, econômica e política. Uma nova moral com uma nova ordem de coisas está surgindo. Estas mudanças abalarão até as bases toda nossa civilização. Uma nova civilização, com outros valores e mais justa está surgindo. Uma nova mentalidade fará ir por terra este monstro invisível, o qual tem sufocado a liberdade e a luz por tanto tempo.

terça-feira, 12 de março de 2013

Texto do livro "O céu e o inferno" de Allan Kardec.


Espíritos sofredores


O castigo

Exposição geral do estado dos culpados por ocasião da entrada no mundo dos Espíritos, ditada à Sociedade Espírita de Paris, em outubro de 1860.
"Depois da morte, os Espíritos endurecidos, egoístas e maus são logo presas de uma dúvida cruel a respeito do seu destino, no presente e no futuro. Olham em torno de si e nada vêem que possa aproveitar ao exercício da sua maldade - o que os desespera, visto como o insulamento e a inércia são intoleráveis aos maus Espíritos.
Não elevam o olhar às moradas dos Espíritos elevados, consideram o que os cerca e, então, compreendendo o abatimento dos Espíritos fracos e punidos, se agarrarão a eles como a uma presa, utilizando-se da lembrança de suas faltas passadas, que eles põem continuamente em ação pelos seus gestos ridículos.
Não lhes bastando esse motejo, atiram-se para a Terra quais abutres famintos, procurando entre os homens uma alma que lhes dê fácil acesso às tentações. Encontrando- a, dela se apoderam exaltando-lhe a cobiça e procurando extinguir-lhe a fé em Deus, até que por fim, senhores de uma consciência e vendo segura a presa, estendem a tudo quanto se lhe aproxime a fatalidade do seu contágio.
O mau Espírito, no exercício da sua cólera, é quase feliz, sofrendo apenas nos momentos em que deixa do atuar, ou nos casos em que o bem triunfa do mal. Passam no entanto os séculos, e, de repente, o mau Espírito pressente que as trevas acabarão por envolvê-lo; o circulo de ação se lhe restringe e a consciência, muda até então, faz-lhe sentir os acerados espinhos do remorso.
Inerte, arrastado no turbilhão, ele vagueia, como dizem as Escrituras, sentindo a pele arrepiar-se-lhe de terror. Não tarda, então, que um grande vácuo se faça nele e em torno dele: chega o momento em que deve expiar; a reencarnação aí está ameaçadora... e ele vê como num espelho as provações terríveis que o aguardam; quereria recuar, mas avança e, precipitado no abismo da vida, rola em sobressalto, até que o véu da ignorância lhe recaia sobre os olhos. Vive, age, é ainda culpado, sentindo em si não sei que lembrança inquieta, pressentimentos que o fazem tremer, sem recuar, porém, da senda do mal. Por fim, extenuado de forças e de crimes, vai morrer. Estendido numa enxerga ou num leito, que importa? o homem culpado sente. sob aparente imobilidade, revolver-se e viver dentro de si mesmo um mundo de esquecidas sensações. Fechadas as pupilas, ele vê um clarão que desponta, ouve estranhos sons; a alma, prestes a deixar o corpo, agita-se impaciente, enquanto as mãos crispadas tentam agarrar as cobertas... Quereria falar, gritar aos que o cercam: - Retenham-me! eu vejo o castigo! - Impossível! a morte sela-lhe os lábios esmaecidos, enquanto os assistentes dizem: Descansa em paz!
E contudo ele ouve, flutuando em torno do corpo que não deseja abandonar. Uma força misteriosa o atrai; vê, e reconhece finalmente o que já vira. Espavorido, ei-lo que se lança no Espaço onde desejaria ocultar-se, e nada de abrigo, nada de repouso.
Retribuem-lhe outros Espíritos o mal que fez; castigado, confuso e escarnecido, por sua vez vagueia e vagueará até que a divina luz o penetre e esclareça, mostrando-lhe o Deus vingador, o Deus triunfante de todo o mal, e ao qual não poderá apaziguar senão à força de expiação e gemidos. Georges."
Nota - Nunca se traçou quadro mais terrível e verdadeiro à sorte do mau; será ainda necessária a fantasmagoria das chamas e das torturas físicas?

