100 - A ARTE
Ao focalizar os problemas da fase a, (Espírito) com minúcia, coloco no
ápice deles a arte, como expressão suprema da alma humana. Nada espelha melhor
a idéia dominante de uma época. Por vezes é graça e suavidade, doutras vezes,
simplicidade e potência; ainda, profundidade de espírito puro, ou então,
ouropel vazio de forma. Exprime sempre o pensamento humano que ascende ou
decai, aproximando-se mais ou menos da grande ordem divina. O pensamento que
ora ousa, ora repousa, ora é jovem, ora cansado, é primeiramente retilíneo e
cortante como a força, depois, arredondamento de linhas, um esforço em descida,
um inútil escorar-se do vazio na grandiosidade das formas. Estilo tranquilo ou
audacioso, límpido ou confuso, cansado ou poderoso, representa sempre a face
exterior da alma humana, do mistério do infinito que nela se agita. Como tudo o
que existe tem um rosto, expressão de alma, uma revelação do pensamento divino
em que o universo fala incessantemente, assim a arte é revelação de espírito,
tanto mais valerá, quanto mais a forma for transparente e simples. Quanto menos
se fizer sentir a si mesma, tanto mais a idéia será substancial e poderosa na
eternidade, vinculada à lei, impondo-se à forma. Fenômeno estreitamente ligado
às fases ascensionais ou às involuídas do espírito, a arte apaga-se quando o
espírito adormece, porque só nele reside sua inspiração. A arte é espírito e a
matéria a mata. O materialismo a matou, agora tem de renascer.
Começareis de novo,
com meios novos mas, acima de tudo, com uma idéia nova. O segredo de uma grande
arte consiste em saber realizar o milagre da revelação do mistério das coisas;
em saber exprimi-lo à luz dos sentidos, após íntima e profunda comunhão com o
mistério que palpita na alma do artista. Este tem de ser um vidente, normal no
supernormal, onde tudo é espírito e vossa concepção de vida comum não chega. A
nova grande arte deve ser integral: presume o artista total, o super-homem que
realizou sua maturação biológica; não o agnóstico, o meramente técnico, mas o
espírito completo sob todos os aspectos. É indispensável que o homem tenha
englobado em si a visão do universo, nela tenha atingido as mais profundas
concepções de vida.
O simples valor da
técnica é dos períodos de decadência; a arte, cujo valor tenha passado da
substância à forma, é a enfeitada e preciosa da decadência. Quem tem algo de
substancial para dizer, di-lo na forma mais simples. Mas é preciso ter algo a
dizer, uma grande visão e uma grande paixão na alma para que a forma não assuma
a primazia. É necessário dominar esse revestimento do pensamento, estar
prevenido defensivamente contra as hipertrofias do meio que sufoca o fim;
impedir que a técnica, serva humilde do conceito, quando este era grande em
suas origens e amadurecido até a perfeição, queira agora agigantar-se para
sufocá-lo. A forma emerge da decadência. Quando a idéia se cansou, surge então
a luta entre a vestimenta e a substância e, se esta cede, a outra cresce,
invade e domina.
Trata-se da
substituição dos valores inferiores, quando os mais altos decaem. É a
degradação do fenômeno artístico, que tem seus ciclos, que são os do fenômeno
psíquico. Na evolução da arte, há uma espécie de inversão de relações. Quanta
riqueza de conceitos na pobreza da forma nas origens, quanta riqueza da forma e
pobreza de conceitos na decadência! Uma relação transforma-se gradualmente na
outra. O ciclo evolutivo da técnica, nascido mais tarde e mais jovem que o
ciclo evolutivo da idéia, sobrevive-lhe e o substitui; mas sua maturidade
constitui descida do princípio animador da arte.
A grande arte é
simples. Sua grandeza é proporcional à potência do pensamento e à simplicidade
da forma. Vossa atual fase artística é de destruição, de libertação da forma.
