Luz.

Luz.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Beleza e palavras.

“Tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo: uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro.”
                                           Machado de Assis.

Belas e profundas palavras, escritas por um genial artista da língua portuguesa. Este trecho abunda sabedoria e perspicácia. Para apreendê-lo, não basta cultura intelectual, há de se “conectar” ao mundo interior deste gênio superior para penetrar a clareira de seu pensamento.
O contexto do trecho se presta a isto. Machado de Assis, como todos os grandes escritores da humanidade, os mestres supremos da arte de escrever, tinha o dom de “sugerir,” intelectualmente falando.
Os grandes artistas da sagrada arte de escrever, não lançam afoitamente suas ideias ao espírito do leitor. Eles escolhem palavras e frases e ajeitam-nas de forma a produzir um determinado efeito intelectual na mente de quem ler, mas de forma sutil e delicada. Sem perceber como, o leitor apreende imediatamente o pensamento oculto sob a mensagem escrita e assimila seu conteúdo.
Só os grandes escritores da humanidade, os mestres supremos da palavra e do pensamento tem este dom, esta magia sublime de expressar-se. Suas palavras penetram imediatamente as camadas profundas do inconsciente e vão direto ao coração de quem lê, causando um profundo efeito no mundo íntimo do leitor, arrastando o leitor às alturas ignotas que pairam sobranceiras sobre nossa cabeça.
É um dom sublime este, o dom de cativar o leitor e fazer sua alma transportar-se ao infinito. O leitor é transportado imediatamente de seu meio, de sua existência estreita, baixa e vulgar; de sua vida pequena, mesquinha e prosaica, para o universo mágico na eternidade de Deus, onde uma multidão de anjos louvam encantados a beleza eterna e o bem sempiterno no seio de Deus.
Esta é uma das principais diferenças entre os talentos medíocres e o gênio. O gênio não precisa de esforço para atingir a excelência. Sua alma voa entre as alturas permanentemente, enquanto os demais rastejam com extrema dificuldade para dar um passo além.
No texto de  Machado de Assis acima, a palavra “bordar” tem um papel preponderante na interpretação contextual. “Bordar,” ou melhor: “enfeitar” revela a ideia central do texto, a intenção primordial do autor.
Podemos notar isto na frase: “Também se pode bordar nada.” Ao leitor desavisado e superficial parecerá que Machado de Assis quis dizer: “Também não se pode bordar coisa alguma,” mas a frase seguinte: “Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro,” dá a entender que a palavra “nada” não tem o significado comum de “coisa nenhuma,” mas sim o sentido filosófico do termo.
Podemos chamar isto de ousadia criativa. Machado de Assis afrontou os cânones literários a favor da beleza, ao aplicar deliberadamente um pseudo sentido à palavra “nada” mais de acordo à sua intenção literária.
É bem clara esta conotação no trecho: “Nada em cima do invisível”... É óbvio que “nada” aqui tem um sentido totalmente diferente, pois o “nada” não pode causar qualquer efeito, muito menos pousar “em cima” de algo.
O “nada” a que se refere Machado de Assis está mais para uma visão do mundo encantado das alturas sublimes, o universo mágico  e luminoso dos anjos, duendes e fadas, ao qual o gênio vive conectado a vida inteira. É isto que Machado quis dizer com o verbo “bordar,” enfeitar a realidade com a luz mágica dos sonhos, para  não morrermos  extenuados no cansaço cotidiano, famintos de luz e beleza, sob o vazio frio e rasteiro que pesa terrível em nossa miserável vida.