Novel

Nota - O Espírito dirige-se ao médium, que em vida o conhecera.
"Vou contar-te o meu sofrimento quando morri. Meu Espírito, preso ao corpo por elos materiais, teve grande dificuldade em desembaraçar-se - o que já foi, por si uma rude angústia.
A vida que eu deixava aos 21 anos era ainda tão vigorosa que eu não podia crer na sua perda. Por isso procurava o corpo, estava admirado, apavorado por me ver perdido num turbilhão de sombras. Por fim, a consciência do meu estado e a revelação das faltas cometidas, em todas as minhas encarnações, feriram-me subitamente, enquanto uma luz implacável me iluminava os mais secretos âmagos da alma, que se sentia desnudada e logo possuída de vergonha acabrunhante. Procurava fugir a essa influência interessando-me pelos objetos que me cercavam, novos, mas que, no entanto, já conhecia; os Espíritos luminosos, flutuando no éter, davam-me a idéia de uma ventura a que eu não podia aspirar; formas sombrias e desoladas, mergulhadas umas em tedioso desespero; furiosas ou irônicas outras, deslizavam em torno de mim ou por sobre a terra a que me chumbava. Eu via agitarem-se os humanos cuja ignorância invejava; toda uma ordem de sensações desconhecidas, ou antes reencontradas, invadiram-me simultaneamente. Como que arrastado por força irresistível, procurando fugir à dor encarniçada, franqueava as distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as belezas naturais nem os esplendores celestes pudessem calmar um instante a dor acerba da consciência, nem o pavor causado pela revelação da eternidade. Pode um mortal prejulgar as torturas materiais pelos arrepios da carne; mas as vossas frágeis dores, amenizadas pela esperança, atenuadas por distrações ou mortas pelo esquecimento, não vos darão nunca a idéia das angústias de uma alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem arrependimento. Decorrido um tempo cuja duração não posso precisar, invejando os eleitos cujos esplendores entrevia, detestando os maus Espíritos que me perseguiam com remoques, desprezando os humanos cujas torpezas eu via, passei de profundo abatimento a uma revolta insensata.
Chamaste-me finalmente, e pela primeira vez um sentimento suave e terno me acalmou; escutei os ensinos que te dão os teus guias, a verdade impôs-se-me, orei; Deus ouviu-me, revelou-se-me por sua Clemência, como já se me havia revelado por sua Justiça. Novel."

