Vós vos prendeis à forma; acreditais que sois matéria; quereríeis paralisar esse
maravilhoso movimento; para prolongar a ilusão de um dia, gostaríeis de parar a
marcha estupenda. Mas possuís, além da juventude do corpo, a inexaurível e
eterna juventude de uma vida maior, não a terrena. Naquela sois indestrutíveis,
eternamente novos e progressistas, sois jovens, não no corpo caduco, mas no
espírito eterno. Não deis importância às alvoradas e aos crepúsculos de um dia,
pois cada crepúsculo prepara nova aurora. É lógica simplicíssima, evidente lei
de equilíbrio esta, pela qual tudo o que nasce, morre, mas também tudo o que
morre tem de renascer.
Não vos iludais a vós mesmos; não percais um tempo
precioso no esforço inútil de tentar parar a vida. A beleza da mulher deve
servir à maternidade; a força do homem é feita para desgastar-se no trabalho. Só
quando não tiverdes fraudado a Lei, mas houverdes criado de acordo com sua
ordem, vosso tempo "não será passado" e não tereis lamentações. Se pedis o
absurdo, tereis que colher ilusões. Colocai-vos no movimento, não na
imobilidade. Desembaraçai vosso pensamento do passado que vos prende. Superai-o.
O passado morreu e contém o menos. Interessa o futuro, que contém o mais. A
sabedoria não está no passado, mas no futuro. Só vossa ignorância pode fazer que
acrediteis na possibilidade de violar e fraudar a Lei, de deter-lhe o caminho
fatal. Se parais, o pensamento cristaliza-se, o tédio vos persegue, a satisfação
de todas as necessidades, de todos os desejos vos torna ineptos; ócio significa
morte por inanição. O repouso só é belo como pausa, como consequência de um
trabalho anterior e condição de novo trabalho.
A necessidade de evoluir,
imposta pela Lei, está gravada no mais profundo instinto de vossa alma: a
insaciabilidade. A insatisfação que permanece no âmago de todas as vossas
realizações, qualquer desejo satisfeito que vos faz debruçar para outro
horizonte mais amplo, o descontentamento que vos atormenta logo que parais, o
ilimitado poder de ambicionar, inato em vosso espírito, tudo vos diz que sois
feitos para caminhar. Isso pode constituir ânsia e ilusão, mas é estrada de
progresso, deixado? Considerai antes a vida como campo de adestramento, onde
estais para temperar vossas forças, para provar vossas capacidades, para
aprender novos caminhos, para aprofundar vossa consciência. Estais no mundo para
construir não na areia, mas para edificar-vos a vós mesmos.
Não busqueis o
absurdo de querer prender-vos definitivamente numa matéria instável e caduca; a
troca que a vida a submete, não permite que sua imagem resista um instante.
Desprezai a miragem das formas. O que existe fica e sobrevive à renovação
contínua dos meios, o que verdadeiramente importa sois vós, vossa personalidade
espiritual. Não façais do mundo um fim, pois é apenas um meio. Não invertais as
posições e as funções. Não vos transformeis de senhores em servos. Caminhai.
Lançai-vos à grande correnteza. A vida é feita para correr e avançar. Triste é o
lamento do tempo perdido no sono, do tempo que não trouxe nenhum progresso e vos
deixou para trás, estacionários; triste é o choro da alma que se vê iludida em
sua maior necessidade, em que a Lei fala e exprime-se. Avançai, se não quiserdes
que a correnteza vos ultrapasse e vos abandone. Sede insaciáveis, como Deus vos
quer, trabalhando substancialmente, criando no bem, na eternidade.
Como
podeis ser tão crianças, para acreditar que num universo tão perfeito a
felicidade possa ser usurpada por vias transversas, com meios injustos?
Trabalhai: procurai vossas alegrias, conquistai-as com vosso trabalho. Vossa
alma jamais se alegrará com as maiores conquistas se não forem vossas, se não
forem produto de vosso esforço, testemunho e medida de vossa capacidade. Mais
que o resultado exterior, a alma quer a demonstração de seu íntimo poder, quer a
prova de sua sabedoria progressiva, quer o obstáculo para poder vencê-lo, quer a
prova constante de seu valor íntimo e indestrutível.
O resultado prático,
concreto, na economia da vida, é quase um produto secundário e de refugo. Por
isso, a Lei não cuida dele e, logo que sai das mãos do homem, abandona-o à mercê
de forças de ordem inferior. Como é triste ver vosso contínuo esforço inútil
para realizar-vos num mundo ingrato e rebelde, para imprimirdes na matéria o
sopro de vossa alma eterna! Que trágico espetáculo, o inconciliável contraste
entre a vontade e os meios, entre o pensamento e sua realização! Por causa dessa
correspondência inadequada, dessa incurável impotência da matéria, as maiores
almas, muitas vezes abatem-se exaustas aos pés de seus ideais, altos como
rochas, cujos cimos resplandecem fora da Terra. Terra móvel e vã, que recolhe a
ruína de todas as vossas grandezas humanas! E como podeis ainda insistir no
doloroso jogo, ou concluir tristemente que nascestes apenas para colher
ilusões?
Concebei a vida não mais na superfície, mas em sua realidade mais
profunda, e se dissipará a condenação aparente; construí no espírito, que mantém
eternamente as impressões, e vossas aspirações encontrarão eterna expressão.
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