Luz.

Luz.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A lição de Aritogogo. Texto da obra "Pontos e contos." Irmão X. Psicografia: Chico Xavier.

 Examinávamos a paisagem das ambições humanas, quando um amigo considerou: - Que o homem atenda aos conselhos da prudência, armazenando em bom tempo, como a formiga, para os dias de necessidade e inverno forte, é compreensível e razoável. A vigilância não exclui a previdência, quando é possível amealhar com o bem; mas, explorar o quadro das misérias alheias, embebedar-se na preocupação de ganhar, escravizar-se ao dinheiro, é criar um inferno de padecimentos intraduzíveis. - Quantos precipícios cavados pelo egoísmo conquistador?! – disse outro – é lastimável observar as angustias semeadas nos caminhos humanos. As guerras não constituem senão o desdobramento das ambições desmedidas. E dizer-se que toda essa marcha de loucuras demanda as zonas da morte! Quão incompreensível a nossa cegueira, nos círculos carnais! Quantos pesadelos desnecessários e quanta ilusão para se desfazer na sepultura!... Um dos companheiros presentes sorriu e acrescentou: - Nesse capitulo, recebi inolvidável lição, há mais de trezentos anos, por intermédio de um chefe indígena em nosso país. - Como assim? – perguntei, sumamente interessado. - Em princípios do século XVII – esclareceu o interlocutor – participava dos serviços de uma embarcação francesa, em transporte de pau-brasil. Periodicamente, dávamos à costa, onde fizéramos agradável camaradagem com os silvícolas, e, naquela época, envergando a qualidade de português do Alentejo, não tive dificuldades para aprender alguns rudimentos da língua aborígine, ao contacto dos nossos. Em razão disso, o chefe da tribo litorânea, que respondia pelo nome de Aritogogo, dedicava-me especial atenção. Na sexta viagem de nosso barco, o velho bronzeado chamou-me em particular, ministrando-me uma das mais belas lições de filosofia que já recebi em toda a minha vida. Observando-nos a afoiteza em carregar o navio com a madeira preciosa, perguntou-me ele, na linguagem que lhe era familiar: - Escute, meu amigo, não há lenha em sua terra? É preciso enfrentar o abismo das águas para alimentar o fogo no lar distante? - Não, Aritogogo – respondi, esboçando um sorriso de pretensa superioridade -, a madeira não se destina a fogão. O pau-brasil fornece tinta para a industria da Europa. - Mas, para que tanta tinta? – tornou ele, assombrado. - Para tingir a roupa dos brancos – expliquei. - Ah! Ah! Vêm buscar a lenha para repartir com o povo – exclamou o cacique -, assim como nós buscamos remédio para os que adoecem e comida para os que têm fome!... -Não, não – esclareci - somos empregados de um industrial. Toda a carga pertence a um só homem. Trata-se de poderoso negociante de tintas, em França. Aritogogo arregalou os olhos, espantado, e indagou: - Que deseja esse homem com tantos paus e tanta tinta? - Fazer fortuna – respondi -, alcançar muito dinheiro, ter muitas casas e muitos servidores... O chefe índio sacudiu a cabeça e tornou a perguntar: - Mas esse homem nunca morrerá? Ri-me francamente da interrogação ingênua e observei: - Morrerá, por certo. - Então? – disse o índio – se ele vai morrer, como nós todos, deve ser tolo em procurar tanto peso para o coração. Tentei corrigi-lhe a concepção, obtemperando: - Esse homem, Aritogogo, está preparando o futuro da família. Naturalmente pretende legar aos filhos uma grande herança, cercá-los de fortuna sólida... Foi aí que o cacique mostrou um gesto singular de desânimo, e falou em tom grave: - Ah! Meu branco, meu branco, vocês estão procurando enganar a Deus. as tribos pacíficas, quando começam a cogitar desse assunto, esbarram nas guerras em que se destroem umas às outras. O único ser, que pode legar uma herança legítima aos nossos filhos, é o dono invisível da Terra e do Céu. O sol, a chuva, o ar, o chão, as pedras, as árvores, os rios são a propriedade de Deus que, por ela, nos ensina as suas leis. Retirar os nossos filhos do trabalho natural é pretender enganar o Eterno. Como podem os brancos pensar nisso? - Nesse momento, porém – continuou o amigo espiritual -, o comandante chamou-me ao posto e despedi-me de Aritogogo para não mais tornar a vê-lo naquela recuada existência. O companheiro espraiou o olhar pelo céu azul, como a procurar a imagem distante do cacique filósofo e concluiu: Desde então, modifiquei minha ideia de ganho, compreendendo onde estão o supérfluo e o necessário, a previdência e o desperdício, a sobriedade e a avareza, a reserva justa e a ambição criminosa. A lição de Aritogogo incorporou-se ao meu espírito para sempre. Com ela, aprendi que dominar o dinheiro e aproveitá-lo a bem de todos, socorrendo necessidade e distribuindo bom ânimo, é obra do homem espiritualizado; mas, deixar-se dominar pelo ouro, na preocupação de ganho transitório, não reparando meios para atingir os fins, açambarcando direitos de outrem e valendo-se de todas as situações para rechear os cofres e multiplicar os lucros, tão somente para manter a superioridade convencional, em prejuízo da consciência, é obra do homem vulgar, escravizado aos gênios perversos.