Auguste Michel

(Havre, março de 1863)
Era um moço rico, boêmio, gozando larga e exclusivamente a vida material. Conquanto inteligente, o indiferentismo pelas coisas sérias era-lhe o traço característico.
Sem maldade, antes bom que mau, fazia-se estimar por seus companheiros de pândegas, sendo apontado na sociedade por suas qualidades de homem mundano. Não fez o bem, mas também não fez o mal. Faleceu em conseqüência de uma queda da carruagem em que passeava. Evocado alguns dias depois da morte por um médium que indiretamente o conhecia, deu sucessivamente as seguintes comunicações:
8 de março de 1863. - "Por enquanto apenas consegui desprender-me e dificilmente vos posso falar. A queda que me ocasionou a morte do corpo perturbou profundamente o meu Espírito.
"Inquieta-me esta incerteza cruel do meu futuro. O doloroso sofrimento corporal experimentado nada é comparativamente a esta perturbação. Orai para que Deus me perdoe.
"Oh! que dor! oh! graças, meu Deus! que dor! Adeus."
18 de março. - "Já vim a vós, mas apenas pude falar dificilmente. Presentemente, ainda mal me posso comunicar convosco. Sois o único médium, ao qual posso pedir preces para que a bondade de Deus me subtraia a esta perturbação. Por que sofrer ainda, quando o corpo não mais sofre? Por que existir sempre esta dor horrenda, esta angústia terrível? Orai, oh! orai para que Deus me conceda repouso... Oh! que cruel incerteza! Ainda estou ligado ao corpo. Apenas com dificuldade posso ver onde devo encontrar-me; meu corpo lá está, e por que também lá permaneço sempre? Vinde orar sobre ele para que eu me desembarace dessa prisão cruel... Deus me perdoará, espero. Vejo os Espíritos que estão junto de vós e por eles posso falar-vos. Orai por mim.
6 de abril. - "Sou eu quem vem pedir que oreis por mim.
"Será preciso irdes ao lugar em que jaz meu corpo, a fim de implorar do Onipotente que me acalme os sofrimentos?
"Sofro! oh! se sofro! Ide a esse lugar - assim é preciso - e dirigi ao Senhor uma prece para que me perdoe.
"Vejo que poderei ficar mais tranqüilo, mas volto incessantemente ao lugar em que depositaram o que me pertencia."
Nota - O médium, não dando importância ao pedido que lhe faziam de orar sobre o túmulo, deixara de atender. Todavia, indo aí, mais tarde, lá mesmo recebeu uma comunicação.
11 de maio. - "Aqui vos esperava. Aguardava que viésseis ao lugar em que meu Espírito parece preso ao seu invólucro, a fim de implorar ao Deus de misericórdia e bondade acalmar os meus sofrimentos. Podeis beneficiar-me com as vossas preces, não o esqueçais, eu vo-lo suplico. Vejo quanto a minha vida foi contrária ao que deveria ser; vejo as faltas cometidas.
"Fui no mundo um ser inútil; não fiz uso algum proveitoso das minhas faculdades; a fortuna serviu apenas à satisfação das minhas paixões, aos meus caprichos de luxo e à minha vaidade; não pensei senão nos gozos do corpo, desprezando os da alma e a própria alma. Descerá a misericórdia de Deus até mim, pobre Espírito que sofre as conseqüências das suas faltas terrenas? Orai para que Ele me perdoe, libertando-me das dores que ainda me pungem. Agradeço-vos o terdes vindo aqui orar por mim."
8 de junho. - "Posso falar e agradeço a Deus que mo faculta.
"Compreendi as minhas faltas e espero que Deus me perdoe.
"Trilhai sempre na vida de conformidade com a crença que vos alenta, porque ela vos reserva de futuro um repouso que eu ainda não tenho. Obrigado pelas vossas preces. Até outra vista."
Nota - A insistência do Espírito, para que se orasse sobre o seu túmulo, é uma particularidade notável, mas que tinha sua razão de ser se levarmos em conta a tenacidade dos laços que ao corpo o prendiam, à dificuldade do desprendimento, em conseqüência da materialidade da sua existência. Compreende-se que, mais próxima, a prece pudesse exercer uma espécie de ação magnética mais poderosa no sentido de auxiliar o desprendimento. O costume quase geral de orar junto aos cadáveres não provirá da intuição inconsciente de um tal efeito? Nesse caso, a eficácia da prece alcançaria um resultado simultaneamente moral e material.

