Luz.

Luz.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Após o dilúvio.



Poema de Arthur Rimbaud.

Nem bem se aquietara a idéia do Dilúvio,
Uma  lebre  parou  entre  os  sanfenos  e  as  inquietas
campânulas e elevou sua prece ao arco-íris, através
da teia de aranha.
Oh!  As  pedras  preciosas  que  se  escondiam,  —  as
flores que já olhavam.
Na grande rua suja os açougues se ergueram, e os
barcos foram levados ao mar, que, no alto, era em
degraus como nas figuras.
O  sangue  correu,  na  casa  de  Barba-Azul,  —  nos
matadouros,  —  nos  circos,  onde  o  selo  de  Deus
empalidecia as janelas. O sangue e o leite corriam.
Os castores construíam. Saía fumaça dos cafés nos
botequins.
Na  mansão  de  vidros  ainda  gotejante,  as  crianças
contemplavam as imagens maravilhosas.
Uma porta bateu, — e na praça do vilarejo, a criança
girou  seus  braços,  envolvendo  os  cata-ventos  e  os
galos dos campanários, sob o fulgurante aguaceiro.
A senhora*** instalou um piano nos Alpes. A missa e
as primeiras comunhões foram celebradas nos cem mil
altares da catedral.
As  caravanas  partiram.  E  o  Hotel  Esplêndido  foi
erguido em meio ao caos de gelos e noite polar.
Desde então, a Lua ouviu os chacais berrando pelo
deserto  dos  timos,  —  e  as  éclogas  em  tamancos

rugindo no pomar. Depois, na floresta violeta, coberta
de brotos, Eucaris me disse que chegara a primavera.
—Surge, lago, —Espuma, rola sobre a ponte a e sobre
os bosques; — panos negros e órgãos, — relâmpagos e
trovão,  —  subi  e  rolai;  —  Águas  e  tristezas,  subi  e
restaurai os Dilúvios.
Pois desde que eles se dissiparam, — oh! as pedras
preciosas enterrando-se, e as flores abertas! — reina o
tédio! E a Rainha, a Feiticeira que acende sua brasa
no pote de barro, jamais quererá contar-nos o que ela
sabe, e que nós ignoramos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário