Luz.
segunda-feira, 4 de abril de 2016
O amor.
Que eu não veja empecilhos na sincera
união de duas almas. Não amor
é o que encontrando alterações se altera
ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! Amor é ponto assaz constante
que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
de brilho certo, mas valor sem conta.
O amor não é jogral do tempo, embora
em seu declínio os lábios nos entorte.
O amor não muda com o dia e a hora,
mas persevera ao limiar da morte.
E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.
W. Shakespeare.
Esta é uma das poesias deixadas para nós por um gigante das letras, o maior escritor de todos os tempos.
Ninguém, antes ou depois de Shakespeare superou seu gênio. Ele tinha o dom de brincar com as palavras e transformá-las em pura criação artística. Seu gênio tinha parte com os deuses da arte. Ele era o predileto do deuses.
Nunca antes ou depois dele um escritor atingiu um patamar tão elevado na criação artística. Sua obra até hoje assombra gerações. Quem senão Shakespeare seria capaz de escrever “Hamlet,” uma das maiores criações de um cérebro humano em todos os tempos, “Macbeth,” outra portentosa obra, “Rei Lear,” esta é uma obra espantosa, sem palavras fica o leitor ao terminá-la.
Na poesia acima transparece a sensibilidade, o gênio de Shakespeare aliado à sua sabedoria. Ele descreveu com extrema beleza uma realidade psicológica universal sobre o amor e a implicação que a falta ou desatenção disto causa à humanidade.
O primeiro e o segundo verso: “Que eu não veja empecilhos na sincera união de duas almas, ” por si só já daria tema a um longo discurso.
Quantas vezes o amor sincero é postergado e ultrajado no lodaçal do preconceito, da covardia, do medo, da maldade e da estupidez? Quantas vezes as convenções tolas falaram mais alto diante do amor? Quantas vezes o orgulho, a vaidade e o interesse baixo postergaram o amor?
Shakespeare quis referir-se a isto. Seu coração bondoso e sensível compreendia a dor flagelante do amor sincero frustrado, derreado e abatido nas florestas perversas do mundo.
Do segundo ao sexto verso: “Não amor é o que encontrando alterações se altera…” até “que ileso os bravos temporais defronta,” Shakespeare menciona uma realidade esquecida ou não percebida pela maioria da humanidade. Parece óbvio e muito simples, mas não é assim.
O amor verdadeiro é um sentimento imutável. Ele pode ficar inativo por algum tempo apenas, mas vai retornar à tona sempre, aconteça o que acontecer. Sua força aumenta com o tempo e os obstáculos só fazem fortalecê-lo ainda mais. Esta é justamente a prova definitiva da predominância do amor diante da paixão passageira. A paixão é sempre passageira, não tem força para durar, pois é um sentimento superficial e fraco.
Uma pessoa pode se apaixonar muitas vezes, mas o amor nunca bate mais de uma vez à porta de nosso destino. Nunca se ama mais de uma vez.
“O amor não é jogral do tempo, ...” O bardo aqui superou-se. Quanta sabedoria em uma única frase! Podemos traduzi-la assim: “O amor não é um palhaço do tempo.” "O tempo não pode brincar com o amor.” Que o digam a multidão de pessoas que vieram e partiram na estrada ruinosa do destino humano, as quais receberam do destino a benção raríssima do amor e abriram mão dele.
O tempo passou e mudou tudo em suas vidas. Mas a marca do amor ficou gravada a ferro e fogo em suas almas.
Assim é o amor: o maior tirano do universo. Ele abre as portas da felicidade para sempre se aceitamos seu convite, mas ele pode matar e agonizar um coração até à morte diante da loucura infame de sua recusa.
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