Luz.

Luz.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Texto do livro "A descida dos ideais" de Pietro Ubaldi.


06 - SINAIS DO TEMPO - JEAN PAUL SARTRE
 
Trata-se de um pequeno caso, adequado, no entanto, a revelar-nos as condições espirituais de nosso mundo atual. Isto é o que mais interessa observar. O Prêmio Nobel de Literatura de 1964 foi outorgado a Jean-Paul Sartre. Quem era Sartre?

Em primeiro lugar, é absurdo negar a existência de Deus, como o faz Sartre. De uma coisa que verdadeiramente não existe, não se possui sequer a idéia; quando se nega a sua existência, porque essa coisa é conhecida, logo existe. Quanto mais se nega a existência, tanto mais o próprio fato de negá-la prova que ela existe. Mas, então, o que se quer negar quando se nega a Deus? Pretende-se somente destruir com a própria negação, nunca a existência de Deus; é impossível negá-la, porque ela não depende das nossas opiniões; fácil é destruir a afirmação alheia da sua existência, isto é, a idéia alheia de que Deus existe. Isto não passa de uma guerra entre opostos pensamentos humanos, com eles a existência objetiva de Deus nada tem a ver. Deus assim continua existindo independentemente das afirmações ou negações humanas, que não vão além de quem as expressa, e naturalmente, nenhum poder tem sobre a existência de Deus.

A negação de Sartre não tem bases objetivas, não é o resultado positivo das suas observações baseadas nos fatos e de deduções racionais deles extraídas. A sua negação é simplesmente um estado psicológico seu, reação aos duros sofrimentos que encontrou na vida. Arrastado pela segunda guerra mundial, na sua terra invadida, oprimido e isolado, forçado ao silêncio, a uma vida subterrânea, num ambiente inimigo, prisioneiro num campo alemão de concentração, cavou dentro de si, no seu eu, e extraiu essa filosofia desesperada que se chama existencialismo. Os seus romances apresentam uma série de crises emocionais, tristemente vividas por pessoas atormentadas. A sua mais importante obra filosófica é um tratado com cerca de 700 páginas, intitulado: L’être et le Néant.

“Diz-me como reages e direi quem és”. Golpes na vida há para todos. Cada indivíduo reage diante deles, de forma distinta, e com isso revela a sua verdadeira natureza. Não sendo positiva a sua filosofia, a única coisa que Sartre pode nos oferecer é mostrar-nos seu tipo de reação. Ao expressá-la, atribui a causa a Deus, ao abso-luto, à filosofia, ao mundo; em realidade não expressou senão a sua reação pessoal, não fez mais do que revelar-se a si próprio, elevando a sistema filosófico o que era a premissa axiomática, indiscutível, de cada afirmação sua, isto é, a sua forma mental, o seu temperamento, o seu tipo de personalidade e, portanto, de reação. Pode-se afirmar isto porque em iguais condições de opressão e de dor, outros indivíduos, de diferente estrutura mental e moral, reagem de um modo totalmente diverso, fazendo aflorar elementos opostos aos negativos, respondendo, em lugar de uma reação egocêntrica contra Deus, com a afirmação de Sua ordem vitoriosa sobre o mal, reencontrando nessa ordem, em defesa da própria vida, o manancial da própria potência espiritual.

Então, a filosofia de Sartre não é uma filosofia de potência, apoiada em bases positivas, mas de fraqueza porque se apóia sobre base negativa, tal como o egocentrismo do indivíduo que se auto-eleva pretendendo substituir-se por Deus; não é uma filosofia de esperança e salvação, mas de desespero e perdição; não é a filosofia de quem vence, mas de quem fica derrotado na luta pela sobrevivência. A própria vida, medindo-a com o seu metro biológico positivo, condena tal filosofia negativa, perante o supremo fim da sobrevivência, como sendo uma coisa gasta, decadente, antivital. Nietzsche, outro negador de Deus, teve pelo menos uma fé, se bem que emborcada, involuída, mas poderosa e vital: fé num super-homem bestial, tentativa de herói satânico, que tem a força de erguer-se diante de Deus como um desafio, possuindo a coragem de conduzir, sozinho contra todos, uma luta sobre-humana para se manter e vencer em posição de anti-Deus, dominador do caos.

Em Sartre não há sequer esta força positiva, invo-luída, horrorosa, mas tentativa de potência e grandeza. Em Sartre a vida retrocedeu um passo a mais em direção à anulação. Ele expressa e personifica o processo humano, que está em ação, de destruição dos mais altos valores morais, única perspectiva de um futuro melhor, esperança a que a vida se aferra, antecipação do ideal ao longo do caminho da evolução para dar-se a força de chegar até lá. Em lugar de avançar para ascender e viver sempre mais, Sartre nos canta a marcha fúnebre da vida. Em lugar de despertar o espírito com altos conceitos vivificantes, a mente se esvazia no nada, a alma se apaga sem esperança, tudo se afunda na negação. Sartre se enxerta na anulação espiritual e moral dos tempos modernos, que ele simboliza e reflete, descendo ainda mais do que Nietzsche. A pintura, a escultura, a música, nas suas loucas expressões, negadoras de todo o princípio de harmonia e beleza, feitas de deformações involuídas que se querem fazer passar por profundos conceitos, também as formas da arte e do pensamento encontram-se hoje em fase de destrucionismo. Vivemos na época das demolições.

