Luz.

Luz.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Deslumbramento.

Moro atualmente em uma ilha no litoral sul do estado de São Paulo. Uma pequena cidade, a qual dizem uns que é a segunda mais antiga do Brasil, dizem outros que é a primeira.
Ainda se encontra monumentos da era colonial, até mesmo um canhão original. A cidade ficou muito tempo afastada culturalmente da capital, o que atravancou seu desenvolvimento. O progresso chegou muito tarde. O povo é pobre e ignorante, a maioria é constituída por caiçaras ou descendentes de caiçaras.
Se do ponto de vista socioeconômico a cidade é uma nulidade, do ponto de vista histórico e antropológico é muito rica.
Aqui a natureza é abundante. Há um contato frequente entre as pessoas e a natureza. Frequentemente há um contato próximo entre pessoas e animais. Há também uma quantidade incontável de insetos.
Um dia uma parente minha deparou-se com um jacaré diante de seu portão, ao sair de casa. É comum encontrar gambás por toda a cidade. Avista-se golfinhos perto da cidade e muitos outros peixes de grande porte.
Bem no centro da cidade, em uma praça diante do mar e junto aos barcos estacionados diante da praça, há uma agência bancária, a qual eu frequento muitas vezes.
Em um luminoso dia de verão, sob um radiante sol, o qual espalhava seus raios brilhantes por tudo, iluminando e alegrando toda a cidade, eu estava sentado em uma poltrona no interior da agência bancária aguardando o atendimento. Talvez impressionado pela beleza do dia, talvez mais encantado com a luxuriante natureza de Deus à minha volta, eu olhei ao redor de mim no interior da agência. Havia muitas pessoas àquela hora. Os poucos funcionários estavam atarefados em suas funções, outras pessoas aguardavam, umas em pé e outras sentadas.
Foi ao virar meu rosto para o lado direito, que um forte sentimento místico apossou-se de minha alma. Parecia que Deus havia tocado minha alma. Uma sensação maravilhosa de paz, serenidade e beleza tomou meu coração. Eu quase que via um magnífico raio colorido vindo do infinito e derramando-se em meu coração, causando-me um jubiloso êxtase. Minha alma soltou-se das algemas do tempo e do espaço, senti-me como se estivesse subindo para as esferas ignotas e radiosas no seio de Deus. Um magnífico sentimento de gratidão surgiu repentino dentro de mim. Um desejo louco de abraçar toda a criação e cantar hosanas a Deus para sempre. Senti uma vontade súbita de cantar o amor de Deus para todo o universo.
Repentinamente, fui chamado à realidade pelo alarme das senhas que anunciava o número da próxima senha.
Meu Deus! Um sentimento de piedade imenso apoderou-se de meu coração ao observar os rostos atentos aos números, às conversas banais, aos rostos medíocres, às expressões vazias estampadas nos rostos das pessoas que me cercavam. Aquela era a realidade psicológica das pessoas, mas não era a verdadeira e sim uma realidade factícia e invertida, produto da loucura cotidiana e perversa. Funcionários e clientes estavam de mãos dadas, formavam um mesmo batalhão em luta contra a alma e o coração.
Foi aí que percebi a baixeza da alma humana. Trilhões de estrelas pululam sobranceiras sobre nossa cabeça. Milhões de galáxias carregam um número infinito de mundos e satélites. Astros infinitos embelezam as esteiras dos céus por estradas rutilantes infinitas e a tola alma humana a se arrastar por este minúsculo grão de areia, perdido nas imensidões do oceanos celestes, que chamamos de mundo, amarrada às convenções tolas, a minúsculos interesses; rasteiros, egoístas e perversos.
Assim, a alma humana passa o tempo brincando de viver, como uma criança grande, mas nunca vive realmente.

Amo a natureza! Bastou-me sair daquele ambiente artificial, estreito, fechado e baixo, para respirar o ar livre e leve da praça; diante do magnífico oceano, repleto de barcos àquela hora, sob o lindo astro rei daquele dia de verão, para sentir meu amor enlevar-se dentro de mim e transportar-me aos confins do universo, ao coração de Deus, onde abunda a paz, o amor e a beleza para sempre, muito distante do inferno mesquinho e rasteiro de nossa miséria cotidiana.