Como seria se existisse um espelho da alma? O que seria
se pudéssemos ter pendurado na parede um espelho onde poderíamos enxergar nossa
alma?
O que sentiria alguém se pudesse ver as nódoas ocultas
como enxerga-se as marcas que o tempo imprime ao rosto?
Quem poderia encarar face a face o olhar de seu próprio
demônio?
Quem suportaria ousar encarar a face escura de sua alma?
Quem haveria de suportar sem repugnância a podridão de
sua alma?
Diz uma lenda que há muitos séculos existia um país no oriente
para onde se dirigiam todos os anos fileiras de caravanas para ver a linda
filha do rei. Os potentados das nações vizinhas ofereciam todos os tipos de
dádivas preciosas ao pai da encantadora princesa no intuito de cair nas graças
do rei.
Era notória naquela região a beleza estonteante da
princesa. O povo aclamava quando ela saia do palácio a passeio.
Ela vivia feliz e despreocupada.
Certo dia chegou ao palácio um negociante de uma terra
distante oferecendo suas mercadorias ao rei.
Ele apresentou vários objetos: tapetes, tecidos,
vasilhas, taças de cristal entre outros. O rei e a princesa observavam ouvindo
o discurso do negociante até que a princesa viu um espelho estranho entre as
mercadorias. Ela quis saber o que era aquele objeto.
_Princesa, respondeu o negociante, aqui está um valioso
espelho mágico que estava em poder de um mago eremita de minha terra. O mago o chamava
de espelho da verdade, pois ele tem o dom de revelar a alma de quem o mira.
O negociante deu instruções à princesa de como proceder
para que ela visse sua alma no espelho, deixou outras mercadorias e partiu.
Assim que chegou a noite a princesa foi para seus aposentos,
pegou o espelho para mirar-se, pois era um dos procedimentos
ensinados pelo negociante. O
espelho só poderia ser usado à noite e sem mais alguém por perto.
A princesa abriu a caixa onde estava o espelho colocou-o
diante da face e esperou... Tão logo ela aproximou o espelho da face surgiu no espelho
a imagem de um rosto horroroso, uma face macilenta repleta de espinhas, nariz
adunco, muito parecido a uma velha feiticeira. Horrorizada, ela jogou o espelho
na cama.
Ela repetiu a experiência várias vezes e sempre aparecia
o asqueroso rosto no espelho.
O negociante voltou outras vezes, ela o procurou, pediu
maiores detalhes sobre o tal espelho sem dizer o que havia acontecido. Tudo o
que descobriu era que o eremita trocou o espelho por algumas peças de ouro, e
que ele ainda vivia.
O tempo fugia...
Alguns anos depois ela e o rei atravessaram o deserto a
caminho de uma nação vizinha tributária de seu reino.
À noite a caravana acampou no deserto sob a luz das
estrelas. O silencio era total, o céu parecia uma esteira luminosa repleta de
milhões de lamparinas.
Um peregrino do deserto aproximou-se das tendas onde
estavam o rei e a princesa, depois de cumprimenta-los cerimoniosamente
aproximou-se e pediu água.
_Entrai bom homem, disse o rei. Sentai e saciai vossa
fome conosco.
O peregrino agradeceu humildemente, sentou-se diante do
rei e a linda princesa e serviu-se do repasto.
Depois de terminar a lauta refeição o peregrino
levantou-se e já ia partir quando observou que a princesa se retirava com o
espelho na mão. Ele saiu da tenda em companhia dela e disse:
_Minha senhora! Vejo que carregais o espelho da verdade.
Surpresa ela murmurou algumas palavras e respondeu:
_Conheces este espelho?
_Sim, minha senhora. É o espelho da verdade.
_Bom homem, acho que estais enganado. Parece antes o
espelho da mentira!
_Por que dizeis isto senhora?
_Todas as vezes que eu olho neste espelho não vejo meu
rosto, vejo antes um asqueroso rosto de uma feiticeira horrorosa.
_Perdoai-me minha senhora, ele revela a verdade.
_ O que dizeis?
_Este espelho estava em posse de um velho eremita de
minha terra, ele vivia solitário nas montanhas, mas recebia sempre caravanas de
muitas terras distantes, todos queriam ver sua alma... Mas quase todos voltavam
decepcionados, pois o que viam era muito diferente do que esperavam... Cansado
de ser importunado ele resolveu desfazer do espelho.
_Não entendo! Por que vejo este rosto horrível?
_Minha senhora! Aceitai a palavra de um pobre peregrino?
_Sois livre para falar!
_Senhora este espelho é o olho de Deus!
_Como?
_Sim, minha senhora ele devassa nossa alma e revela
aquilo que só Deus vê.
_Ainda não compreendo!
_É que enxergamos tudo com os olhos do orgulho e vaidade
e não com os olhos da verdade.
_Minha senhora, viveis em abundância, dormis em coxins
luxuosos, saboreias todos os dias apetitosos repastos, sem importardes com o
povo a morrer de fome e frio diante de vosso palácio luxuoso! Todos os dias
muitos animais são sacrificados para satisfazer vosso apetite. Foste abençoada
pelos céus para dividir vossa boa sorte com aqueles menos favorecidos. É assim
que o olho de Deus vê vossa alma: uma criatura horrorosa; egoísta, má e nefanda.
A princesa ia falar, quando ouviu passos se aproximarem.
Em questão de segundos virou o rosto para o lado de onde vinha os passos e
voltou-se para o lado onde estava o peregrino. Qual não foi sua surpresa ao perceber
que não havia ninguém ali!
Ela olhou para todos os lados e não viu qualquer sinal de
pegadas na areia.
Diz a lenda que algum tempo depois disto ela abandonou
seu palácio luxuoso, vestiu a humilde vestimenta das monjas e retirou-se para
um convento no deserto, onde recebia peregrinos de todas as partes. Ela fez-se a irmã servidora de todos.
Tornou-se santa na igreja católica. Até hoje
seu nome é venerado como uma das mais fiéis servidoras de Deus.