É verdade que a velha casa está podre e se está destruindo. Mas a vida ao negativo é morte. Em nossos dias, à negação há que contrapor uma paralela afirmação que permite à vida ressuscitar noutra forma. De momento não se vêem sinais de reconstrução de uma nova casa, ela no entanto, é necessária para se poder viver em qualquer lugar. Sartre é simplesmente um destruidor que tende ao vazio, através da anulação das idéias fundamentais, fruto do trabalho milenar que conduziu à conquista dos mais altos valores da humanidade; perante a evolução, inclusive biológica, são de primeira necessidade. Os homens práticos, de ação, poderão zombar destas afirmações, para eles teóricas e fora da realidade da vida. Mas não sabem que a demolição espiritual implica, como consequência, na demolição material, representando a última fase do mesmo processo de destrucionismo, e, nesta forma concreta, faz-se compreensível a todos, quando não for demasiado tarde para deter o movimento. Mesmo que o mundo não o compreenda, a destruição dos valores espirituais leva à destruição dos materiais, valores estes que constituem o mais precioso tesouro para o homem atual; ele próprio a provoca com a inconsciência de uma criança que, brincando com um revólver carregado, poderá matar-se a qualquer momento. Para melhor satisfazer a voracidade do estômago, é mais prático e de tangível utilidade imediata eliminar o esforço de fazer o trabalho de alimentar o cérebro. Assim se goza e se engorda. Possuirá, porventura, o estômago a sabedoria e a consciência para dirigir os movimentos do corpo? Onde irá terminar se for abandonado a si próprio? Como a defesa e a sobrevivência do corpo depende de um guia, o cérebro que o move, também a conservação dos bens materiais depende da existência das diretivas espirituais. Hoje, neste mundo, devido à potência dos meios destrutivos, é necessário redobrado juízo para não acabar matando-nos a todos, à força de desapiedados egoísmos. Vai-se perdendo a cabeça ao eliminar esses freios espirituais, feitos de ordem e justiça, que são os mais aptos a salvar-nos.

É alarmante que o mundo tenha respondido à tendência destrucionista de Sartre, não reagindo ou rebelando-se, mas seguindo-o; é também grave porque prova que o mal não é a exceção de um caso individual, mas é um fato coletivo, dado por uma corrente psicológica, expressa com a filosofia da moda, que se chama existencialismo. Se não se trata de um caso isolado e isolável, se o mundo aceita Sartre, se este é o tipo de pensamento que a Europa, à frente, lança como modelo de vida, a Europa que representa o ponto mentalmente mais avançado, o cérebro do mundo, então, devemos crer que tudo está se desfazendo, porque o cérebro está gasto e se vai à deriva sem diretivas. Estamos, pois, em fase de involução, em lugar de evolução; caminha-se para trás em lugar de ir para diante. Quem conhece as leis da vida sabe que terrível coisa significa, em termos de embrutecimento e dor, um retrocesso involutivo. Quando a cabeça se põe e olha para trás, todo o corpo a segue e se põe a caminhar em sua direção. Quando há reação ao mal, este entra e vence, destruindo o organismo. Quando na alta cultura, encontra ressonância, isto é corrosivo e destrutivo, então é a vida mesma que está ameaçada nas suas primeiras origens espirituais. Isto não é questão de fé, desta ou daquela opinião. Falamos em termos de uma biologia positiva do espírito, para quem a conhece, é cientificamente controlável. Quando vemos que os bons exemplos passam inadvertidos, sem despertar eco algum nos espíritos, quando vemos que os maus exemplos são espontaneamente seguidos, despertando ecos, interessando à crítica, encontrando seguidores, então devemos concluir: precipita-se pelo caminho da negação e o pior está por acontecer, porque se vai em direção ao vazio e ao nada, onde a vida se apaga.

O fato de o Prêmio Nobel de Literatura ter sido, neste ano de 1964, conferido a Sartre, prêmio que representa o pensamento oficial, julgando o melhor produzido em nosso tempo, confirma as precedentes afirmações, daí haver motivo para crer-se que foi conferido em sentido oposto ao desejado pelo próprio Alfred Nobel, fundador do prêmio. Pode-se assim compreender o erro e seu perigo que este estímulo representa. Não se trata apenas de ter tirado uma ajuda aos construtores, mas de ter ajudado aos destruidores, acelerando a velocidade na descida. Não se pode deixar de ver em tudo isto uma vingança histórica lançada em direção destrutiva, que se liga no campo espiritual, enquanto no terreno material se está preparando com a contínua e sempre mais difundida construção de bombas atômicas. Assim, o destrucionismo no campo espiritual chegará até às últimas consequências no campo material. Vivemos num universo em que tudo está ligado e repercute de um pólo ao outro, de modo que nenhum movimento se pode isolar das suas repercussões.

Falamos de vingança histórica. Não é possível que a ameaça de um cataclismo possa ser justificado como resultado somente da agilidade ou inexperiência de quem o provoca.

