Temi ser banido da luz quando caminhei entre os choupos
dourados na grande floresta negra.
Marujos barbudos tocavam bandolins sentados à beira da velha
estrada que se estendia até os abismos infernais, onde demônios gemiam
acorrentados nas masmorras frias e lodosas.
Palmilhei passo a passo a vetusta via, cercada por rosas
negras, onde abelhas gigantescas colhiam mel venenoso.
Deixei a estrada e penetrei em uma clareira repleta de
carvalhos gigantes que pareciam atingir as estrelas...
Encontrei branca de neve e os sete anões cantando álacres
melodias, caminhando em fila e saltitantes.
Vi a bela adormecida deitada em seu leito aguardando seu
beijo prometido.
Os três porquinhos riam e zombavam do lobo sorrateiramente.
Mais adiante deparei com Hamlet sentado na grama de cabeça
baixa, a lamentar a fatalidade e sonhando uma nova loucura, que possa libertar
sua alma das correntes que a prendem à sua eterna melancolia.
Alguns passos além vi Fausto a manejar retortas e criar
fórmulas, para sabotar a natureza e reaver sua antiga juventude perdida.
Dom Quixote estava montado em rocinante e ainda lutava com
moinhos de vento acompanhado de seu fiel Sancho Pança.
Vi a deslumbrante beleza de Helena fascinar gregos e
troianos, de armas postas, aterrados e boquiabertos.
Encontrei Ulisses abraçado à sua Penélope e os dois chorando
a alegria do reencontro eterno.
Achei Cupido em colóquio com sua mãe Vênus a escolher qual
alma afortunada receberia a próxima flecha que a conduziria ao céu casto e regozijante
do amor perene, invencível e sublime.
Entrei por uma vereda estreita e desemboquei a uma praia
próximo a um dique, no qual estava aportado o veleiro negro com suas velas
totalmente estendidas. De lá eu ouvia gritos lancinantes, uivos e choros. Aproximei-me
da escada que conduzia ao convés. O guardião que velava a entrada segredou-me
que era mais um magote de demônios amarrados que seriam lançados aos calabouços
lodosos e gélidos.
Afastei-me do veleiro negro, desci até a praia. Senti o
toque das ondas acariciar meus pés, quando subitamente ouvi um canto dolente
e belo que arrepiou-me dos pés à cabeça. Fechei meus olhos, uma sensação de
prazer como eu nunca tinha sentido em minha vida tomou conta de mim. Minha pele
parecia estar sendo acariciada deliciosamente por mil mãos habilidosas.
Estremeci de prazer.
Abri os olhos e percebi estar cercado por sete sereias de
uma beleza inexprimível. Uma beijou meus lábios. Outra acariciou meu tórax. Uma
outra roçou as costas de sua mão por minha face. Outra beijou meu pescoço.
Afastei-me delicadamente e prossegui meu caminho sob o olhar
cobiçoso e voluptuoso do gracioso grupo que me cercava.
Voltei à estrada e continuei a caminhar até chegar a uma
nova vereda, por onde caminhei até deparar com um magnífico castelo. Tão logo
aproximei-me a ponte levadiça desceu, como um convite claro e inesperado para
entrar. Entrei em um salão todo ladrilhado repleto de livros antigos. No centro
havia um enorme espelho do tamanho de um homem adulto. Acheguei-me ao espelho e
ao invés de ver minha própria imagem, meus olhos espantados viram a mais
extraordinária visão de toda minha vida: uma mulher de uma beleza que nenhum poeta
é capaz de exprimir, nenhum pintor é capaz de pintar. Uma deusa descida dos
céus por um momento para encher os olhos e a alma de todos os mortais, olhava
sorridente para mim. Seu olhar tinha o frescor de um rosto de bebê, a doçura da
mais suave das mães, a pureza dos santos, aliada à sabedoria e bondade.
Caí de joelhos. Vi sua mão sair do espelho, acariciar meu
cabelo, ela inclinar-se e beijar meus lábios.
Seu beijo fez muito mais do que estremecer minha alma de
alegria. Ela fartou de esperança e bondade meu coração despedaçado e vazio sob
a saraivada do destino. Encheu de luz o quarto escuro de minha vida solitária e
triste para sempre.
Deixo consignado aqui meu voto de agradecimento àquela que
desceu até mim e agraciou-me com seu amor.
Hei de encontrar contigo minha deusa. Guarda teu beijo para
mim. Espero alguns miseráveis anos, até o fim de minha jornada aqui neste
inferno, para ressuscitar em teus braços e beijar teus lábios sob o coro de
anjos e a benção sempiterna de Deus para sempre.