Estais na última fase de descida, em que já aparece a aurora da nova
espiritualidade, cujo primeiro ato é o abandono das técnicas superadas. Tende
uma alma e sede simples. As complicações ornamentais exprimem vacuidade, a
riqueza de minúcias enfraquece a idéia central. Belo é tudo o que corresponde à
própria finalidade; a beleza está na linha que corresponde ao fim pelo caminho
do menor esforço. Ela é a expressão da correspondência, do equilíbrio, da
harmonia, dos princípios da Lei. A suprema beleza reside no conceito de Deus. O
artista tem que sentir e seguir esse conceito nas formas em que se manifesta. O
progresso da arte reside em manifestar, com evidência cada vez mais límpida e
com maior profundidade, a beleza do pensamento divino da Lei que governa o
universo. A ascensão da arte é um processo substancial de harmonização, isto é,
a expressão, na forma intuitiva do belo, da evolução de todas as coisas que
observamos. O belo é universal e pode haver um belo lógico, como um belo
mecânico, uma estética grega de formas, como uma muito mais elevada estética
moral e cristã de obras. Em todas as alturas, na lógica dos meios, existe uma
arte de acordo com a gradação das finalidades. Quando existe um objetivo a
atingir, o estilo nasce por si mesmo na forma mais simples, mais transparente,
mais harmoniosa, como o encontra e o exige a lei do menor esforço. Os estilos
refletidos, desejados, estudados, estão em todos os campos, em roupas nas quais
em vão procurais um corpo. Não é a escola nem a análise que plasmam o artista,
mas um tormento de alma, uma agitação de tempestades e de visões.
Entendo por arte a
expressão dos princípios que estão na harmonia da lei e são verdadeiros em
todos os campos, seja literatura, pintura, escultura, arquitetura ou música. A música
atual, como tudo o mais, evolui em profundidade. Sua atual evolução representa
a passagem de sua dimensão linear de melodia, para sua dimensão volumétrica de
sinfonia. A simples sucessão de sons da música melódica, à proporção que
ascende à fase superior, em que conquista o espaço e o volume, dilata-se em
extensão e profundidade de sentimentos, passando da expressão das paixões mais
elementares (amor, vingança) às produzidas por uma sensibilidade mais complexa,
aprendendo a descrever todas as harmonias e belezas da criação. A música
volumétrica sinfônica deveria inspirar-se cada vez mais numa estrutura de
perspectiva, em que o desenvolvimento dos vários motivos, mesmo harmonizando-se
com a concepção única do quadro, permanecesse distanciada nos diversos planos.
Daí resultaria, na sinfonia, grande profundidade de perspectiva, em que o
motivo ou motivos do primeiro plano se distanciariam dos desenvolvimentos
sinfônicos do fundo; profundidade e distanciamento não apenas em sentido
sinfônico, mas também conceptual e emotivo. Pois, o motivo só pode ser a
expressão de uma forma-pensamento que nasce, desenvolve-se e morre, dominando
ou subordinando-se, que se aproxima ou se afasta, toca e influencia as outras,
passa, volta, sobrevive na recordação e apaga-se. O motivo é a voz de uma vida
que quer revelar-se toda e pode fazê-lo, porque a música, além da beleza da
linha do desenho, além da riqueza dos tons, substitutivo da cor na pintura,
possui o dom supremo do movimento, em que se exprime o devenir da vida.
Em sua evolução, a música, além do movimento
no tempo, conquistará cada vez mais profundidade no espaço, nova dimensão em
que se expandirão as vozes de tantas vidas, porque tudo é vida e tem voz
própria. O futuro consistirá em continuar a tornar cada vez mais ampla a
estrutura sinfônica e a estender sempre a novos sentimentos sua potência
descritiva; deve purificá-los e espiritualizá-los, até que a música se torne
voz do infinito, a linguagem da intuição, a revelação das harmonias do
universo, do aspecto beleza dos grandes conceitos da Lei. A arte busca a
unificação em todos os seus aspectos; fundir-se-ão as diferentes artes como
formas convergentes, no único esforço de exprimir o espírito. Na atmosfera
artística dos templos seculares, entre os muros antigos, saturados de vibrações
místicas dos povos, a música será meio de harmonização de ambiente e de
sintonização receptiva na oração; será vibração criadora de bondade. Todas as
artes se fundirão numa só música, educadora suprema; u’a música imensa que vos
falará da vida do homem e de todas as criaturas. Todas as artes serão uma
oração, um anelo do espírito que se eleva para chegar a Deus.
