Luz.

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Texto da obra "A descida dos ideais." Pietro Ubaldi.

VII OS IDEAIS E A REALIDADE DA VIDA.

A Técnica das revoluções no processo evolutivo.

Quando os ideais descem à Terra, são transplantados para um plano biológico mais baixo. Observemos então que reações tem eles de suportar, a que transformações e adaptações devem ser submetidos, para poder sobreviver no nível evolutivo inferior do mundo, e que uso em tais condições faz deles a vida para poder utilizá-los para os seus fins. Certamente é inevitável que o ideal, dado que ele representa um modelo de vida mais avançado, deva suportar um retrocesso, para poder subsistir naquele nível inferior em que desce, o que se faz necessário para que este possa avançar. Pelo fato de o impulso do progresso em direção ao alto procurar impor a ascensão, isto não significa que a realidade biológica, ou seja, o que de fato a vida é na Terra, esteja pronta para transformar-se. Esta realidade tem as suas leis férreas, verdadeiras neste plano onde dirigem a vida, e de modo algum estão dispostas a deixar-se destronar. Por um lado, o ideal impõe justiça, honestidade, sinceridade, altruísmo, bondade etc. por outro lado a vida se baseia sobre um princípio bem diverso, que é a luta pelo triunfo do mais forte, pelo que vale aquele que vence com qualquer processo, mesmo que se contradiga totalmente o ideal, e ainda que seja injusto, desonesto, falso, egoísta, malvado etc. Se esta é a lei do animal humano que predomina na Terra, eis que a descida do ideal, se é vista de baixo pode parecer um assalto à integridade da vida, pelo menos na forma em que ela é entendida e quer realizar-se neste plano biológico. Como se conduz ela então em sua própria defesa, para permanecer no seu nível? A princípio resiste, reage à   mudança, rebela-se; depois acaba por adaptar-se, e por fim, assimilando o novo, se transforma. Então a função do ideal naquele determinado nível evolutivo acabou e pode descer outro ideal mais avançado, para tomar com o mesmo método, o mesmo trabalho, mas num nível um pouco mais alto. Enfrentam-se, assim, em nosso mundo, o ideal e a realidade biológica, em posição de luta, cada um para dirigir a vida à sua maneira e impor-se como regra absoluta. Qualquer dos dois possui a sua moral, coloca-se como lei de vida, sobre a qual o seu próprio plano baseia a sua existência. Não é fácil, portanto, sair disto. A moral do ideal é a superação da realidade biológica, isto é, do tipo de vida vigente do animal humano e com este fim impõe o esforço para realizar a ascensão evolutiva, renegando o mundo. A moral do plano terrestre, é, pelo contrário, a da sobrevivência a qualquer custo, lutando só por isto e evitando desperdiçar energias, ao buscar aventuras evolucionistas, duvidosas superações, preferindo ficar no nível atual, conservando as velhas posições, antes confirmando e assegurando-se melhor a vida no mundo. Estes princípios opostos não aparecem na Terra somente como teorias abstratas, mas concretizados na pessoa de tipos biológicos opostos que são o do evoluído, que representa e vive o ideal, e o do involuído, que representa e vive a realidade biológica do ambiente terreno. O primeiro é uma antecipação do futuro, o segundo é um resíduo do passado, e eles chocam-se no presente, que é um período de transição do segundo para o primeiro. O evoluído, porque é mais avançado, cumpre no equilíbrio biológico, a função de guia, de exemplo, de impulso que dinamiza, estimulando a subir. O involuído, por ser atrasado, representa a resistência, o obstáculo ao progresso, a revolta, o impulso oposto, ou seja, o da negação. A luta reside entre dois biótipos que personificam os dois princípios opostos. O evoluído encontra-se deslocado na Terra, que não é o seu ambiente, mas cumpre ali a sua grande função evolutiva. O involuído encontra-se à sua vontade na Terra, no seu ambiente, a ele proporcionado; por este motivo, se sente incomodado pelo ideal que pretende deslocar as bases da sua vida, e defende-se dele, bem armado para a resistência. E no momento atual, por ser ele maioria, tem razão de ser na Terra. Mas a humanidade entrou já numa fase de transição evolutiva, pelo que, com gradual adaptação ao novo, a sua resistência começa a ceder e se inicia a assimilação e a transformação. Só depois de compreendermos isto, podemos entender o porquê da contradição entre bom e mau, entre verdade e mentira, de que está impregnada a vida do homem atual. Nele coexistem luz e trevas, e a tentativa da primeira realização do ideal aparece no mundo saturado de animalidade, tenazmente radicada no passado, revoltada e resistente. É assim que o ideal, apesar de descer do Alto, quando chega à Terra para se realizar, encontra-se subordinado às leis desta, ligado aos acontecimentos do desenvolvimento histórico, submetido à incerteza da tentativa que impera nas coisas humanas, ainda que no fundo do fenômeno fique o superior impulso do ideal, a sua potência e decisiva vontade de realizar-se. Assistimos assim a um choque de elementos opostos, o humano e o divino, que poderá fazer uma pausa, atrasar-se, mas que nunca poderá ser obrigado a deter-se pelo elemento humano. A força do ideal é interior, vem-lhe de dentro, porque lhe vem de Deus. O que luta é esta força interior que quer alcançar o seu florescimento exterior que é a sua manifestação na forma. Mas o fato do Alto tolerar estas resistências do mais baixo, não significa que o ideal seja o mais débil e que no fim ele não seja vitorioso sobre tudo mais. Se estas resistências subsistem, é porque formam parte da estrutura do processo evolutivo, o qual tem a sua razão de ter tal forma e não outra. A descida do ideal é um presente do Alto, é uma irradiação que provém de Deus, que assim se faz imanente até aos mais baixos