Exprobrações de um boêmio

(Bordéus, 19 de abril de 1862)
30 de julho. - "Presentemente sou menos infeliz, visto não mais sentir a pesada cadeia que me jungia ao corpo. Estou livre, enfim, mas ainda não expiei e preciso é que repare o tempo perdido se eu não quiser prolongar os sofrimentos. Espero que Deus, tendo em conta a sinceridade do arrependimento, me concede a graça do seu perdão. Pedi ainda por mim, eu vo-lo suplico. Homens, meus irmãos, eu vivi só para mim e agora expio e sofro! Conceda-vos Deus a graça de evitardes os espinhos que ora me laceram. Prossegui na senda larga do Senhor e orai por mim, pois abusei dos favores que Deus faculta às suas criaturas!
"Quem sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons sentimentos que Deus lhe dá, assemelha-se ao animal que muitas vezes se maltrata. O homem deve utilizar- se sobriamente dos bens de que é depositário, habituando-se a visar a eternidade que o espera, abrindo mão, por conseqüência, dos gozos materiais. A sua alimentação deve ter por exclusivo fim a vitalidade; o luxo deve apenas restringir-se às necessidades da sua posição; os gostos, os pendores, mesmo os mais naturais, devem obedecer ao mais são raciocínio; sem o que, ele se materializa em vez de se purificar. As paixões humanas são estreitos grilhões que se enroscam na carne e, assim, não lhes deis abrigo. Vós não sabeis o seu preço, quando regressamos à pátria! As paixões humanas vos despem antes mesmo de vos deixarem, de modo a chegardes nus, completamente nus, ante o Senhor. Ah! cobri-vos de boas obras que vos ajudem a franquear o Espaço entre vós e a eternidade. Manto brilhante, elas escondem as vossas torpezas humanas. Envolvei-vos na caridade e no amor - vestes divinas que duram eternamente.
" Instruções do guia do médium. - Este Espírito está num bom caminho, porquanto, além do arrependimento, aduz conselhos tendentes a evitar os perigos da senda por ele trilhada.
Reconhecer os erros é já um mérito e um passo efetivo para o bem: também por isso, a sua situação, sem ser venturosa, deixa de ser a de um Espírito infeliz.
Arrependendo-se, resta-lhe a reparação de uma outra existência. Mas, antes de lá chegar, sabeis qual a existência desses homens de vida sensual que não deram ao Espírito outra atividade além da invenção de novos prazeres?
A influência da matéria segue-os além-túmulo, sem que a morte lhes ponha termo aos apetites que a sua vista, tão limitada como quando na Terra, procura em vão os meios de os saciar. Por não terem nunca procurado alimento espiritual, a alma erra no vácuo, sem norte, sem esperança, presa dessa ansiedade de quem não tem diante de si mais que um deserto sem limites. A inexistência das lucubrações espirituais acarreta naturalmente a nulidade do trabalho espiritual depois da morte; e porque não lhe restem meios de saciar o corpo, nada restará para satisfazer o Espírito.
Daí, um tédio mortal cujo termo não prevêem e ao qual prefeririam o nada. Mas o nada não existe... Puderam matar o corpo, mas não podem aniquilar o Espírito. Importa pois que vivam nessas torturas morais, até que, vencidos pelo cansaço, se decidam a volver os olhos para Deus.