Vossa arte futura
será sadia, educadora, descida de Deus para elevar a Deus. Se assim não for,
será veneno. A arte que permanece na Terra não é verdadeira arte, tem de
elevar-se ao céu, ser instrumento de ascensão espiritual. Deveis beber nas
fontes da verdade e eu vos escancarei suas portas. A arte tem de iluminar-se
com a luz do espírito e eu o fiz reviver entre vós. Dei-vos, tanto no campo
científico e social, quanto no campo artístico, uma idéia imensa para
exprimirdes: a harmonia de todos os fenômenos, da ascensão de todas as
criaturas, e a de vosso amadurecimento biológico. A arte apodera-se da ciência.
É verdade que não soubesteis dar a esta um conteúdo espiritual; dai-lhe,
contudo, uma fé e ela se tornará arte. Que mundo grande, novo, inexplorado, que
sinfonia de concepções cósmicas para exprimir! O futuro da arte está na
expressão do imponderável. Que riqueza de inspiração pode descer sobre a Terra,
vinda do alto, por intermédio do artista sensitivo! Que oásis de paz, para
refúgio da alma, nessas visões do infinito!
A verdade universal
desta síntese pode exprimir-se em todas as formas do pensamento: matemática,
científica, filosófica, social e também artística. Esta obra pode também
tornar-se uma grande tragédia, em que palpita toda a dor e explode a paixão das
ascensões humanas. Que drama maior que o esforço da superação biológica, da
luta do espírito para sua evolução, de suas quedas e de suas ascensões, da
felicidade e da dor, de um destino que progride através da cadeia de
renascimentos, de uma lei divina que tudo vincula à sua ordem! Esta irmanação
de fenômenos, de seres, esta unificação de meios de expressão diante da idéia
única, este monismo científico, filosófico, social, basta para dar alma a uma
nova arte, como a uma ciência, a uma filosofia, a uma sociologia nova.
Vossos palcos
ignoram tragédias tão amplas, porque estes conceitos exatos faltavam antes ao
mundo. Era vaga a intuição dos grandes problemas, incerta a reconstrução do
destino humano. Há sempre uma zona de nebulosidade, em que se aninha a dúvida e
o mistério. Está na hora de ultrapassar o ciclo restrito das baixas paixões de
fundo animal. O teatro não deve ser palco de involução, explorando as
multidões, mas de evolução, educando-as. Então, ele não pode ser problema
econômico, mas função do Estado. A arte deve superar os loucos futurismos,
tomar como fundo o infinito e a eternidade, por ator o espírito que, numa vida
sem limites, debate-se entre luz e trevas e conquista sua libertação. O céu e a
Terra ressoam com a tempestade imensa que as forças do mal desencadearam.
Apresentai o drama apocalíptico sem símbolos, em sua nua potência dinâmica de
conflito de forças, em qualquer das formas de artes em que o queirais exprimir,
suspenso nas dimensões do tempo, entre a evolução bíblica e o idealismo
científico.
Esta a grande arte
futura. É mister que nasça o gênio que a sinta e a manifeste; que a sinta acima
da realidade sensória e nela a encerre e exprima. Chegado ao ápice dos valores
espirituais, ele combate e conclui o drama da unificação e da libertação. É
necessário que uma alma superior viva o fenômeno e, em seu tormento, liquide o
passado, lançando os espíritos num vórtice de paixões mais altas e dinâmicas. É
necessário um ser que, num martírio de fé, macerando-se e queimando-se por sua
arte, dela faça missão e a ela se dê todo. A arte será então o altar das
ascensões humanas, onde o espírito se oferece em holocausto de dor e paixão em
sua elevação para Deus; será a oração que une a criatura ao Criador, a síntese
de todas as aspirações da alma, de todas as esperanças e ideais humanos.
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