Luz.

Luz.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Jornada feérica.

Temi ser banido da luz quando caminhei entre os choupos dourados na grande floresta negra.
Marujos barbudos tocavam bandolins sentados à beira da velha estrada que se estendia até os abismos infernais, onde demônios gemiam acorrentados nas masmorras frias e lodosas.
Palmilhei passo a passo a vetusta via, cercada por rosas negras, onde abelhas gigantescas colhiam mel venenoso.
Deixei a estrada e penetrei em uma clareira repleta de carvalhos gigantes que pareciam atingir as estrelas...
Encontrei branca de neve e os sete anões cantando álacres melodias, caminhando em fila e saltitantes.
Vi a bela adormecida deitada em seu leito aguardando seu beijo prometido.
Os três porquinhos riam e zombavam do lobo sorrateiramente.
Mais adiante deparei com Hamlet sentado na grama de cabeça baixa, a lamentar a fatalidade e sonhando uma nova loucura, que possa libertar sua alma das correntes que a prendem à sua eterna melancolia.
Alguns passos além vi Fausto a manejar retortas e criar fórmulas, para sabotar a natureza e reaver sua antiga juventude perdida.
Dom Quixote estava montado em rocinante e ainda lutava com moinhos de vento acompanhado de seu fiel Sancho Pança.
Vi a deslumbrante beleza de Helena fascinar gregos e troianos, de armas postas, aterrados e boquiabertos.
Encontrei Ulisses abraçado à sua Penélope e os dois chorando a alegria do reencontro eterno.
Achei Cupido em colóquio com sua mãe Vênus a escolher qual alma afortunada receberia a próxima flecha que a conduziria ao céu casto e regozijante do amor perene, invencível e sublime.
Entrei por uma vereda estreita e desemboquei a uma praia próximo a um dique, no qual estava aportado o veleiro negro com suas velas totalmente estendidas. De lá eu ouvia gritos lancinantes, uivos e choros. Aproximei-me da escada que conduzia ao convés. O guardião que velava a entrada segredou-me que era mais um magote de demônios amarrados que seriam lançados aos calabouços lodosos e gélidos.
Afastei-me do veleiro negro, desci até a praia. Senti o toque das ondas  acariciar meus pés, quando subitamente ouvi um canto dolente e belo que arrepiou-me dos pés à cabeça. Fechei meus olhos, uma sensação de prazer como eu nunca tinha sentido em minha vida tomou conta de mim. Minha pele parecia estar sendo acariciada deliciosamente por mil mãos habilidosas. Estremeci de prazer.
Abri os olhos e percebi estar cercado por sete sereias de uma beleza inexprimível. Uma beijou meus lábios. Outra acariciou meu tórax. Uma outra roçou as costas de sua mão por minha face. Outra beijou meu pescoço.
Afastei-me delicadamente e prossegui meu caminho sob o olhar cobiçoso e voluptuoso do gracioso grupo que me cercava.
Voltei à estrada e continuei a caminhar até chegar a uma nova vereda, por onde caminhei até deparar com um magnífico castelo. Tão logo aproximei-me a ponte levadiça desceu, como um convite claro e inesperado para entrar. Entrei em um salão todo ladrilhado repleto de livros antigos. No centro havia um enorme espelho do tamanho de um homem adulto. Acheguei-me ao espelho e ao invés de ver minha própria imagem, meus olhos espantados viram a mais extraordinária visão de toda minha vida: uma mulher de uma beleza que nenhum poeta é capaz de exprimir, nenhum pintor é capaz de pintar. Uma deusa descida dos céus por um momento para encher os olhos e a alma de todos os mortais, olhava sorridente para mim. Seu olhar tinha o frescor de um rosto de bebê, a doçura da mais suave das mães, a pureza dos santos, aliada à sabedoria e bondade.
Caí de joelhos. Vi sua mão sair do espelho, acariciar meu cabelo, ela inclinar-se e beijar meus lábios.
Seu beijo fez muito mais do que estremecer minha alma de alegria. Ela fartou de esperança e bondade meu coração despedaçado e vazio sob a saraivada do destino. Encheu de luz o quarto escuro de minha vida solitária e triste para sempre.
Deixo consignado aqui meu voto de agradecimento àquela que desceu até mim e agraciou-me com seu amor.

Hei de encontrar contigo minha deusa. Guarda teu beijo para mim. Espero alguns miseráveis anos, até o fim de minha jornada aqui neste inferno,  para ressuscitar em teus braços e beijar teus lábios sob o coro de anjos e a benção sempiterna de Deus para sempre.