Mesmo se na superfície for o contrário, o que rege na profundidade da vida é um princípio de justiça, pelo qual o que nos acontece, em bem ou em mal, é merecido. Então perguntamo-nos: quando, durante séculos, acumularam-se erros e culpas e se continua a cometê-los, hoje, acrescentando-se potência a requinte? Quando o pensamento filosófico, em lugar de dirigir, é um cancro que corrói, enquanto a ciência, o mais alto produto da inteligência, prepara a destruição da humanidade? Perguntamo-nos, ainda, se não será merecido e fatal, o destino que cada um terá de cumprir-se? Há quem creia: basta negar uma coisa para que ela deixe de existir, basta ignorar as leis da vida para que elas deixem de funcionar!

Já falamos de uma grande alma, Teilhard de Chardin, que trabalhou no sentido oposto, construtivo, para trazer um ideal à Terra e não para destruir os vestígios de outros; para fazer-nos avançar evolutivamente, e não para retroceder. Como cientista, procurou trazer-nos Cristo pelas vias positivas da observação e da lógica. Mesmo assim, foi condenado, pela sua Igreja, ao silêncio e a morrer tristemente no exílio. Eis o tratamento que em nosso mundo obtêm os construtores. No entanto, são indispensáveis à vida para compensar o trabalho dos destruidores, tendentes a deixá-la abandonada no vazio. Junto aos cemitérios cheios de túmulos, é necessária uma contínua produção de recém-nascidos. Vive-se enquanto se caminha. Livremo-nos de parar ou retroceder, A Igreja segue o mesmo caminho e se alia com os distribuidores do Prêmio Nobel, em sentido oposto, executando o mesmo movimento que conduz ao mesmo resultado. Tudo caminha, na mesma direção negativa, seja no caso de Sartre, como no de Teilhard de Chardin; estimulando o mal, por um lado, obstaculizando o bem, por outro. O ponto de chegada é o mesmo. Impulsiona-se o avanço dos destruidores, paralisa-se a obra dos construtores. Colabora-se em plena concórdia. A conclusão não pode ser senão uma só, ou seja, a que explicamos. Quando se trata de uma vingança histórica e, portanto, de um destino, porque foi merecido, este torna-se fatal; quando se optou pela corrida em descida e já não é possível deter-se, então sucede que ficamos cegos, para que a lei se cumpra; não somos capazes de ver o perigo, nem a própria salvação. Talvez, nesta cegueira, necessária para que se faça justiça, consista o drama do atual momento histórico.

Sim! Neguemos os valores superiores! Emborquemos as partes. Em lugar de colocar o estômago a serviço do cérebro, coloquemos o cérebro a serviço do estômago. Abandonemos o leme da vida, deixemo-la sem diretivas ir à deriva em lugar de guiá-la com sabedoria, mantendo-a ao longo do caminho da evolução, o da salvação. Onde pode ir bater um automóvel numa corrida, quando o chofer está enlouquecido? Esqueçamo-nos da fundamental função biológica de orientação que os ideais cumprem para nos levar em direção ao melhor. Assim seremos presos no vórtice espantoso dos retrocessos involutivos que se fecha em espirais cada vez mais estreitas até chegar ao fim da destruição da raça humana, se esta demonstra ser inepta para a vida. A vida já destruiu tipos biológicos que se colocaram nessas condições, sabemos ser este o seu sistema e, portanto, está pronta a fazê-lo também com o homem. Tornemo-nos loucos, pois. Mas a vida não brinca.

Há dois milênios que o cristianismo luta para civilizar o homem, com um trabalho paralelo ao das religiões irmãs nos outros continentes. Agora deixam-nos desencadear de novo a besta, uma besta que não só possui dentes caninos e garras, flechas e espadas, mas também bombas atômicas! Premiai os destruidores! Que o mundo os clame e os siga! Sufocai os construtores, fazendo-os morrer sepultados no silêncio! Ciência, filosofia e religião, parece que todos ignoram as leis que reagem a estes erros, com Deus ou ignorando Deus, estas leis funcionam, feitas de forças invencíveis que atuam segundo princípios que nenhuma negação pode anular; forças, alimento vital, que exaltam a quem trabalha segundo a sua ordem; negando-se, esmagam a quem tenta rebelar-se, indo contra a sua corrente. Negai, negai! Negareis antes de tudo a vós próprios. Destruí e sereis destruídos. O que lançais para fora de vós, cairá sobre vós. Este é o produto da sua semeadura hoje, pesando sobre o mundo. Ninguém pode escapar às consequências do que foi feito, merecido por nós. De nada serve negar. Os erros se pagam da mesma forma. Como se as opiniões humanas tivessem o poder de alterar a estrutura da existência e as leis que dirigem o seu funcionamento! Sim, proclamemo-nos livres! Experimentemos violar as leis da vida, e veremos logo o que sucede. A nossa cegueira pode-nos fazer crer que sabemos vencer. Mas, quando pela nossa astúcia imaginarmos ter enganado a Deus, então, tudo cairá em cima de nós. Destruamos os alicerces da casa da vida, superiores valores do espírito, e veremos o nosso fim. Tanta fome de liberdade, mas é só fome de animalidade; é impulso em direção negativa, para retroceder e ficar em baixo, eximindo-se da fatigante disciplina da evolução. Retroceder significa voltar aos níveis evolutivos mais baixos, onde a vida é mais dura; significa involuir até ao estado feroz da besta. Quem sabe se não é este o futuro para o qual a humanidade se está preparando?