planos involutivos para salvar o ser, atraindo-o a si, impulsionando-o a evoluir em direção ao alto. Mas este impulso por si só não basta se ele não for secundado pela boa vontade e esforço do ser, cuja liberdade é respeitada, pelo que ele pode aderir ou não, de maneira que livremente se resolva evoluir. O esforço para subir deve ser da criatura, porque a justiça quer que nada se ganhe sem ter sido merecido, por fim, as dificuldades para vencer são necessárias não só para que o esforço se realize e assim se haja ganho o mérito, mas também para que a experiência vivida ensine e por meio dela o indivíduo aprenda e construa as novas qualidades que constituem a sua evolução. Os obstáculos superados representam a resistência na qual se enrijece o lutador, o valor do soldado no campo de batalha, a prova da capacidade adquirida, o seu diploma de honra que o qualifica para ser admitido num plano evolutivo mais alto. Não há, pois, que desencorajar-se, se por um momento o mundo vence o ideal este no final sabe igualmente triunfar mesmo que no seu percurso terreno ele seja manchado, maltratado, mutilado, emborcado. É lógico que não possa ser diferente deste, o seu trajeto terreno que vai desde a sua aparição até à sua afirmação. Para poder transformar os demônios em anjos, os anjos devem misturar-se com eles sem deixar por isso de ser anjos. Para iluminar melhor a Terra, a estrela tem de descer até o lodo, mas não por isso deixando de ser estrela, pelo contrário tratando de iluminá-lo para lhe vencer a opacidade, até que o lodo se transforme em estrela. As condenações, as perseguições, as quedas ao longo do caminho são parte necessárias do processo da descida dos ideais e da sua afirmação. Se se observa bem, descobre-se que estes impulsos negativos terminam-se por emborcar-se, funcionando positivamente, não contra, mas a favor; que estas dificuldades têm uma potência criadora porque excitam uma reação a favor do perseguido, que adquire assim auréola de martírio, e que automaticamente excita a admiração do mundo. Tanto é assim que para os grupos humanos de qualquer tipo, o mártir, que se sacrificou pela  ideia sobre a qual se baseiam sua existência, é mercadoria muito procurada, porque eles sabem muito bem que potência psicológica de proselitismo existe em favor do grupo e portanto da sua potência, representado por tal exemplo. A derrota de um momento no qual é o involuído o vencedor, se torna por meio dele, a semente do futuro desenvolvimento do ideal, um instrumento de vitória. O homem moderno, tornado mais astuto, enquanto vai em busca de perseguidos para o ideal do seu próprio grupo, para venerá-los a seu próprio favor e para desacreditar os grupos inimigos acusando-os de perseguição, evita praticar perseguições abertas, porque compreendeu a potência que existe em favor dos perseguidos e do seu grupo. Concluindo, pela sabedoria com que arquitetado este fenômeno, é a própria derrota do evoluído e a vitória do involuído, que leva ao triunfo do ideal.  Tratemos de desenvolver estes conceitos observando alguns casos nos quais resulta mais evidente a contradição entre os dois opostos, o ideal e a realidade biológica. Esta contradição se manifesta porque está escondida debaixo do ideal, mas no entanto aquela realidade acaba por aparecer. Porque, frequentemente, o ideal é usado sobretudo para mascarar esta outra  verdade bem diversa. Assim se explica como é que, o fato de seguir o mesmo princípio e programa que deveria levar a união entre os seguidores, na prática leva à sua rivalidade e divisão; então em vez de somar-se eles se destroem e o fraternizar conduz ao sectarismo e aos antagonismos religiosos. Aqui vemos dois impulsos opostos em luta: o do evoluído que quer levar à unificação na ordem (Sistema), e o do involuído que tende ao separatismo que culmina no caos (Anti-sistema). O ideal é neste caso utilizado, como dizíamos agora, como uma coberta de aparência formosa para camuflar a realidade dos interesses que se escondem ali por baixo. Trata-se de um fenômeno que se encontra em todos os campos, religioso, político, social, nos terrenos mais diversos, mesmo de natureza oposta. Porque em todos os casos a substância do fenômeno é a mesma, isto é, não é dada pelo ideal professado, utilizado para escondê-la, mas dada pelo grupo humano que o representa, pelos seus interesses, pela luta que ele tem de conduzir para a sua sobrevivência. Na realidade, a vida está feita de tal maneira que o mais urgente a salvar-se em primeiro lugar, são os interesses e não o ideal. O que assegura a continuação necessária da vida não é a moral da superação, mas a moral da sobrevivência. É assim que hoje assistimos o mesmo fenômeno, em dois campos muito diversos: por um lado vemos que os seguidores do mesmo Cristo estão divididos em religiões diferentes e rivais, e o fato das religiões adorarem o mesmo Deus não as une mas as divide; por outro lado, vemos os comunistas de todo o mundo, seguidores do mesmo Marx e Lenine, lutarem entre Rússia e China em nome do mesmo ideal. A realidade é que, debaixo da bandeira dos mesmos princípios, se formaram grupos com interesses diversos e são estes que prevalecem. Assim o ideal se adapta e se transforma a serviço de fins mais próximos e concretos, que não têm nada em comum com ele e terminam por substituí-lo. Debaixo da revolta religiosa de Lutero, havia um desejo de emancipação do império da Roma latina, um contraste de raças, percebido pelas massas, e sem isso a emancipação não teria acontecido. Esta é a substância, mesmo que queira justificá-la com o escândalo da venda das indulgências por parte de Roma, do qual o próprio Lutero não tinha o direito de queixar-se, pois que por sua parte cuidava igualmente dos seus interesses. E por séculos, sob o mesmo Cristo, as duas partes continuaram acusando-se de erro.