Luz.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Paulinho.
Paulinho sempre teve muito amor aos animais e pássaros. Desde muito pequeno chorava sempre que via algum animal ser maltratado.
Um dia, ainda com seis anos, foi repreendido por seu pai por querer libertar um pássaro na gaiola durante uma visita a um parente.
Ver algum pássaro engaiolado sempre o incomodou durante toda sua vida.
Depois de adulto, inúmeras vezes, na calada da noite, esgueirou-se sorrateiramente por paredes, pulou muros e portões para libertar pássaros presos em gaiolas, vítimas infelizes da crueldade humana. Ele perdeu a conta das vezes que correndo grandes riscos, libertou mais uma vítima da perversidade humana.
Muitos daqueles que descobriam pela manhã a gaiola vazia, suspeitavam dele, mas o amor é contagiante. Acabavam esquecendo.
Em uma chuvosa manhã de terça feira, a caminho do trabalho, Paulinho estava no banco traseiro do carro de um amigo de muitos anos, com quem dividia a despesa do combustível há alguns meses.
No banco dianteiro ao lado do motorista estava uma bonita garota, namorada do amigo de Paulinho que também se dirigia ao trabalho.
Paulinho já havia notado há muito tempo os olhares furtivos constantes da namorada de seu amigo dirigidos para ele.
Um dia, Paulinho foi obrigado a ir com seu próprio carro, pois o amigo estava com problemas de saúde e foi obrigado a ficar acamado. Paulinho teve que levar a namorada do amigo naquele dia.
Daí para um entendimento mútuo, marcar um encontro, foi um passo rápido. Paulinho teve um caso secreto com a namorada do amigo durante mais de dois anos, tempo que durou a provação do amigo até sua morte, ocasionada por um câncer no pulmão, causado por cigarros -Mais uma infeliz vítima de sua própria estupidez-.Paulinho continuou seu namoro com a ex-namorada do amigo e acabou morando junto com ela durante muitos anos.
O tempo passou... Anos rolavam sobre anos, os dias iam e viam, tornavam-se rapidamente em semanas e meses em seu giro eternal. A ampulheta do destino despejava dia a dia um montículo de areia na vida de Paulinho, trazendo dores e alegrias, que chegavam e iam no ritmo natural das coisas humanas. Sem dar por isto, Paulinho viu-se um dia velho e cansado.
O tempo fez profundas mudanças no corpo e na alma de Paulinho. Vamos encontrá-lo sentado em um sofá, com os cabelos totalmente brancos, o rosto vincado de rugas e uma saliência protuberante no ventre. Sua companheira havia falecido há quatro anos. Ele sentia constantes palpitações no peito e tinha dificuldade para respirar. Já suspeitava que seu tempo neste inferno estava chegando ao termo. De fato, três meses depois um pequeno grupo de parentes, amigos e conhecidos velava sobre o caixão onde seu corpo esta estendido exânime.
Enquanto deste lado ocorria o procedimento comum designado por convenções humanas milenares, uma cena totalmente diferente, invisível para os “vivos,” decorria ali mesmo.
Alguém com o dom da vidência enxergaria o corpo de Paulinho deitado no caixão e em pé ao lado, o verdadeiro Paulinho revestido de um corpo etéreo e brilhante, leve e colorido emitindo luminosidades de variadas cores cambiantes. Perto dele estavam quatros entidades carrancudas. Não tinham o brilho que Paulinho ostentava. Seus corpos espirituais eram escuros, tinham manchas negras e um halo contendo substâncias etéreas de cor negra bastante escura circulava por sobre suas cabeças.
Eram os “dragões” das trevas. Entidades perversas e ignorantes que recebem aquelas almas amigas do mal, prendem nas, torturam e maltratam impiedosamente até o termo de sua sentença, quando a justiça de Deus as acolhem e libertam-nas das garras dos mal.
Paulinho reconheceu imediatamente um dos quatro integrantes do grupo: era o seu ex-amigo do passado, o qual lançava um olhar furioso e terrível para Paulinho.
-Então! Você finalmente chegou! Disse seu ex-amigo. Agora posso me vingar de sua traição infame. Espero por isto há quarenta anos. Então, enquanto eu sofria aqui corroído por meu ódio, você desfrutava da companhia e do carinho dela. Ah! Você vai me pagar caro por isto...
Que paz era aquela que tomou conta de Paulinho naquele momento grave? Ele estava sentindo um bem estar agradabilíssimo, não sentia mais o peso de seu corpo, no lugar disto sentia um delicioso estremecimento percorrer seu novo corpo etéreo, leve e brilhante. Nem mesmo em seus momentos mais calmos durante sua peregrinação entre os “vivos” sentiu tamanha sensação de paz. Ele ouvia as palavras duras, via o aspecto terrível do pequeno grupo que o cercava, mas um sentimento íntimo de segurança e confiança tomava conta de sua alma. Nunca sentiu isto em toda sua vida humana. Parecia sentir a presença de Deus invadir sua alma e penetrar cada reentrância de seu interior. Isto irritava ainda mais o ex- amigo que proferia impropérios.
Logo em seguida apareceu um outro espírito mal-encarado e também de aspecto feroz montado sobre um cavalo atrelado a uma carroça com grades em forma de jaula. Parecia uma cena de algum filme sobre a idade média. O novo personagem aproximou-se do grupo, desceu do cavalo, abriu a jaula e dirigiu-se junto com os outros em direção a Paulinho, que continuava parado tranquilo.
Já se acercavam de Paulinho quando ouviram um estrondo terrível que vinha do alto. Aterrado, o grupo infernal olhava espantado descer até onde estavam uma águia gigantesca do tamanho de um elefante adulto, acompanhada de uma revoada de pássaros. Gaivotas, andorinhas, falcões, colibris, todos de tamanhos gigantescos, formavam uma nuvem de tamanho assombroso aproximando-se rapidamente do grupo fixando olhares hostis aos “Dragões.” Espavorido, o grupo fugiu em debandada.
A águia aproximou-se de Paulinho, abaixou-se estendendo suas gigantescas asas até ficar ao alcance de Paulinho, oferecendo suas costas a Paulinho. Ele subiu sobre o dorso da ave como um cavaleiro.
A águia decolou junto aos outros pássaros e Paulinho foi-se para as estrelas, rumo ao infinito...