O momento é tremendo. Os velhos valores esgotam a sua tarefa e funcionam com esforço. Os novos não se vêem surgir. Que diretivas daremos ao caminho da vida? Concordamos que se abusou tanto dos velhos ideais que hoje, na sua forma atual, já não servem, embora haja o que renovar-se. Mas para renovar-se há que substituí-los com o melhor e não com o pior. Para retroceder, é melhor não se mover. Se não avançamos em direção aos valores superiores, continuando o caminho neste sentido, retrocede-se até ao nível animal. Em certo momento, oferecem-nos um existencialismo ateu e pessimista, como sistema filosófico levado a conclusões éticas, com pretensões de moralista! Deseja-se encher o vazio com o vazio. Oferece-se como diretiva uma ausência de diretivas, ou pior, uma diretiva em descida, que acelera a destruição. Esta é a vitalidade do câncer. Até este é movido por um impulso de multiplicação vital. Mas em que sentido? No sentido da auto-anulação. Temos pois uma filosofia emborcada, dirigida a destruição da vida, porque nega o espírito, que é vida, e faz-nos retroceder para mais longe de sua meta, Deus, ponto ao qual tende a evolução. Num momento crítico, é necessário um impulso para diante, porém, é dado um impulso para trás com a oferta de um banquete de pseudo-valores e de negatividade destruidora!

Em Sartre, não encontramos uma revalorização de valores, mas uma sua desvalorização. A destruição, quando é necessária, é admirável só como condição, primeiro momento, de uma paralela reconstrução. Aqui falta o segundo termo que justifica o primeiro. Isto é nihilismo, é a desagregação do existir, é o triunfo do não-ser. É necessário, pelo contrário, saber reconstruir, ter a força de subir, se não queremos deter a nossa evolução na qual está a salvação. É certo que estamos carregados com todos os erros do passado, mas vivemos para não os cometer mais; estamos cheios de imperfeições, mas vivemos para aperfeiçoar-nos; o mundo está cheio de falsos cultos e de ideais prostituídos ao interesse, mas vivemos para purificar-nos e aproximar-nos sempre mais de Deus. Sobretudo, no momento atual, temos necessidade de uma filosofia sã, vivificadora, saneadora, cheia de valores vitais; ao contrário, no seu lugar é nos oferecida uma filosofia cheia de ansiedade e de desespero, que não resolve problema algum. A negação mata, não saneia. Uma filosofia feita de pessimismo não pode cumprir funções vitais e curativas. A angústia só abate. Nada se pode construir sobre um estado de espírito apreensivo. Poderíamos ver neste fato a verdadeira face do mundo, que assim nos aparece com uma expressão de angústia. Mas esta é a tristeza de quem perdeu o caminho da evolução e com ele a esperança da salvação e se encontra perdido, só, no deserto. Corresponderia à face do pensador, que representa a intelectualidade dirigente, o dever de orientar o caminhante desviado. Ao contrário, faz sua esta angústia, deixando-se arrastar, e a apresentar como sistema filo-sófico. Mas quem assume a função diretiva, do médico, tem o dever de curar e tratar de dar saúde ao doente. Se, pelo contrário, adoece com ele, usa o mesmo leito, ele preparando-se também para morrer, esse médico, mais doente do que o doente, não serve, para ele não há mais possibilidade de salvação.

Assim caminha o mundo de hoje, indiferente ao seu eterno destino, sem entender ao profundo significado da existência e à sua suprema finalidade. É absurdo dizer: “(...) a existência febril, impossível que se chame destino (...)”, quando isso significa, para quem queira, a ascensão ao céu, a conquista de uma existência superior. É natural: quem segue a filosofia da anulação encontra-se isolado, aniquilado, perdido no vazio, oprimido pela angústia, na qual a vida chora o seu fracasso. A negação a entristece porque a vida está feita para afirmar. Este é o sofrimento dos autocondenados à morte, que repeliram a supervida do espírito. Esta é a sorte das almas vazias, dissecadas, congeladas, amantes da negação. A vida que se faz poderosa no espírito, nada teme: na morte está cheia de alegria da ressurreição, na dor está rica de esperança, não conhece a angústia do vazio, porque é ativa em cada instante pelo trabalho da própria superação, na conquista por meio da evolução. Uma tal vida é dinâmica, criadora em cada momento, iluminada pelo conhecimento, poderosa de recursos interiores, jubilosa por suas realizações que a levam cada dia mais alto.

Negando Deus, em Sartre, na dor fica só a angústia. É o pranto da alma arrancada da primeira fonte de sua vida, sem meta e sem esperança de salvação. Em Teilhard de Chardin, junto a Deus, na dor permanece a consciência de uma supervida, do sofrimento ressurge-se na alegria. É a alegria da alma que se une cada vez mais à sua fonte de vida. Quando a selva arde, é natural que o pássaro, com a sua evolução fabricou as asas, possa voar para longe e se salve; ninguém pode evitar que o verme morra, porque, mais atrasado, ainda não chegou a construir tais meios. As leis da vida continuam funcionando mesmo para quem as ignora ou as nega.

