Do Livro "A grande síntese" psicografia: Pietro Ubaldi
Nessa ordem de idéias pode haver lugar para a inconsciência individual,
mas não para a inconsciência do Criador. Em qualquer caso, mesmo no mais atroz
destino, podeis crer na ignorância e maldade dos homens, mas jamais podeis
acreditar na insipiência ou maldade de Deus. É inútil criticar aquele que
personifica as suas próprias causas da dor. Trata-se, frequentemente, de instrumentos
ignaros, logo, irresponsáveis e movidos por distantes e profundas causas de vós
mesmos. A vida é gigantesca batalha de forças que temos de compreender,
analisar e calcular. Ninguém pode invadir o destino alheio, só pode semear
loucamente alegrias e dores no próprio destino. Uma vida, tão substancialmente
perfeita, não pode existir à mercê de um capricho e da louca alegria de
atormentar-se mutuamente. Assim, não tem sentido maldizer-se nem rebelar-se,
tanto mais que isso nada modifica, ao contrário, agrava o mal. É melhor orar e
compreender, porque a dor só cessará depois de termos aprendido a lição que lhe
justifica a presença.
Nessas idéias situa-se,
também, logicamente, o conceito de uma Divina Providência, como fato objetivo e
cientificamente demonstrável. Se registrásseis em grandes séries o
desenvolvimento dos destinos individuais, veríeis ressaltar do resultado uma
lei em que aparece evidente a intervenção de uma força superior à vontade e ao
conhecimento individuais. Mas o homem se comporta como se estivesse sozinho,
isolado no espaço e no tempo. Sua ignorância da grande Lei que governa tudo,
fá-lo crer que vive num caos de impulsos desordenados, abandonado apenas às
próprias forças, sendo estas sua única lei e amparo. Seu egoísmo é um "salve-se
quem puder" de todos contra todos. O homem fica só, um átomo perdido no
grande mar dos fenômenos, no terror de ficar torturado por forças gigantescas,
agitando seus pobres braços para defender-se, pequena luz em meio às trevas.
Refugia-se, então, na inconsciência do carpe diem, que é a filosofia do
desespero; cegueira intelectual e moral, que uma ciência que não conclui deixou
intacta.
Cegueira, inconsciência,
porque num universo em que tudo brada causalidade, ordem, indestrutibilidade;
em que tudo é função, equilíbrio automático e justiça, tudo está ligado por uma
rede de reações, vinculado ao funcionamento do grande organismo. Tudo tem uma
razão de ser e uma consciência lógica. É absurda qualquer anulação, tanto no
campo físico, quanto no moral, como é loucura acreditar numa possibilidade de
violência, de usurpação, de injustiça, só porque o homem a quer; pensar que
ele, apenas um ponto do infinito, possa impor sua vontade, modificando a Lei
universal.
Com a demonstração científica
da ordem soberana, coloquei-vos, agora, na encruzilhada: ou negar, aceitando a
inconsciência, criando em torno de vós um mundo caótico, onde estais sozinhos,
com vossas forças contra todos os fenômenos, rebeldes, ridículos e tristes,
perdidos no mar de trevas; ou então, compreender e ir à frente, enquadrados no
grande movimento, como soldados de um grande exército em marcha. A presença de
uma ordem suprema resulta aqui já demonstrada: o homem só pode existir imerso
na grande lei divina. Isso faz ser absurda qualquer culpa, qualquer baixeza e
torna altamente utilitário o caminho da virtude. Cada coisa que existe nasce
com sua lei, é a expressão de uma lei, só pode existir como desenvolvimento de
um princípio e obedecendo a uma lei. Em qualquer forma, sempre encontrareis uma
lei como sua alma, sua substância, única realidade constante através de todas
as transformações da ilusão exterior. A forma acompanha sempre essa lei, que a
guia e a modifica, para realizar-se em ato. Cada momento resume o passado e
contém a linha do futuro, tanto nos organismos físicos, quanto no vosso
organismo psíquico. O equilíbrio sustentou-vos até aqui, no presente, através
da viagem pela eternidade e agora vos sustenta e guia para o futuro, sabendo e
querendo, antes de vós, à revelia de vossa vontade e consciência.
Ao conceito limitadíssimo de
uma força vossa, individual, que dirija os acontecimentos, é necessário
substituir o conceito vastíssimo de uma justiça que impõe seu equilíbrio e suas
compensações ao destino. Dentro dela, violência e usurpação são absurdas
antecipações de um átimo, que se terão de pagar, mais tarde, com exatidão
matemática. Dentro dela está presente e age a divina providência. Não uma
providência no sentido de um guia pessoal por parte da divindade, de uma ajuda
arbitrária que possa solicitar sem merecê-la e que possa escapar-vos dos
esforços obrigatórios da vida, mas uma providência que é um momento da grande
Lei, permeada de equilíbrio, aderente ao merecimento, mantida por contínuas
compensações que levantam quem cai se merecia subir, e esmagam quem sobe, se
merecia descer. Trata-se de um princípio de ordem, uma força de nivelamento que
ajuda o fraco e substitui os impulsos da prepotência humana; uma força com
justiça, muito mais sutil, real e poderosa.
A providência divina
representa esta força maior, a justiça em ação, não só para levantar, como para
abater. Por lei espontânea de equilíbrio, vereis que ela sabe dosar as provas
para que não ultrapassem as forças; vê-la-eis levantar-se, gigantesca, para
proteger o humilde indefeso e honesto que a opressão humana tencionava
arruinar; vereis que ela dá a quem merece e tira de quem abusa, premiando e
punindo, distribuindo além das partilhas humanas.
Tremei vós, vencedores pela
força humana, diante desse poder da justiça, que impulsiona todo o universo; e
vós, fracos, não acrediteis que a providência seja inércia ou fatalismo, amiga
dos preguiçosos; não espereis que essa força vos afaste do sagrado esforço de
vossa evolução. Conceito de justiça e de trabalho, conceito científico do mundo
fenomênico, não é base de um afastamento gratuito de sanções de dor e significa
direito ao mínimo indispensável às forças humanas para ascender o cansativo
caminho da vida; significam repousos merecidos e necessários, não ócios
gratuitos e perenes, como quereríeis.
Nada mais falso que a
identificação da providência com um estado de inércia e expectativa passiva.
Isto é invenção de indolentes iludidos, é exploração dos princípios divinos.
Ela está presente para reerguer o homem que, na luta, perde suas forças, como o
está ao abater o rebelde, mesmo se gigante; ela está ativa sobretudo para o
justo que quer o bem e com seu esforço o impõe. Então o inerme, sem forças
humanas, sem apoio, sem meios, apertará no punho fechado as forças mais altas
da vida; as tempestades do mundo se acalmarão e os grandes se dobrarão, porque
ele personifica a Lei e sua ordem. Enquanto permaneceis sozinhos na luta,
abandonados apenas às vossas pobres forças, situado na profunda organicidade do
real, recolhe-as de todo o infinito. Se parece abandonado e derrotado, uma voz
lhe grita: tu não estás sozinho. O inerme pode então dizer a grande palavra que
ribomba em todo o universo: falo-vos em nome de Deus.
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