Lisbeth

(Bordéus, 13 de fevereiro de 1862)
Um Espírito sofredor inscreve-se com o nome de Lisbeth.
1. - Quereis dar-nos algumas informações a respeito da vossa posição, assim como da causa dos vossos sofrimentos?
- R. Sede humilde de coração, submisso à vontade de Deus, paciente na provação, caridoso para com o pobre, consolador do fraco, sensível a todos os sofrimentos e não sofrereis as torturas que amargo.
2. - Pareceis sentir as falhas decorrentes de contrário procedimento... O arrependimento deverá dar-vos alívio?
- R. Não: - O arrependimento é inútil quando apenas produzido pelo sofrimento. O arrependimento profícuo tem por base a mágoa de haver ofendido a Deus, e importa no desejo ardente de uma reparação. Ainda não posso tanto, infelizmente. Recomendai-me às preces de quantos se interessam pelos sofrimentos alheios, porque delas tenho necessidade.
Nota - Este ensinamento é uma grande verdade; às vezes o sofrimento provoca um brado de arrependimento menos sincero, que não é a expressão de pesar pela prática do mal, visto como, se o Espírito deixasse de sofrer, não duvidaria reencetá-la. Eis por que o arrependimento nem sempre acarreta a imediata libertação do Espírito. Predispõe-no, porém, para ela - eis tudo.
É-lhe preciso, além disso, provar a sinceridade e firmeza da resolução, por meio de novas provações reparadoras do mal praticado.
Meditando-se cuidadosamente sobre todos os exemplos que citamos, encontrar-se-á nas palavras dos Espíritos mesmo dos mais inferiores profundos ensinamentos, pondo-nos a par dos mais íntimos pormenores da vida espiritual. O homem superficial pode não ver nesses exemplos mais que pitorescas narrativas; mas o homem sério e refletido encontrará neles abundante manancial de estudos.
3. - Farei o que desejais. Podereis dar-me alguns pormenores da vossa última existência corporal? Daí talvez nos advenha um ensinamento útil e assim tomareis proveitoso o arrependimento.
(O Espírito vacila na resposta, não só desta pergunta, como de algumas das que se seguem.) -
R. Tive um nascimento de elevada condição. Possuía tudo o que os homens julgam a fonte da felicidade. Rica, tornei-me egoísta; bela, fui vaidosa, insensível, hipócrita; nobre, era ambiciosa. Calquei ao meu poderio os que se me não rolavam aos pés e oprimia ainda mais os que sob eles se colocavam, esquecida de que também a cólera do Senhor esmaga, cedo ou tarde, as mais altivas frontes.
4 - Em que época vivestes? -
R. Há cento e cinqüenta anos, na Prússia.
5. - Desde então não fizestes progresso algum como Espírito?
- R. Não; a matéria revoltava-se sempre, e tu não podes avaliar a influência que ela ainda exerce sobre mim, a despeito da separação do corpo. O orgulho agrilhoa-nos a brônzeas cadeias, cujos anéis mais e mais comprimem o mísero que lhe hipoteca o coração. O orgulho, hidra de cem cabeças a renovarem-se incessantes, modulando silvos empeçonhados que chegam a parecer celeste harmonia! O orgulho - esse demônio multiforme que se amolda a todas as aberrações do Espírito, que se oculta em todos os refolhos do coração; que penetra as velas; que absorve e arrasta às trevas da eterna geena!... Oh! sim. . eterna!
Nota - Provavelmente, o Espírito diz não ter feito progresso algum, por ser a sua situação sempre penosa; a maneira pela qual descreve o orgulho e lhe deplora as conseqüências é, incontestavelmente, um progresso. Certo, quando encarnado e mesmo logo após a morte, ele não poderia raciocinar assim. Compreende o mal, o que já é alguma coisa, e a coragem e o propósito de o evitar lhe advirão mais tarde.
6. - Deus é muito bom para não condenar seus filhos a penas eternas. Confiai na sua misericórdia.
- R. Dizem que isto pode ter um termo, mas onde e quando? Há muito que o procuro e só vejo sofrimento, sempre, sempre, sempre!
7. - Como viestes hoje aqui?
- R. Conduzida por um Espírito que me acompanha muitas vezes.
- P. Desde quando o vedes, a esse Espírito? - R. Não há muito tempo.
- P. E desde quando tendes consciência das faltas que cometestes? - R. (Depois de longa reflexão.) Sim, tendes razão: foi dai para cá que principiei a vê-lo.
8. - Compreendeis agora a relação existente entre o arrependimento e o auxílio prestado por vosso protetor? Tomai por origem desse apoio o amor de Deus, cujo fim será o seu perdão e misericórdia infinitos.
- R. Oh! como desejaria que assim fosse. -Creio poder prometer no nome, aliás sacratíssimo, dAquele que jamais foi surdo à voz dos filhos aflitos.
9. - Pedi de coração e sereis ouvida.
- R. Não posso; tenho medo. - Oremos juntos, Ele nos atenderá. (Depois da prece.) Ainda estais ai? - R. Sim. Obrigada! Não me esqueçais.
10. - Vinde inscrever-vos aqui todos os dias.
- R. Sim, sim, virei sempre.
O guia do médium. - Nunca esqueçais os ensinos que bebeis nos sofrimentos dos vossos protegidos e notadamente nas suas causas, visto serem lição que a todos aproveita no sentido de se preservarem dos mesmos perigos e de idênticos castigos. Purificai os corações, sede humildes, amai-vos e ajudai-vos sem esquecerdes jamais a fonte de todas as graças, fonte inesgotável na qual podem todos saciar-se à vontade, fonte de água viva que desaltera e alimenta igualmente, fonte de vida e ventura eterna. Ide a ela, meus amigos, e bebei com fé. Mergulhai nela as vossas vasilhas, que sairão de suas ondas pejadas de bênçãos. Adverti vossos irmãos dos perigos em que podem incorrer. Difundi as bênçãos do Senhor, que se reproduzem incessantes; e quanto mais as propagardes, tanto mais se multiplicarão Está em vossas mãos a tarefa, porquanto, dizendo aos vossos irmãos - aí estão os perigos, lá os escolhos; vinde conosco a fim de os evitar; imitai-nos a nós que damos o exemplo - assim difundíreis as bênçãos do Senhor sobre os que vos ouvirem.
Abençoados sejam os vossos esforços. O Senhor ama os corações puros: fazei por merecer-lhe o amor. Saint Paulin.

terça-feira, 5 de março de 2013

Uma releitura.