                        *

Perante Sartre e o existencialismo, fixemos clara-mente a nossa posição. Não estamos do lado negativo dos destruidores dos valores espirituais, mas do lado positivo, afirmativo dos construtores. A nossa filosofia, por ser feita de esperança e de coragem, está no pólo oposto à de Sartre, feita de pessimismo e de desespero. Para nós, o ideal não é de ilusão e traição, mas, qual antecipação de evolução, representa um positivo valor biológico. Para nós a afirmação da existência de Deus não é o produto de uma fé, mas é uma certeza derivada da constatação da presença de uma suprema Inteligência anteposta ao funcionamento orgânico do universo. Dizemos com Sartre que o homem é um desgraçado, mas acrescentamos que ele pode e deve superar a sua desgraça. Constatamos as dores do mundo, mas nem por isto nos deixamos vencer, abandonando-nos na inércia, porque compreendemos a sua função criadora, impomo-nos, pelo contrário, o esforço de superá-las, isto depende de nós e é possível, porque assim o querem as leis da vida e está escrito o que se deverá realizar no futuro, por evolução. Trata-se de conceitos que, noutros lugares, largamente ilustramos e demonstramos. A nossa atitude é ativa, de quem caminha em direção à vida; não é passiva, de quem se deixa ir para a morte.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Texto do livro "A grande síntese." Apogeu culminante do conhecimento humano.

Vós vos prendeis à forma; acreditais que sois matéria; quereríeis paralisar esse maravilhoso movimento; para prolongar a ilusão de um dia, gostaríeis de parar a marcha estupenda. Mas possuís, além da juventude do corpo, a inexaurível e eterna juventude de uma vida maior, não a terrena. Naquela sois indestrutíveis, eternamente novos e progressistas, sois jovens, não no corpo caduco, mas no espírito eterno. Não deis importância às alvoradas e aos crepúsculos de um dia, pois cada crepúsculo prepara nova aurora. É lógica simplicíssima, evidente lei de equilíbrio esta, pela qual tudo o que nasce, morre, mas também tudo o que morre tem de renascer.
Não vos iludais a vós mesmos; não percais um tempo precioso no esforço inútil de tentar parar a vida. A beleza da mulher deve servir à maternidade; a força do homem é feita para desgastar-se no trabalho. Só quando não tiverdes fraudado a Lei, mas houverdes criado de acordo com sua ordem, vosso tempo "não será passado" e não tereis lamentações. Se pedis o absurdo, tereis que colher ilusões. Colocai-vos no movimento, não na imobilidade. Desembaraçai vosso pensamento do passado que vos prende. Superai-o. O passado morreu e contém o menos. Interessa o futuro, que contém o mais. A sabedoria não está no passado, mas no futuro. Só vossa ignorância pode fazer que acrediteis na possibilidade de violar e fraudar a Lei, de deter-lhe o caminho fatal. Se parais, o pensamento cristaliza-se, o tédio vos persegue, a satisfação de todas as necessidades, de todos os desejos vos torna ineptos; ócio significa morte por inanição. O repouso só é belo como pausa, como consequência de um trabalho anterior e condição de novo trabalho.
A necessidade de evoluir, imposta pela Lei, está gravada no mais profundo instinto de vossa alma: a insaciabilidade. A insatisfação que permanece no âmago de todas as vossas realizações, qualquer desejo satisfeito que vos faz debruçar para outro horizonte mais amplo, o descontentamento que vos atormenta logo que parais, o ilimitado poder de ambicionar, inato em vosso espírito, tudo vos diz que sois feitos para caminhar. Isso pode constituir ânsia e ilusão, mas é estrada de progresso, deixado? Considerai antes a vida como campo de adestramento, onde estais para temperar vossas forças, para provar vossas capacidades, para aprender novos caminhos, para aprofundar vossa consciência. Estais no mundo para construir não na areia, mas para edificar-vos a vós mesmos.
Não busqueis o absurdo de querer prender-vos definitivamente numa matéria instável e caduca; a troca que a vida a submete, não permite que sua imagem resista um instante. Desprezai a miragem das formas. O que existe fica e sobrevive à renovação contínua dos meios, o que verdadeiramente importa sois vós, vossa personalidade espiritual. Não façais do mundo um fim, pois é apenas um meio. Não invertais as posições e as funções. Não vos transformeis de senhores em servos. Caminhai. Lançai-vos à grande correnteza. A vida é feita para correr e avançar. Triste é o lamento do tempo perdido no sono, do tempo que não trouxe nenhum progresso e vos deixou para trás, estacionários; triste é o choro da alma que se vê iludida em sua maior necessidade, em que a Lei fala e exprime-se. Avançai, se não quiserdes que a correnteza vos ultrapasse e vos abandone. Sede insaciáveis, como Deus vos quer, trabalhando substancialmente, criando no bem, na eternidade.
Como podeis ser tão crianças, para acreditar que num universo tão perfeito a felicidade possa ser usurpada por vias transversas, com meios injustos? Trabalhai: procurai vossas alegrias, conquistai-as com vosso trabalho. Vossa alma jamais se alegrará com as maiores conquistas se não forem vossas, se não forem produto de vosso esforço, testemunho e medida de vossa capacidade. Mais que o resultado exterior, a alma quer a demonstração de seu íntimo poder, quer a prova de sua sabedoria progressiva, quer o obstáculo para poder vencê-lo, quer a prova constante de seu valor íntimo e indestrutível.
O resultado prático, concreto, na economia da vida, é quase um produto secundário e de refugo. Por isso, a Lei não cuida dele e, logo que sai das mãos do homem, abandona-o à mercê de forças de ordem inferior. Como é triste ver vosso contínuo esforço inútil para realizar-vos num mundo ingrato e rebelde, para imprimirdes na matéria o sopro de vossa alma eterna! Que trágico espetáculo, o inconciliável contraste entre a vontade e os meios, entre o pensamento e sua realização! Por causa dessa correspondência inadequada, dessa incurável impotência da matéria, as maiores almas, muitas vezes abatem-se exaustas aos pés de seus ideais, altos como rochas, cujos cimos resplandecem fora da Terra. Terra móvel e vã, que recolhe a ruína de todas as vossas grandezas humanas! E como podeis ainda insistir no doloroso jogo, ou concluir tristemente que nascestes apenas para colher ilusões?
Concebei a vida não mais na superfície, mas em sua realidade mais profunda, e se dissipará a condenação aparente; construí no espírito, que mantém eternamente as impressões, e vossas aspirações encontrarão eterna expressão.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Texto de "A grande síntese." Obra psicografada por Pietro Ubaldi


100 - A ARTE
 
Ao focalizar os problemas da fase a,  (Espírito) com minúcia, coloco no ápice deles a arte, como expressão suprema da alma humana. Nada espelha melhor a idéia dominante de uma época. Por vezes é graça e suavidade, doutras vezes, simplicidade e potência; ainda, profundidade de espírito puro, ou então, ouropel vazio de forma. Exprime sempre o pensamento humano que ascende ou decai, aproximando-se mais ou menos da grande ordem divina. O pensamento que ora ousa, ora repousa, ora é jovem, ora cansado, é primeiramente retilíneo e cortante como a força, depois, arredondamento de linhas, um esforço em descida, um inútil escorar-se do vazio na grandiosidade das formas. Estilo tranquilo ou audacioso, límpido ou confuso, cansado ou poderoso, representa sempre a face exterior da alma humana, do mistério do infinito que nela se agita. Como tudo o que existe tem um rosto, expressão de alma, uma revelação do pensamento divino em que o universo fala incessantemente, assim a arte é revelação de espírito, tanto mais valerá, quanto mais a forma for transparente e simples. Quanto menos se fizer sentir a si mesma, tanto mais a idéia será substancial e poderosa na eternidade, vinculada à lei, impondo-se à forma. Fenômeno estreitamente ligado às fases ascensionais ou às involuídas do espírito, a arte apaga-se quando o espírito adormece, porque só nele reside sua inspiração. A arte é espírito e a matéria a mata. O materialismo a matou, agora tem de renascer.

   Começareis de novo, com meios novos mas, acima de tudo, com uma idéia nova. O segredo de uma grande arte consiste em saber realizar o milagre da revelação do mistério das coisas; em saber exprimi-lo à luz dos sentidos, após íntima e profunda comunhão com o mistério que palpita na alma do artista. Este tem de ser um vidente, normal no supernormal, onde tudo é espírito e vossa concepção de vida comum não chega. A nova grande arte deve ser integral: presume o artista total, o super-homem que realizou sua maturação biológica; não o agnóstico, o meramente técnico, mas o espírito completo sob todos os aspectos. É indispensável que o homem tenha englobado em si a visão do universo, nela tenha atingido as mais profundas concepções de vida.

   O simples valor da técnica é dos períodos de decadência; a arte, cujo valor tenha passado da substância à forma, é a enfeitada e preciosa da decadência. Quem tem algo de substancial para dizer, di-lo na forma mais simples. Mas é preciso ter algo a dizer, uma grande visão e uma grande paixão na alma para que a forma não assuma a primazia. É necessário dominar esse revestimento do pensamento, estar prevenido defensivamente contra as hipertrofias do meio que sufoca o fim; impedir que a técnica, serva humilde do conceito, quando este era grande em suas origens e amadurecido até a perfeição, queira agora agigantar-se para sufocá-lo. A forma emerge da decadência. Quando a idéia se cansou, surge então a luta entre a vestimenta e a substância e, se esta cede, a outra cresce, invade e domina.

   Trata-se da substituição dos valores inferiores, quando os mais altos decaem. É a degradação do fenômeno artístico, que tem seus ciclos, que são os do fenômeno psíquico. Na evolução da arte, há uma espécie de inversão de relações. Quanta riqueza de conceitos na pobreza da forma nas origens, quanta riqueza da forma e pobreza de conceitos na decadência! Uma relação transforma-se gradualmente na outra. O ciclo evolutivo da técnica, nascido mais tarde e mais jovem que o ciclo evolutivo da idéia, sobrevive-lhe e o substitui; mas sua maturidade constitui descida do princípio animador da arte.

   A grande arte é simples. Sua grandeza é proporcional à potência do pensamento e à simplicidade da forma. Vossa atual fase artística é de destruição, de libertação da forma. Estais na última fase de descida, em que já aparece a aurora da nova espiritualidade, cujo primeiro ato é o abandono das técnicas superadas. Tende uma alma e sede simples. As complicações ornamentais exprimem vacuidade, a riqueza de minúcias enfraquece a idéia central. Belo é tudo o que corresponde à própria finalidade; a beleza está na linha que corresponde ao fim pelo caminho do menor esforço. Ela é a expressão da correspondência, do equilíbrio, da harmonia, dos princípios da Lei. A suprema beleza reside no conceito de Deus. O artista tem que sentir e seguir esse conceito nas formas em que se manifesta. O progresso da arte reside em manifestar, com evidência cada vez mais límpida e com maior profundidade, a beleza do pensamento divino da Lei que governa o universo. A ascensão da arte é um processo substancial de harmonização, isto é, a expressão, na forma intuitiva do belo, da evolução de todas as coisas que observamos. O belo é universal e pode haver um belo lógico, como um belo mecânico, uma estética grega de formas, como uma muito mais elevada estética moral e cristã de obras. Em todas as alturas, na lógica dos meios, existe uma arte de acordo com a gradação das finalidades. Quando existe um objetivo a atingir, o estilo nasce por si mesmo na forma mais simples, mais transparente, mais harmoniosa, como o encontra e o exige a lei do menor esforço. Os estilos refletidos, desejados, estudados, estão em todos os campos, em roupas nas quais em vão procurais um corpo. Não é a escola nem a análise que plasmam o artista, mas um tormento de alma, uma agitação de tempestades e de visões.