Acabei de reler “Meditações” de Marco Aurélio. Uma das obras mais sábias  que li em minha vida. A obra denota cultura, superioridade moral, amor à filosofia e valorização do espírito. Porém, é um livro triste. Ao findar a leitura fica-se com um ressaibo na alma, um sentimento de amargura invade o coração.
É um fato que as almas verdadeiramente sábias são tristes. Não é difícil compreender isto. Estas almas são perspicazes, enxergam a verdade sem o véu da ignorância e ilusão que obscurece a visão da maioria. Percebem claramente a baixeza humana por trás das motivações de qualquer ação humana. São moral e intelectualmente superiores à maioria, feitos com um material melhor. Assim era Marco Aurélio.
Marco Aurélio foi imperador de Roma no século dois depois de Cristo. Outros em seu lugar facilmente resvalariam – como prova a história - no lodo das vaidades e ambições mundanas. Perdoemos sua perseguição aos cristãos, assim como perdoamos a Paulo de Tarso antes da conversão cristã.
Marco Aurélio era estoico. Poucas vezes uma pessoa simpatizou tão bem a uma filosofia, como ele ao estoicismo.
O estoicismo é uma filosofia séria e corajosa, mas fria, resvala facilmente à insensibilidade. Seus preceitos são racionais e superiores, porém falta calor, emoção. A humanidade jamais sentirá totalmente satisfeita com qualquer filosofia à qual falta as virtudes do coração, por mais sábia que seja.
 Há dentro de nós um coração pulsante e quente. Um coração que ama, sofre e sente. Este coração precisa ser alimentado pelo sentimento, caso contrário morrerá faminto aos pés da fria razão.
Portanto, saudemos a alegria, ainda que sofrida, ainda que na forma de esperança.
Se hoje tudo desaba em nossa vida, se a dor aflige, vamos cultivar a fé que remove montanhas, pois a fé é a companheira dileta da esperança.

domingo, 3 de março de 2013

Obras primas: outros parâmetros.


Sempre fui apaixonado por cultura, amo os livros. Esta paixão pelo conhecimento dura há muitos anos. Minha alma precisa de livros como o corpo de alimentos.
As obras primas clássicas universais me impressionaram por sua genialidade, profundeza, beleza, perfeição técnica e sublimidade.
Fiquei sem palavras ao terminar a leitura da “Odisséia” de Homero.
Maravilhado fiquei com a beleza e perfeição técnica de Sófocles.
Minha alma parecia estar nadando em um mar de luz e beleza ao ler “A divina comédia” de Dante.
Sentia-me no céu entre anjos ao ler “O paraíso perdido” de Milton.
Assombrado me deixou o gênio de Aristóteles, A sabedoria de Sócrates, Cícero, Sêneca.
Deslumbrada minha alma ficou com a sublime sabedoria e genialidade de Santo Agostinho.
Montaigne, Descartes, Pascal iluminaram minha alma com suas obras geniais.
O portentoso gênio de Shakespeare marcou-me para sempre.
Rousseau com sua cultura, inteligência penetrante, coragem e sagacidade genial marcou-me profundamente.
Goethe também me deixou sem palavras ao terminar de ler “Fausto”.
Os gênios de Balzac, Maupassant, Stendhal, marcaram minha alma definitivamente.
Jamais esquecerei a beleza, a harmonia, a perfeição de “Madame Bovary” do genial Flaubert.
A profundidade genial de Dostoievski, a beleza de Tchecov deixaram marcas impagáveis em minha memória.
Sem palavras também fiquei ao terminar de ler “Guerra e paz” de Tolstói.
Todos os escritores mencionados acima são gênios reconhecidos universalmente, mas há outras obras que encantaram minha alma devido a outros parâmetros.
Li um livro de uma autora americana publicado no Brasil com o título “Rapazes pobres que venceram na vida”, o qual me encantou profundamente. A autora descreve a luta custosa de várias pessoas às quais apesar de obstáculos imensos, venceram. O tema da obra é comum, mas a autora descreve com uma ternura, um encanto comovente, uma expressão humana que toca até o fundo da alma. O livro é uma obra prima de ternura e encantamento.
Outro livro, de título “Vida e Trabalho”, escrito por um autor do século dezenove de nome Samuel Smiles, também me encantou o coração por sua comovente expressão humana, uma beleza genuína e pura.
Estas obras despretensiosas são obras primas do coração elas embelezam o mundo como anjos ocultos.