   Entendo por arte a expressão dos princípios que estão na harmonia da lei e são verdadeiros em todos os campos, seja literatura, pintura, escultura, arquitetura ou música. A música atual, como tudo o mais, evolui em profundidade. Sua atual evolução representa a passagem de sua dimensão linear de melodia, para sua dimensão volumétrica de sinfonia. A simples sucessão de sons da música melódica, à proporção que ascende à fase superior, em que conquista o espaço e o volume, dilata-se em extensão e profundidade de sentimentos, passando da expressão das paixões mais elementares (amor, vingança) às produzidas por uma sensibilidade mais complexa, aprendendo a descrever todas as harmonias e belezas da criação. A música volumétrica sinfônica deveria inspirar-se cada vez mais numa estrutura de perspectiva, em que o desenvolvimento dos vários motivos, mesmo harmonizando-se com a concepção única do quadro, permanecesse distanciada nos diversos planos. Daí resultaria, na sinfonia, grande profundidade de perspectiva, em que o motivo ou motivos do primeiro plano se distanciariam dos desenvolvimentos sinfônicos do fundo; profundidade e distanciamento não apenas em sentido sinfônico, mas também conceptual e emotivo. Pois, o motivo só pode ser a expressão de uma forma-pensamento que nasce, desenvolve-se e morre, dominando ou subordinando-se, que se aproxima ou se afasta, toca e influencia as outras, passa, volta, sobrevive na recordação e apaga-se. O motivo é a voz de uma vida que quer revelar-se toda e pode fazê-lo, porque a música, além da beleza da linha do desenho, além da riqueza dos tons, substitutivo da cor na pintura, possui o dom supremo do movimento, em que se exprime o devenir da vida.

   Em sua evolução, a música, além do movimento no tempo, conquistará cada vez mais profundidade no espaço, nova dimensão em que se expandirão as vozes de tantas vidas, porque tudo é vida e tem voz própria. O futuro consistirá em continuar a tornar cada vez mais ampla a estrutura sinfônica e a estender sempre a novos sentimentos sua potência descritiva; deve purificá-los e espiritualizá-los, até que a música se torne voz do infinito, a linguagem da intuição, a revelação das harmonias do universo, do aspecto beleza dos grandes conceitos da Lei. A arte busca a unificação em todos os seus aspectos; fundir-se-ão as diferentes artes como formas convergentes, no único esforço de exprimir o espírito. Na atmosfera artística dos templos seculares, entre os muros antigos, saturados de vibrações místicas dos povos, a música será meio de harmonização de ambiente e de sintonização receptiva na oração; será vibração criadora de bondade. Todas as artes se fundirão numa só música, educadora suprema; u’a música imensa que vos falará da vida do homem e de todas as criaturas. Todas as artes serão uma oração, um anelo do espírito que se eleva para chegar a Deus.

   Vossa arte futura será sadia, educadora, descida de Deus para elevar a Deus. Se assim não for, será veneno. A arte que permanece na Terra não é verdadeira arte, tem de elevar-se ao céu, ser instrumento de ascensão espiritual. Deveis beber nas fontes da verdade e eu vos escancarei suas portas. A arte tem de iluminar-se com a luz do espírito e eu o fiz reviver entre vós. Dei-vos, tanto no campo científico e social, quanto no campo artístico, uma idéia imensa para exprimirdes: a harmonia de todos os fenômenos, da ascensão de todas as criaturas, e a de vosso amadurecimento biológico. A arte apodera-se da ciência. É verdade que não soubesteis dar a esta um conteúdo espiritual; dai-lhe, contudo, uma fé e ela se tornará arte. Que mundo grande, novo, inexplorado, que sinfonia de concepções cósmicas para exprimir! O futuro da arte está na expressão do imponderável. Que riqueza de inspiração pode descer sobre a Terra, vinda do alto, por intermédio do artista sensitivo! Que oásis de paz, para refúgio da alma, nessas visões do infinito!

   A verdade universal desta síntese pode exprimir-se em todas as formas do pensamento: matemática, científica, filosófica, social e também artística. Esta obra pode também tornar-se uma grande tragédia, em que palpita toda a dor e explode a paixão das ascensões humanas. Que drama maior que o esforço da superação biológica, da luta do espírito para sua evolução, de suas quedas e de suas ascensões, da felicidade e da dor, de um destino que progride através da cadeia de renascimentos, de uma lei divina que tudo vincula à sua ordem! Esta irmanação de fenômenos, de seres, esta unificação de meios de expressão diante da idéia única, este monismo científico, filosófico, social, basta para dar alma a uma nova arte, como a uma ciência, a uma filosofia, a uma sociologia nova.