sábado, 2 de março de 2013

Bela Prece.


No momento solene volita nos espaços um hálito divino. O pensamento, permeado pelo grande mistério, olha e recolhe-se em oração.

   Orai assim:

   "Adoro-te, recôndito Eu do universo, alma do Todo, Meu Pai e Pai de todas as coisas, minha respiração e respiração de todas as coisas.

   Adoro-te, indestrutível essência, sempre presente no espaço, no tempo e além, no infinito.

   Pai, amo-te, mesmo quando Tua respiração é dor, porque Tua dor é amor; mesmo quando Tua Lei é esforço, porque o esforço que tua Lei impõe é o caminho das ascensões humanas.

   Pai, mergulho em Tua potência, nela repouso e me abandono, peço à fonte o alimento que me sustente.

   Procuro-te no âmago onde Tu estás, de onde me atrais. Sinto-Te no infinito que não atinjo e donde me chamas. Não Te vejo e, no entanto, ofuscas-me com Tua luz; não Te ouço, mas sinto o tom de Tua Voz; não sei onde estás, mas encontro-Te a cada passo, esqueço-Te e Te ignoro, no entanto, ouço-Te em toda a minha palpitação. Não sei individuar-Te, mas gravito em torno de Ti, como gravitam todas as coisas, em busca de Ti, centro do universo.

   Potência invisível que diriges os mundos e as vidas, Tu estás em Tua essência acima de toda a minha concepção. Que serás Tu, que não sei descrever nem definir, se apenas o reflexo de Tuas obras me enceguece? Que serás Tu, se já me assombra a incomensurável complexidade desta Tua emanação, pequena centelha espiritual que me anima integralmente? O homem Te busca na Ciência, invoca-Te na dor, Te bendiz na alegria. Mas na grandiosidade de Tua potência, como na bondade de Teu amor, estás sempre além, além de todo o pensamento humano, acima das formas e do devenir, um lampejo do infinito.

   No ribombar da tempestade está Deus; na carícia do humilde está Deus; na evolução do turbilhão atômico, na arrancada das formas dinâmicas, na vitória da vida e do espírito, está Deus. Na alegria e na dor, na vida e na morte, no bem e no mal, está Deus; um Deus sem limites, que tudo abarca, estreita e domina, até mesmo as aparências dos contrários, que guia para seus fins supremos.

   E o ser sobe, de forma em forma, ansioso por conhecer-Te, buscando uma realização cada vez mais completa de Teu pensamento, tradução em ato de Tua essência.

   Adoro-Te, supremo princípio do Todo, em Teu revestimento de matéria, em Tua manifestação de energia; no inexaurível renovar-se de formas sempre novas e sempre belas; eu Te adoro, conceito sempre novo, bom e belo, inesgotável Lei animadora do universo. Adoro-Te grande Todo, ilimitado além de todos os limites de meu ser.

   Nesta adoração, aniquilo-me e me alimento, humilho-me e me incendeio; fundo-me na Grande Unidade, coordeno-me na grande Lei, a fim de que minha ação seja sempre harmonia, ascensão, oração, amor.

   Orai assim, no silêncio das coisas, olhando sobretudo para o âmago que está dentro de vós. Orai com espírito puro, com intenso arrebatamento, com poderosa fé, e a radiação anímica, harmoniosamente sintonizada com grande vibração, invadirá os espaços. E ouvireis uma voz de conforto, que vos chegará do infinito.

  Da obra "A grande síntese". Marco monumental do conhecimento humano.