   Vossos palcos ignoram tragédias tão amplas, porque estes conceitos exatos faltavam antes ao mundo. Era vaga a intuição dos grandes problemas, incerta a reconstrução do destino humano. Há sempre uma zona de nebulosidade, em que se aninha a dúvida e o mistério. Está na hora de ultrapassar o ciclo restrito das baixas paixões de fundo animal. O teatro não deve ser palco de involução, explorando as multidões, mas de evolução, educando-as. Então, ele não pode ser problema econômico, mas função do Estado. A arte deve superar os loucos futurismos, tomar como fundo o infinito e a eternidade, por ator o espírito que, numa vida sem limites, debate-se entre luz e trevas e conquista sua libertação. O céu e a Terra ressoam com a tempestade imensa que as forças do mal desencadearam. Apresentai o drama apocalíptico sem símbolos, em sua nua potência dinâmica de conflito de forças, em qualquer das formas de artes em que o queirais exprimir, suspenso nas dimensões do tempo, entre a evolução bíblica e o idealismo científico.

   Esta a grande arte futura. É mister que nasça o gênio que a sinta e a manifeste; que a sinta acima da realidade sensória e nela a encerre e exprima. Chegado ao ápice dos valores espirituais, ele combate e conclui o drama da unificação e da libertação. É necessário que uma alma superior viva o fenômeno e, em seu tormento, liquide o passado, lançando os espíritos num vórtice de paixões mais altas e dinâmicas. É necessário um ser que, num martírio de fé, macerando-se e queimando-se por sua arte, dela faça missão e a ela se dê todo. A arte será então o altar das ascensões humanas, onde o espírito se oferece em holocausto de dor e paixão em sua elevação para Deus; será a oração que une a criatura ao Criador, a síntese de todas as aspirações da alma, de todas as esperanças e ideais humanos.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Um presente de Deus.


Li algo em um livro que teve repercussão permanente em minha vida. Dizia o autor que pode-se fazer consultas à bíblia sobre qualquer assunto. Desde então,  tenho usado este recurso inúmeras vezes.  Em uma destas vezes aconteceu uma experiência interessante.
Certo dia, comecei a sentir uma deliciosa sensação de bem estar, uma sensação de regozijo maravilhosa.  Não
atinava qual era a causa desta deliciosa sensação. Passei dias meditando sem encontrar a causa. Então resolvi
consultar a bíblia.  A técnica indicada pelo autor era a seguinte : pensar na pergunta, abrir a bíblia, onde os olhos
fixarem-se está a resposta. Com o tempo percebi que não era bem assim, muitas vezes a resposta estava
na mesma página ou na página ao lado.
Fiz mentalmente a pergunta : " Qual é a causa desta maravilhosa sensação de bem estar ?” Resposta : " Pão !”
“Pão ?” Fiquei  muito intrigado. Tão intrigado fiquei que repeti a pergunta. Respostas :  "Trigo.”  “Cereal”.
Na época a internet ainda não era o fenômeno de informação que é hoje, por isso fui à biblioteca para pesquisar.
Ah! Aguardava-me uma  experiência inesquecível.
Pesquisei  livros sobre nutrição, alimentação, composição química dos alimentos. Alguns destes livros foram
escritos por autores naturalistas. Um destes autores fez altos elogios ao pão integral, descrevendo  muitos benefícios
à saúde que o consumo diário deste alimento proporciona. Benefícios tais como equilíbrio interno, fortalecimento do sistema
imunológico, retardamento da velhice, dentes saudáveis entre outros. Tais benefícios são devidos à grande quantidade
de vitaminas do complexo B contida no trigo. Entre estas vitaminas a vitamina B1 se destaca devido a funções essenciais
no organismo, específicamente no sistema nervoso e cérebro . Quem não consome a quantidade  recomendada de
vitamina B1 diáriamente pode ter problemas de memória e concentração. O consumo diário  de  determinada quantidade
de vitamina B1 causa a sensação de bem estar que eu senti.
O Ato de alimentar-se tem importância muito além da necessidade nutritiva. Por que Deus criaria um alimento
causador de uma sensação deliciosa que dura muito além do ato de comer ? A prosaica e óbvia observação de que
é um engodo da natureza para que consumamos o alimento é insatisfatória.
Bondade Divina, esta é a verdade. Bondade oculta espalhada por mil formas na natureza. Infelizmente, poucas pessoas
compreendem isto, mas quem compreende sabe que Deus é sempre presente na natureza. Deus não " está "  sempre presente
na natureza, Ele “é” sempre.
Foi então que compreendi por que  tão deliciosa sensação. Há muitos anos optei por um rigoroso estilo
de vida naturalista, uma destas opções foi consumir pão caseiro, primeiro com farinha de trigo comum, depois com farinha
integral. A partir do dia em que consumi o pão integral comecei a sentir tão inesquecível sensação.

Só quem sentiu tal sensação é que pode descrevê-la. É algo parecido à sensação que um bebê sente sendo amamentado, acariciado e beijado por sua mãe, uma sensação de aconchego, conforto, bem estar, junto a um sentimento de alegria genuína. E a alegria é um presente de Deus, uma lembrança de seu amor por nós, pobres, fracos e imaturos seres humanos.